O maníaco das vírgulas

Diz que no Hospital do Servidor Público Estadual há um andar exclusivo para professores loucos. Gente vinda de todas pontas do estado de São Paulo para recuperar a sanidade ou, ao menos, conter a desrazão. Não sei de outras carreiras que tenham esse índice de contaminação, embora, haja muita gente louca por aí.

Descobri há pouco tempo um novo tipo de enfermidade mental que pode estar vitimando nossos mestres, em especial os de língua portuguesa. É um tipo inteiramente original de patologia que, certamente, ainda não deve ter sido catalogado pela Organização Mundial de Saúde, pois está diretamente relacionado à observância da aplicação correta da vírgula.

Claro que eu não me arrisquei a conhecer um paciente desse mal pessoalmente. Imagine a pessoa falando e ele interrompendo, pondo um dedo na boca alheia para pedir: “Não, respire um pouco. Nenhuma sentença é assim tão longa, desse jeito eu não identifico onde está o aposto desta oração”.

Meu contato foi mais indireto, por assim dizer. Comprei um livro recentemente em um sebo de Pinheiros. O livro, hermeticamente embrulhado em plástico transparente, sugeria que o dono anterior mal o havia tocado. Sem orelhas, nem aquele tom cinza nas páginas que denuncia uma leitura anterior.

Só que uma pulsão é algo incontrolável. O tal se segurou por 22 páginas do livro e daí não se aguentou: marcou logo quatro inserções da vírgula discutíveis de uma vez. Deve ter se reprimido, tomado uma água, quem sabe saído para dar uma volta, exasperado pelo próprio destempero. Mas, eis que dez páginas adiante ele não se segurou e denunciou novamente o texto: uma vírgula que antecedia um “e”, pois se o “e” é um elemento de ligação, como é que pode haver uma vírgula para separar uma sentença da outra?

Dali em diante, o maníaco se liberou, criticou vírgulas que anunciavam apostos (palavra ou frase que vem explicar ou qualificar o que foi dito antes), outras que se interpunham ao uso do“ou”, que assim como o “e” está lá para juntar as palavras e orações. Noutros momentos em que o autor fez o uso gramaticalmente previsto, o maníaco também circulou com seus lápis número 2 o trecho, como para indicar “está vendo, você sabe muito bem o que fazer, então por quê faz isso? Pra me enlouquecer?”.

E assim foram por 470 páginas do livro. Em defesa do autor, podemos apontar como bode expiatório o tradutor, este sim responsável pelo desatino com a língua portuguesa ou o revisor, este outro pago justamente para impedir tamanha infâmia.

Penso que somente um professor poderia padecer deste mal. Quem mais ficaria tão indignado com o problema? Ou melhor, quem mais poderia identificar esse mal nos livros, jornais e revistas?

Talvez no desespero de saber-se o próximo a ingressar no andar dos loucos do hospital, ele, para despistar, vendeu o livro no sebo. Onde eu, inadvertidamente, dei com o registro de seu delírio. Penso que é triste, mas é menos danoso à população que a loucura dos grifos. Não conhece? Essa é uma patologia bem mais frequente: pense nos livros das bibliotecas, nos da sua família, naqueles dos sebos e se lembrará de já ter pego um exemplar totalmente contaminado por frases, parágrafos e notas de rodapé grifados. E os grifos são contagiosos: se não fazem o leitor também passar a riscar com traços irregulares a obra, distraem sua atenção para coisas totalmente desprovidas de sentido ou importância. E aí, acaba o leitor seguinte frustrado, pois ao invés de pistas, é atraído grifo após grifo para cair no nada.

Quanto a mim, penso em procurar o dono do sebo e exigir que me identifique o dono anterior da obra. Afinal, trata-se de uma questão de saúde pública.

Aline Viana

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Sobre Aline Viana

Aline Viana nasceu em São Paulo, em 1981, mas prefere que não espalhem a que safra pertence. É formada em jornalismo. Cansada de tanto quem, o quê, quando, onde, como e porque resolveu entrar em um curso de crônicas. Foi um santo remédio para recuperar a saúde de seus textos. Se o diagnóstico está correto, você pode checar nos blogs: cronicasdas12.blogspot.com e semanalmente no vidasetechaves.wordpress.com . Novos pareceres são sempre bem-vindos. Ver todos os artigos de Aline Viana

6 respostas para “O maníaco das vírgulas

  • Ricardo Gomes

    Eu adoro particularmente as vírgulas. É só ler algo que eu escrevo e perceber que, para mim, muitas vezes elas têm a força das palavras (ou mais, conforme a situação!). Elas explicam, pontuam, dão ênfase, aditivam sentimentos. Enfim, não há como ignorá-las ou usá-las sem dar-lhes a importância que têm. James Joyce que me perdoe mas vivas às vírgulas!

    • Aline Viana

      Eu acho as vírgulas ótimas, rsrsrs E diria mais, essenciais. Mas eu acho que seu uso permite alguma flexibilidade, dentro das normas gramaticais. O que mais me irrita são erros ortográficos e de concordância, excesso desses dois problemas me fazem fechar um livro sem dó.

  • maria olimpia alves de melo

    não sabia q a doença era assim tão grave, padeço de algumas enfermidades ligadas a loucura livresca e já disseram q adoram comprar meus livros (que dôo) pelo intrometido generalizado q me acomete qdo abro o livro. Acho q é por isso q não gosto de pegar livro emprestado, prefiro comprar.

    • Aline Viana

      Maria, mas como é esse seu “intromedito generalizado”? São os grifos? rsrs Ah, não sei, eu não gosto de sofrer interferências durante a leitura. Topo numa boa debater ou procurar resenhas ou análises depois, mas durante, pra mim, é ruído.

  • Henrique Fendrich

    Eu tive há alguns meses o caso de um caboclo que fazia acréscimos ao Nelson Rodrigues. Os parágrafos das suas crônicas-memórias são numerados, tipo 1 a 14, 1 a 15, e aí alguém acrescentava o 16, o 17, de próprio punho. Isso é mais interessante que um simples grifo! hahaha

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