A DÁDIVA E A DÍVIDA

 

 

 

 

A DÁDIVA E A DÍVIDA

“Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.” A primeira frase do romance A ESCRAVA ISAURA, de Bernardo Guimarães, já nos situa no contexto histórico: um Brasil que vivia ainda o clima da Independência , com todo o entusiasmo nacionalista do Romantismo em plena voga e com o movimento abolicionista ganhando cada vez mais terreno. Nesse contexto, Bernardo Guimarães, como outros autores românticos, propõe-se atuar junto à sociedade como formador de opiniões. O público a que ele se dirige é a minoria burguesa ( pois a maior parte da população não sabe ler) e , particularmente, a mulher burguesa que, segundo M. Cavalcanti Proença, “só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos”. O objetivo do autor é, além de proporcionar aos leitores uma fuga da realidade medíocre, contribuir para que as idéias iluministas de liberdade e igualdade prosperem na sociedade. Mas o autor está marcado por seu tempo e seu espaço, ele incorpora a seu texto mitos e valores da classe dominante. Marilena Chauí diz que “a ideologia é uma ilusão necessária à dominação de classe”. Mas como poderemos afirmar que um romance libertário, que condena a desigualdade e a escravidão, pode conter elementos ideológicos a serviço da dominação de classe? Como veremos, a liberdade da escrava Isaura é fruto de transação comercial: Isaura ( a mulher, a escrava) não deixa de ser objeto, não deixa de ser propriedade.
O destino das principais personagens de “A ESCRAVA ISAURA” é definido pela relação econômica: Álvaro compra Isaura, juntamente com todas as propriedades e bens de Leôncio. O fracasso econômico de Leôncio associa-se ao seu fracasso como sedutor e sua morte (por suicídio) simboliza a impossibilidade de sobrevivência das idéias ultrapassadas dos escravocratas. O sucesso econômico de Álvaro associa-se ao seu êxito amoroso (conquista o coração de Isaura) e sua vitória econômico-amorosa simboliza a vitória do ideário político liberal e abolicionista.
A liberdade de Isaura  ( e dos escravos) não é uma conquista dos negros, mas é uma dádiva do branco Álvaro, que simboliza o novo poder liberal emergente. Dádiva que logo se constitui em dívida: os negros devendo trabalhar para “indenizar Álvaro do sacrifício que fizera com a sua emancipação”( Cap.XI ); dádiva que transforma Isaura em senhora e Leôncio em escravo – “Isaura, tu és hoje a senhora e ele o escravo”( Cap.XXII ) – numa mudança de papéis que não altera a relação de desigualdade e de dominação, mas a restabelece sob novas formas.
É interessante notar ainda que a escrava que se torna senhora é branca e , como diz Maria Nazareth S. Fonseca, a sociedade brasileira do século XIX  “aceitou-a porque ela era branca e educada” e até em seu nome ressoa  a  palavra  áurea ( de ouro ) ;  a cor branca do herói libertador é reforçada em seu nome , Álvaro, que vem do latim albis (branco) e o nome do vilão que afinal é reduzido à condição de escravo, Leôncio, traz a palavra latina leo (leão), animal da África, terra de onde vieram os negros escravizados.
O romance de Bernardo Guimarães, destinado ao público burguês e conservador, realiza de forma bastante elaborada a função ilusória da ideologia: acenando com a perspectiva de mudança da ordem estabelecida, acaba por confirmá-la e por restabelecê-la sob novas formas. O jogo da trama e os artifícios literários de que o autor se vale (até inconscientemente) para construir a mensagem conservadora subliminar, subjacente á sua declarada intenção reformista, é o que Umberto Eco chama de “estruturas de consolação”: para consolo dos leitores conservadores e do seu próprio conservadorismo não superado, o artista acaba por confirmar o status quo que tentara denunciar e modificar. Em Bernardo Guimarães isso se dá de forma bem “light”, já que seu romance tem como personagem central uma escrava que é branca e que é exemplarmente submissa, cônscia de seu papel e de seu lugar.

Afonso Guerra-Baião

Um comentário em “A DÁDIVA E A DÍVIDA

  1. Eu confesso que não li o livro, mas vi a novela nas 3 vezes que ela passou na Record (por lá o Leôncio nunca se matava, sempre era um personagem diferente que dava cabo da vida dele). E fiquei com vontade de ler, até para notar as sutilezas da adaptação para a TV, e as observações que fez em sua crônica.

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