DIÁLOGO DE NATAL

 

 

Programei essa crônica pro dia 24. Não sei por que não entrou.

Então aqui vai ela, pro Ano Novo.

DIÁLOGO DE NATAL

            Carlos Drummond nunca gostou de Academias, mas agora vive na eterna happy-hour da Sociedade dos Poetas Mortos, onde eu, como sócio-leitor, o encontro sempre. E, como aprendiz de feiticeiro, busco a sabedoria tão bela desse mago. Para puxar conversa, lembro um verso de outro bruxo, o de Cosme Velho: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. E acrescento: – O Natal não é algo do passado, silenciado pelo nosso ruidoso comércio, ofuscado pelo brilho de nossas festas? O poeta me diz: – O Cristo é sempre novo, e na fraqueza desse menino há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Mas meu coração de estudante quer saber mais. Pergunto: – Como pode o Cristo nascer entre pessoas que se movem pela competição, que se guiam pelo egoísmo, que buscam mais o ter que o ser? Calmamente, o mestre me explica que o Cristo “nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos. Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos”.

            Meu coração, que não se cansa de ter esperança, banca o advogado do diabo: – Em meio à mediocridade, à corrupção, à demagogia, ao nepotismo, à desonestidade, ao corporativismo, pode o Cristo nascer e sobreviver? Sem piscar Drummond responde: – “Ministros, deputados, presidentes de sindicatos prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos”.

Meu coração é teimoso: – Como poderá o Cristo falar a todos, nas nossas sociedades hierarquizadas, formalmente democráticas, de fato autoritárias, fechadas em círculos excludentes de classes e de castas? Na resposta tão serena quanto rápida, o poeta disse que o Cristo “preside (mal) as assembléias de todas as sociedades anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades de sua pobritude”.

Meu coração vagabundo não dá trégua: – Como pode o Cristo sobreviver se nasce pobre, sem terra, sem teto, condenado à marginalidade? E ouço a voz de Carlos: – “Ele tenta renascer a cada hora em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço restaura o dinamismo das nuvens”.

Meu coração, que quer guardar o mundo, insiste: – Como a mensagem de amor do Cristo vai florescer num mundo de acirrados radicalismos? O mestre não vacila : – “Sua pureza arma um laço à astúcia terrestre com que todos nos defendemos da outra face do amor, a face dos extremos”.

Represento, por fim, o inquisidor moralista: – Como o Cristo pode nascer em corações mundanos, materialistas, devotos de bezerros de ouro e do prazer? Antes de desaparecer com o portal que se fecha, o poeta responde: – “O Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece”.

Enquanto eu desço do Tabor, meu coração bate um pouco mais feliz.

                                                    Afonso Guerra-Baião

Meu dentista no elevador

Um baixinho, careca. Meio gordinho. Cara estranha. Um tipo esquisito. Viu que eu estava entrando no elevador e decidiu pegar o próximo – simplesmente. Não o culpo: eu teria feito exatamente o mesmo. E o nosso simples motivo para isso é que nos conhecemos. Ou melhor: nos conhecemos e não queremos mais nos ver – eu, pelo menos, não quero.

Digo que nos conhecemos, mas a verdade não chega a tanto. Foi apenas o caso em que ele tratou e destratou os meus dentes – pois o baixinho é um dentista. E dos sanguinários. Se houvesse carne nos dentes, eu o chamaria de açougueiro. Quando faz uma simples limpeza, coisas podem sair voando da sua boca: uma restauração, o próprio dente, talvez a língua. É a personalização do dentista das pessoas com medo de dentista. Em geral, não há motivo para muito medo. Pois com esse dentista, todos os medos são poucos.

Suas consultas, quando demoram, chegam a cinco minutos. Corre-se o risco de ser dispensado antes mesmo de abrir a boca. Até que um dia cansei, desmarquei uma consulta e não apareci mais – arrumei uma dentista. Enfim. Era esse o homem. É preciso dizer que ele não perde a oportunidade de cantar uma mulher – casada, solteira, viúva e desquitada. Cantou a minha chefe, que estava grávida. E cantou sem ter moral nenhuma pra cantar. Não é o tipo de dentista que vai despertar alguma fantasia – não mesmo. O brabo é que às vezes ele parece simpático. Pois bem. Entrei no elevador e ele decidiu pegar o próximo – como se houvesse algum motivo lógico para fazer isso.

