A escrita da anomia

Rubem Fonseca publicou “Feliz Ano Novo” em 1975, em plena ditadura militar. Nesse ano o general Geisel fechou o Congresso Nacional, editou o “pacote de abril” e sancionou a “lei Falcão”, tentando impedir a vitória da oposição nas eleições parlamentares. Esse ano também ficou marcado pelos assassinatos do jornalista Wladimir Herzog e do líder operário Manuel Fiel Filho nas dependências do departamento de investigação do Exército em S. Paulo. O país vivia um momento de crise econômica e de violência política , que a propaganda oficial e a censura procuravam mascarar.

O livro de Rubem Fonseca, ironicamente intitulado “Feliz Ano Novo”, retrata um período dos mais difíceis da vida brasileira e nele aparecem retratadas a alienação e a insensibilidade dos setores privilegiados da sociedade, a marginalização da camadas populares , a ausência de senso ético nas relações sociais e a violência generalizada. E por denunciar a realidade que a propaganda oficial mascarava, não é de admirar que o livro fosse proibido pela censura e recolhido das livrarias onde já estava à venda, sob alegação de que se tratava de obra pornográfica, que desrespeitava a moral e os bons costumes.

O fio condutor, o elemento principal que estabelece a unidade do conjunto de contos que compõem o volume “Feliz Ano Novo” é o tema da anomia (a ausência de princípios éticos, de regras e de limites) que os personagens exprimem através da prática de variadas formas de violência e de perversão. A escrita da anomia e da violência é feita em três registros: um que procura realizar a reprodução da língua falada de setores marginalizados da sociedade, com uso de gírias , de vocabulário chulo e construções próprias da oralidade ( como nos contos “Feliz Ano Novo”, “Botando pra quebrar”, “Abril, no Rio, em 1970”, “Entrevista”), outro que em que a narração é feita dentro dos padrões da norma culta (“Passeio noturno”, “Agruras de um jovem escritor”, “Intestino grosso”, “O outro”, “Nau Catrineta”, “74 degraus”, “O pedido”) e um terceiro em que os dois padrões de linguagem se misturam ( “Corações solitários”, “Dia dos namorados”, “O campeonato”). Se na maioria dos contos a divisão da sociedade em classes é percebida através do padrão linguístico, os diferentes padrões de linguagem registram um comportamento semelhante nos segmentos sociais : a violência e a perversão como marcas de uma anomia generalizada. Por motivos diferentes, os marginais de “Feliz Ano Novo” e o empresário de “Passeio noturno” encaram a violência com naturalidade e a incorporam em suas práticas cotidianas. Problemas como o desemprego aparecem claramente como causas de conduta agressiva em personagens populares ( “Botando pra quebrar” ) e a pura perversão, nascida de uma vida alienada, marcam o comportamento criminoso de pessoas da classe dominante (“Passeio Noturno”, “Nau Catrineta”, “74 degraus” ). Em dois contos os personagens não praticam a violência, mas são envolvidos na teia de frustrações gerada pelo modelo competitivo da sociedade e que os empurra para a marginalidade e, talvez , para a violência: em “Abril, no Rio, em 1970” o jovem de classe popular, vendo as dificuldades de vencer no único espaço em que poderia competir – o futebol – termina sua narrativa dizendo estar “sem saber para onde ir”. O jovem de classe média de “Agruras de um jovem escritor”, é traído pela própria atividade com que pretendia conquistar a glória, vencer na vida : a escrita. A dura luta pela sobrevivência no mundo cão da sociedade competitiva marca com a neurose vidas tão diferentes como as do travesti de “Dia dos namorados” e do executivo de “O outro”. A competição, o senso de propriedade ( inclusive a propriedade de outro ser humano), caracterizam a sociedade capitalista , acabando por gerar a alienação, a neurose, a marginalidade, a violência e a perversão. Rubem Fonseca capta esse quadro num momento em que ele é agravado pela marginalização da sociedade como um todo, em que a heteronomia radical da ditadura faz brotar por todo lado a anomia e sua expressão violenta.

“Feliz Ano Novo” foi proibido pela censura, sob alegação de pornografia. O senador Duarte Mariz disse : “Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também”. O ministro Armando Falcão disse, por sua vez: “Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isto bastou.” Além de expressarem todo o autoritarismo do regime militar, essas declarações mostram como os governantes da época procuravam, sob uma fachada de moralidade, evitar a discussão do que seria realmente imoral: a condição miserável de vida ( gerada por uma política promotora de desigualdade e de injustiça social), levando os excluídos para a marginalidade, e a alienação da minoria privilegiada, levando-a à insensibilidade e à desumanização. O livro de Rubem Fonseca , escrito em diferentes registros de linguagem, denuncia a separação entre os homens e a fragilização cada vez maior de suas possibilidades de entendimento, de compreensão , de amor: a fragilização que pode levar à destruição do Humano.

(Afonso Guerra-Baião)

2 comentários em “A escrita da anomia

  1. Aí está outra grande resenha, que me deixa com muita vontade de ler o livro. Desse Rubem (estou mais para o Braga) li O Homem de Fevereiro ou Março e também O Caso Morel, que está entre os livros que mais me impactaram.

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