Imagino a cena: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Eu olho distraído para o celular. Ele não olha para coisa nenhuma. Ou, antes: olha para a televisão que há dentro dos elevadores. Tentamos ser naturais – fingimos ser naturais. E os pouco segundos que o elevador leva para subir do térreo ao décimo primeiro andar são eternos. Estamos constrangidos e não nos olhamos.

Não, não, apaguem essa imagem aí. Vamos a uma outra: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Ele olha para mim e me cumprimenta. Eu retribuo. Ele observa que já faz algum tempo que eu não vou ao seu consultório – e há alguma malícia na sua frase. Respondo que é verdade, faz tempo sim – eu podia dizer que não havia precisado mais, alguma coisa assim. Podia mentir. Não minto: apenas concordo que faz tempo.

Uma terceira imagem: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Ele me cumprimenta secamente. Faço o mesmo. Pergunta por que não apareci mais no seu consultório – só há malícia na sua frase. Respondo que é porque ele não sabe cuidar, é péssimo dentista, destrói restaurações e machuca toda a boca dos pacientes. Sua fisionomia se altera: “O que é que você está falando? Repete!”. E eu: “É isso mesmo, seu galanteador de meia pataca! Vá se olhar no espelho, seu careca safado”. Nos atracamos ali mesmo, no elevador. A porta abre. E nós continuamos ali.

Bom. Nenhuma das três imagens me parece muito agradável. Diante disso, o melhor que poderia ser feito era justamente tomar a atitude que o dentista tomou: deixar passar o elevador e pegar o próximo.

Henrique Fendrich

A Primeira vez

− Vai, enfia!

− Aonde?

− Ai no buraco.

− Qual deles?

− Como assim?

− Qual dos dois?

− Nos dois , ora!

− Mas como é que eu enfio?

− Anda, é só colocar que eu faço o resto.

− Mas eu não sei!

− Enfia devagarzinho, é questão de jeito!

− Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir…

− Você está suando?

− Sim, eu tô nervoso, nunca fiz isso antes.

− Relaxa, não é complicado não, eu te ajudo.

− É só colocar no buraco, assim ó…

− Não. Não, deixa que eu faço.

− Então faz logo!

− Assim?

− Ai doeu, você não sabe enfiar. Seu cavalo. Assim você acaba me machucando. Tem que ser devagar, com calma, enfia com jeitinho.

− Agora não dá mais. Perdi a vontade de aprender. Olha! É sangue!

− Larga de ser frouxo! Isso ai é uma gotinha só, vem aqui vem, vem que eu te mostro como faz.

− Não. Deixa que eu coloco. É devagarzinho… assim, é assim?

− Não, não. O buraco não é ai seu burro! Ai!

− Eu disse que eu não sabia.

− Você não sabe de nada mesmo.

− Mas uma coisa dessas ninguém nasce sabendo fazer.

− Mas se aprende rápido, você que é uma lesma, até parece que tem medo!

− Isso não é normal para mim.

− Isso não justifica sua falta de delicadeza.

− Mas…

− Chega! Sai daqui!

− Vamos sair então?

− Eu? Sair com um homem feito você?

− Então vamos ficar aqui; vamos ali pro quarto?

− Vai aprender a colocar um brinco primeiro para depois tentar me levar pra cama, tá?

− Essas mulheres, nunca entendem!

− Esses homens, só pensam naquilo!

A ruína do escalafobético

Charge publicada originalmente no diário Gazeta do povo

Foi-se o tempo em que um escândalo escandalizava. Não se trata apenas de um fenômeno brasileiro oferecido pela mais nobre classe tupiniquim, àquela sediada em Brasília. É global. Vi, certa vez, em um filme muito recomendável chamado “Hotel Ruanda”, um personagem falar para o outro (e o diálogo real aconteceu em 1994) sobre a reação das pessoas quando viam, pela tv, o genocídio que acontecia no país do norte da África: “As pessoas veem esse horror todo e dizem ‘que infelicidade’ e voltam a degustar seus jantares”. A frase me atingiu como uma bazuca. Era, ainda é e continuará sendo, verdade. Há algo involuído em nossa relação com o mundo e com tudo que o habilita. A psicologia pode sugerir se tratar do “desconforto da civilização” ou uma questão egóica, ainda que posta em relevo mais amplo e abrangente. O nosso choque é não se chocar como nossos avós se chocavam. O escalafobético, a própria palavra um tanto escandalosa, sumiu de nossos dicionários e surge um tanto hesitante em buscas de internet. Mal disfarçada pelo pós-modernismo que dita novos valores, que justamente por sua condição pós-moderna são tão flexíveis quanto Dita Von Teese, a sociedade viceja no politicamente correto de fachada. A grande imprensa fabrica escândalos, quando os escândalos não têm a generosidade de se fabricarem sozinhos. Entorpecidos por uma realidade alarmante e inflacionada por um consumismo mesquinho, somos obrigados a desviar os olhos para seguirmos sãos. Talvez os escândalos tenham se banalizado, apontaria um. Ou então não são escândalos “porreta” o suficiente, devolveria um outro. O problema reside no fato de que não é preciso haver um vencedor nesse duelo de retóricas perdidas. Perdemos todos nós. Anestesiados que somos. O “occuppy Wall street” é uma piada que os engravatados riem enquanto saboreiam um uísque e se embevecem no ar condicionado do 50º andar. Perdemos. O grande escândalo de tudo isso é que ainda não percebemos. E de nada adianta “googlar”.

Guerra santa no portão

Eu não estou em casa. Acreditem. Testemunhas de Jeová, suas orações não me vão me levar ao portão. Desistam. São duas, consigo ver pelas frestas da janela de madeira da sala. Já abaixei o som da tv e elas continuam lá. Ainda não são nem nove horas da manhã. Estão tão acostumadas a esperar pela vinda do Senhor, que se movem apenas para procurar alguma brecha no meu sumiço. Mulheres de pouca fé: eu não estou! Não vou estar nunca para vocês.

Preciso mudar para um apartamento. Lá o porteiro seria pago para ser catequisado por essa gente. Talvez nem tivesse que pegar folheto nenhum só por oferecer uma água gelada a duas vítimas desse sol cortante. E seria considerado um homem bom, já se eu sair, não vão me liberar. Vão me arrastar para o inferno junto com elas porque se soubessem do paraíso, guardariam o caminho para si mesmas, para os filhos e os amigos. Divulgar para estranhos? Com esse empenho ainda?

Foi aí com as duas ali fora, tostando no sol e sentando o dedo na minha campainha, que tive uma iluminação. Com base na minha experiência de anos com as testemunhas eu poderia revolucionar o comércio e as relações entre os clientes e as empresas. Para quem trabalha com cobrança, ensinarei as táticas de perseguição usada por eles: usar todos os meios para encontrar o cliente, nunca desistir, trazer sempre um folheto conciso com os principais serviços da empresa e o endereço da franquia mais próxima. Andar em duplas, com um figurino engomadinho, as moças de saltinho, e sempre levar uma maleta à mão. Pelo telefone, é só ter fé e insistir.

Já no setor de ouvidoria, a tática seria inversa. Os consumidores é que seriam tratados como todo mundo trata as tejotas. Podem ligar. Vocês ligam e quem atende é uma secretária eletrônica, já começa por aí – não terá ninguém lá é o que queremos que você acredite e, se tiver, vai ser bem difícil encontrar. Vamos oferecer várias opções: ligue 1 se você é cliente, ligue 2 se ainda não. Depois disque 1 se você quer falar sobre isso, 2 sobre aquilo, até chegar no 9, que permite falar com um ser humano, a paciência do cliente vai ter acabado ou a ligação caído.

Não acabou? A ligação não caiu? Não seja por isso, a gente põe uma musiquinha e cinco minutos depois derruba. Para os e-mails, respostas-padrão automáticas. Não tem ninguém em casa. Acredite.

Posso até ouvir os milhões caindo na conta com essa minha nova técnica de marketing.  E sem as irmãzinhas, tão insistentes, eu não teria tido essa revelação. Vou lá,dou uma desculpa qualquer, digo que não ouvi antes a campainha porque estava alimentando os passarinhos nos fundos da casa, sei lá, e levo uma água pra elas e pego de novo um folheto. É muito provável que não sejam anjos nem Jesus disfarçados, e vão demorar no palavrório, mas é um jeito de agradecer a Ele. Vou agora sim, até porque de uma próxima vez eu não vou estar.

Aline Viana

Minha lista de Presentes de Natal.

 

Como ainda estamos no Natal e nada escrevi sobre o assunto este ano, acho que ainda é pertinente falar a respeito. Assim é que, sabendo que minha tia-madrinha Clarita leu um texto meu sobre o assunto,  através de um e-mail de minha irmã Regina para sua filha,  resolvi conferir,  pois nem me lembrava mais dele. Queria ver se podia riscar ou alterar qualquer coisa.

Eis a lista:

1 – Dançar tango com Al Pacino em Buenos Aires.
2 – Ganhar uma rosa do Richard Gere.
3 – Ser dona de uma livraria ultra charmosa.
4 – Um par de asas para me locomover.
5 –Ter tempo  suficiente para ler todos os livros que tenho.
6 – Viver em rítmo de trilha sonora.
7 – Noites de luar, dias de sol e madrugadas chuvosas.
8 – Conhecer todos os meus amigos virtuais.
9 – Jogar meus óculos fora.
10- Não precisar trabalhar nunca mais e nunca ficar sem trabalho.
11- Morar em um loft.
12- Cozinhar na cozinha do meu loft para meus amigos sem precisar de lavar a louça.
13- Um cachorrinho que não precise de cuidados especiais.
14- Uma faxineira para deixar minha casa com cheirinho de alfazema.
15- Conhecer todas as palavras em todas as línguas.
16 -Ter tantos amigos quantos os grãos de areia de uma praia.
17- Morrer dormindo.

Reli  cada uma de minhas sugestões para ser presenteada e mesmo sabedora das utopias que desejei acho que não eliminaria nenhuma delas, embora tenha  consciência de que aquilo que realmente queremos conseguimos.Mas certamente nunca poderei dançar um tango com Al Pacino porque nem mesmo sei dançar tango e raramente vou a Buenos Aires. O mesmo vale para o segundo item da lista e quanto ao terceiro, tive a oportunidade e recusei. O quarto? Acredito que seja esse o presente que minha tia-madrinha também gostaria de ganhar, ela com mais veemência porque com os joelhos estropiados certamente um bom par de asas a ajudariam muito. No sentido figurado, tanto ela como eu  não precisamos de asas – temos espíritos livres e inquietos que nunca param sossegados. Ler todos os livros que tenho? Não desisti, mas fiquei mais razoável  porque  estou doando uma grande parte deles e mesmo assim ainda tenho muitos para ler. Um tempo justo, principalmente se parar de comprar, o que meu propósito para o próximo ano. Já conheço dois amigos virtuais e como é de grão em grão que a galinha enche o papo certamente irei mais longe, conhecendo outros. Também não pretendo mais jogar meus óculos fora, aprendi a gostar deles e pretendo mesmo é comprar alguns bem bonitos. Quanto ao décimo esse eu recebi por completo graças ao meu pai que sempre bendigo. Embora esteja satisfeita onde estou um loft não é coisa para se jogar fora. Quanto ao cachorrinho em vez de  um consegui dois mimadíssimos cachorrinhos o que me levou a pensar que é preciso ter muito cuidado com o que se pede. O que posso querer mais? Sinceramente? Minha vida está de bom tamanho, nem pequena nem grande. Só quero mesmo é continuar tendo coragem para viver sempre dentro daquele lema: que hoje eu seja melhor do que ontem e amanhã pertence ao futuro e ninguém vive no futuro: só no presente.

Humor Natalino

  Eu não acredito em natal. Nem no papai noel, pobrezinho. Não gosto das compras desenfreadas, das ruas estericamente cheias e nem dos cheiros excessivamente apetitosos. Mas eu tenho coração, mesmo que não pareça. Eu, confesso, gosto do clima de benevolência que permeia tudo. Sei que é criado pelo constante bip das máquinas de cartão de crédito e caixas registradoras mas nem tudo é perfeito, nem mesmo no natal. Eu gosto de comer castanhas apesar de sempre ficar um restinho amargo no fundo da garganta. Metáfora da festa: depois do doce açucarado do dia 25 vem o sabor honesto da vida real pós 26.

 Para estragar só mais um pouco o clima dos que me lêem, queria dizer o clichê de sempre: que compras, comidas, bebidas e amigos ocultos não fazem a vida mais bonita, nem deixa a família mais amável nem transforma bandidos em mocinhos. Praticamente todas as culturas do mundo comemoram o nascimento de um ser especial que trouxe renovação, amor, promessa, renascimento. Não necessariamente acompanhado de peru da Sadia, Veuve Clicquot ou uma caixa cheirosa do Boticário. Enfim, presenteie sim, mas de verdade. Seja com uma flor de jardim ou uma Mont Blanc. Mas que seja por vontade de fazer alguém feliz e não por convenção social de datas programadas para vender.

     Vou dar um conselho para mim. Ouça se quiser. Quando chegar a inevitável hora da “noite feliz” vou fechar os olhos e pensar naqueles que eu desejaria que estivessem ao meu lado, sem obrigações ou ilusões. Somente presença no silêncio, sensação de estar perto, amizade pelos olhos, abraço com carinho. Se existe mesmo um velhinho que ouve nossos pedidos, seja ele da terra ou do céu, espero que me atenda. E permita que no ano que vem eu possa distribuir todo o amor que sinto mas que, pela busca sem rumo de vaidades das quais não preciso, acabo por reprimir.
Marina Costa

Conto de Natal

Deixei pra comprar a passagem em cima hora. Não tinha dinheiro. Pensei em viajar no dia 23, mas não havia mais voos. Ficou para o dia 24 mesmo. Também não havia mais voos diretos. Outra vez, eu precisaria parar em São Paulo. Paciência. Acordei cedo e cheguei ao aeroporto com antecedência. Aproveitei para ficar andando pra lá e pra cá, tentando enxergar algum espírito natalino nas pessoas. Pra mim, acontecem coisas especiais no dia 24. Coisas que trarão alguma reflexão e que depois serão contadas para a família no momento da ceia.

Então o alto-falante anunciou que o meu voo estava com atraso. Normal para a época. Já esperava. Preciso dizer que não me agrada muito viajar de avião. É claro que é melhor do que viajar de ônibus, cansa bem menos e tudo mais. Mas o medo é maior. Pra piorar, eu estava sentado ao lado de uma janela. E justamente ao meu lado estava uma das asas, a que eu assistia balançar furiosamente, parecendo que estava para se soltar. Terrível.

Pelo menos a viagem até São Paulo era mais curta. Logo avisaram que iriam iniciar os preparativos para o pouso. Foi nessa hora que eu tive um estalo e quis conferir onde eu havia deixado o meu bilhete para embarque da conexão. Costumo deixar essas coisas no bolso. Não estava. Nem na frente nem atrás. Fui ver dentro da mala que eu levava. Revirei três vezes e nada. Comecei a me agitar. Havia apenas meia-hora entre um voo e outro. Eu precisava daquele bilhete. Nisso, o avião já estava pousando, e eu fui saindo, apreensivo, e nem respondi ao feliz natal da aeromoça.

Cheguei ao local do novo embarque. Parei sem saber o que fazer. Vi então um agente da companhia área, cercado de pessoas que lhe faziam perguntas. Era o cara responsável por resolver pepinos, e era exatamente pepino o que eu tinha. Fui até ele. Era Natal, mas os ânimos estavam exaltados. Esperei que as pessoas saíssem e contei o meu drama. Ele ouviu com atenção, avisou que estava subindo ao andar de cima, e que voltaria trazendo um novo cartão de embarque pra mim. Esperei.

Passou um tempo e ele chegou, trazendo realmente o meu cartão. Agradeci e acelerei os passos rumo ao embarque. É realmente difícil correr quando você está levando uma mala pesada – eu não queria ter que despachar bagagem. Fiz o que pude. Cheguei ao portão de embarque. Não era lá, trocaram. Corri ao outro, e adivinhem: o avião havia acabado de partir. Maravilha. Fiquei aturdido. Não sei qual foi a compaixão que consegui então da atendente, mas ela me colocou em outro voo, sem maiores problemas ou perguntas.

O novo voo era dali a duas horas. Sentei no meio de outras pessoas que gastavam suas vésperas de Natal no aeroporto. Passaram-se duas horas e nada do avião. Três horas e veio um aviso de que o voo estava atrasado – coisa que eu já percebera. Os outros passageiros começaram a reclamar. Houve um que exigiu o lanche obrigatório. Um funcionário da empresa disse que até poderiam dar um vale pro lanche, mas ninguém podia garantir que enquanto eles estivessem comendo o avião não aparecesse e partisse sem eles. Um passageiro gravou essa fala e estava passando via bluetooth para os outros. Começou a circular uma lista para troca de e-mails entre os passageiros.

Até que chegou o avião. Sem tripulação. A cada quinze minutos, aparecia alguém que entrava no avião e ficava esperando o resto dos tripulantes. Quando o número já era suficiente, uma nova informação: encontraram uma falha mecânica na aeronave. Precisavam consertar. Sem previsão de término. Já passavam de 4 horas de atraso. Os passageiros protestavam aos gritos. O espírito de Natal não estava ali. Que dia, que dia! Bela maneira de passar a véspera de Natal.

Depois de muito tempo, finalmente embarcamos, com medo de que a falha mecânica não houvesse sido resolvida. E foi com imenso alívio e uma grande salva de palmas de todos que o avião finalmente chegou ao solo. Já era noite e eu fui direto para a ceia, pensando em quais reflexões teria a contar para a família naquele Natal.

Henrique Fendrich

Charme Feminino

Cena 1

            E eu corro e faço de tudo um pouco para alcançar àquela coisa que me alimentou de esperança e cujo nome eu não me lembro. Sei que ela tem nome bonito e isso basta.

Cena 2

            E ela ajeita o cabelo duas, três, quatro vezes, ali no terminal rodoviário. Entra no banheiro e sai de lá toda maquiada. O batom é vermelho, os olhos são verdes. Parece nervosa; tem medo e não suporta viajar de ônibus.

Cena 3

            Pega a sua maleta rosa e se aproxima do moço com cara de bobo; ela pede para ele vigiar um instante só, a maleta. O moço passa às vistas pelos seus seios e balança a cabeça afirmativamente.

Cena 4

            O salto alto é a sua marca registrada, assim como o batom vermelho. Suas pernas torneadas atraem olhares famintos. Ela corre, por assim dizer, até a lanchonete do terminal. Chega e se encosta ao balcão; todos reparam. O atendente é um jovem que aparenta dezesseis anos; não consegue falar, depois, gagueja.

Cena 5

            Ela sabe o quanto é bela. Deixa que o jovem a admire mais um pouco, logo pede balas, refrigerante. Quanto sai da lanchonete leva consigo olhares admirados; lembra-se de alguma coisa, volta, faz o pedido. A hora se aproxima, ela come chocolate e bebe coca-cola.

Cena 6

            O bobo da mala não cuidou dos pertences da moça. Sem problemas; nada foi roubado ou danificado. Ela masca chiclete e põe a mão direita na cintura fina. Charme feminino.

Cena 7

            É só entrar no ônibus. Nenhum cavalheiro se oferece para carregar sua bagagem. Ela perdoa nossa raça de homens primatas – sempre perdoou. Já está a ajustar sua poltrona; joga a goma de mascar pela janela.

Cena 8

            O ônibus partiu, ela partiu. Meu Deus! Ela se foi. Mas eu continuo fazendo de tudo um pouco para alcançar àquela coisa que me alimentou de esperança.

David Maxsuel Lima

Um Coldplay de natal

♫ Vim pra lhe encontrar, dizer que sinto muito,
Você não sabe o quão amável você é
Tenho que lhe achar, dizer que preciso de você,
E te dizer que eu escolhi você
Conte-me seus segredos, faça-me suas perguntas
Oh, vamos voltar pro começo
Correndo em círculos, perseguindo a cauda,
Cabeças num silêncio à parte ♫

É isso mesmo caro leitor. Coldpay é o que há. Pelo menos para a Aninha que toda manhã, como que em um rito religioso, acorda a cantarolar o primeiro verso de “The scientist” – uma das mais melosas canções da banda inglesa. O coldplay surgiu em 2001 – ainda que tenha sido fundado em 1996. O álbum Parachutes caiu de pára-quedas na vida de Aninha, filha de pai divorciados e imersa em um amor não correspondido. Aninha então passou a ter Chris Martin como um profeta e o Coldplay como uma religião. Não bastasse falar do Coldplay em todo evento social, fosse ele familiar ou não, Aninha inventou de presentear a todos com material da banda: pôsteres, CDs, livros ilustrados, DVDs de shows, LPs especiais. A lista é tão infindável quanto o aterrador detalhe que se segue: esse hábito é o mais longevo de todos os cultivados por Aninha. De 2001 para cá ela já foi petista, tucana, bissexual, lésbica, morou na África e na República Tcheca.
No Sudão ou Quirguistão, o Natal trazia Coldplay de montão.
Tios, avós, primos, irmãos, cunhados… Todos são abençoados com a sabedoria de Chris Martin e companhia. A conversão, provavelmente supõe Aninha, é uma questão de tempo.
O boato que invadia a grande mídia era de que o Coldplay era chato à beça. Mas Aninha, fazendo valer seu feedback petista, colocava culpa na imprensa golpista.
As rimas, como se pode notar, não são privilégio do Coldplay que alavancou o britpop a outra estratosfera após o fim do Oásis – aquela banda que se achava superior àquela outra que se achava mais popular do que Cristo. Com o Coldplay tudo é simples, argumenta Aninha. O paraíso é uma lágrima que, por sua vez, é uma gota de cachoeira. Entendeu? Não? Não importa. Neste 2011 não será só a Aninha que irá passar o natal ao som do Coldplay. Na dúvida, é só sintonizar a FM de sua preferência.

A nobre correspondência

O bom velhinho todo ano lê milhões de cartinhas com pedidos de presentes. Mas ele tem limites e de carta de deputado, vereador, enfim, de qualquer político, ele se poupa um pouco. Acaba deixando a tarefa aos duendes que precisam quitar o banco de horas. E elas ficam formando pilhas, que acumulam poeira e aranhas, em um canto esquecido da casa de Noel. Em um monumental esforço de reportagem, em parceria com o Wikileaks, conseguimos apurar o que querem os políticos brasileiros.

“Por favor, eu só quero que seja aprovado o meu projeto de lei que diz que os maridos é que devem tomar a iniciativa nos processos de divórcio. Assim, conseguiremos preservar a família brasileira das ações destes grupos feministas e homofóbicos”.

“Noel, meu fiel eleitor, eu tenho um projeto tramitando, já passou pela Câmara e agora tá no Senado, e só preciso de um empurrãozinho seu, querido. É o seguinte: quero estabelecer um limite de processos que um político pode sofrer, tipo uns dois ou três, pro povo não dizer que é picaretagem minha. E esse negócio de denúncia eu quero pôr limite também. Senão, não se faz mais nada nesse país, num sobra mais ninguém no poder”.

“Papai Noel, venho aqui como seu filho privilegiado fazer uma solicitação que visa organizar melhor este país. Como vossa senhoria já deve ter observado, não há padrão para nada no Brasil. Então, como temos que começar por algum lugar, quero propor que todas as cidades tenham uma avenida Brasil, uma avenida Getúlio Vargas, uma avenida Rio Branco e uma avenida Paulista – toda cidade grande, com progresso, tem uma de cada. E é muita desigualdade social, por isso conto com vossa senhoria para ajudar nossa presidenta a acabar com a falta de progresso em nosso imenso território”.

“Velhinho, estou só atendendo uma reivindicação da bancada e dos meus eleitores que pedem isonomia para quem trafega em veículo de duas rodas. Até o pessoal do patinete aderiu, para o senhor ver. Então, como eu sou parlamentar, eles vieram a mim e eu ao senhor, mas que isso fique só entre nós, ok? Eles solicitam que o senhor entregue bicicletas sem garupa à criançada. Eu sei, os meninos vão chiar, mas pense no mercado nacional, na expansão do mercado consumidor e até na sua própria produção que agora vai aumentar porque não vai dar mais para um irmão dar carona pro outro. E todo mundo vai aprender a pedalar, o que conta pontos no futuro para alcançarmos uma população mais saudável. Obrigada mesmo!”.

Noel informou que nós, brasileiros, não temos com quê nos preocupar porque, além de dar prioridade às crianças, nem os pedidos dos dissidentes cubanos e dos monges tibetanos ele tem tido condições de atender. Que dirá peneirar tudo que os parlamentares latino-americanos pedem! Pelo menos com os americanos é sempre a mesma coisa e ele citou de cabeça: “Não permita que o comunismo acabe com o nosso país”, “Que o presidente tenha saúde e seja reeleito”, “Que o partido Republicano consiga alguém melhor que a Sarah Palin”. Como os pedidos dos estadunidenses são muito contraditórios, Noel prefere não entrar na disputa, mas informa que tem apreciado a concisão dos pedidos.

Aline Viana

Cãopanheirismo

Eu poderia apenas ser indiferente. Mas na maioria das vezes prefiro fingir que me importo. Não posso viver sozinha. Não posso enfrentar o fim de tudo e início do nada eterno sem levar alguém, ao menos, pela mão. É por isso que sorrio quando ouço seus problemas. Você acredita ser empatia, e me abraça. Eu, tenho certeza que é egoísmo e fecho os olhos. Não paro de pensar em quão honestos podemos ser quando somente nossa própria consciência pode ouvir. E me fizeram acreditar que essa honestidade é feia. Mas é ela que nos faz seguir. Ter o médico e o monstro dentro de si, é como ser ao mesmo tempo algoz e vítima. Num mundo como o nosso, de valores trocados, quem pode acusar? Eu poderia ser apenas indiferente. Mas quando olho nos seus olhos e vejo a minha urgência refletida, eu só posso me importar. E segurar sua mão.

Marina Costa

LUMENS

 

 

 

LUMENS

Segundo o primeiro livro da bíblia, Deus fez a luz no primeiro instante da criação do mundo, pois as trevas já existiam e era necessário criar seu contrário. O motivo de criação da luz foi a existência da escuridão; da mesma forma, quando Deus criou o homem percebeu que ele também precisava ser binário, não só para fazer-lhe companhia, mas para que também pudesse perpetuar a espécie, garantindo continuidade à vida. São questionamentos importantes da história da criação humana, que explicam a existência binária (homem/mulher, treva/luz, bondade/maldade, etc.), desde o primeiro sopro de luz.
O sol também havia sido criado junto com o universo, segundo Gênesis, mas as nuvens o impediam de irradiar sua luz à superfície do planeta. A primeira fagulha era difusa e não permitia que, da terra, se visse o sol. Eram necessários mais focos luminosos que em uníssonos, iluminariam toda a superfície do planeta.
A estória contada pela bíblia nos dá uma ideia de que, várias unidades de fluxos luminosos irradiam luz em diversos pontos da terra. Segundo o dicionário Lello Universal – “lúmen, do latim, lumen: luz – é unidade do fluxo luminoso no sistema. O lúmen é o fluxo luminoso emanado de uma origem uniforme de dimensões infinitamente pequenas e de intensidade igual a uma vela decimal”… (LELLO, s/d, p. 118). Para se ter uma ideia melhor do significado da palavra lúmen, uma vela gera 14 lumens para iluminar um ambiente e o pôr-do-sol 400 lumens.
Desse modo, a Academia de Letras do Brasil de Mariana-MG (criada e fundada em abril de 2009), a Aldrava Letras e Artes (criada e fundada em outubro de 2000) e o Instituto Brasileiro de Culturais Internacionais de Minas Gerais (criado em setembro de 2007) uniram-se para editar a primeira antologia dessas três renomadas instituições culturais, que têm em seus quadros, poetas, cronistas, ensaístas, artistas visuais e cronistas, para fazer nascer, de diversas vozes iluminadas, o livro LUMENS.
Foram necessários 38 fluxos luminosos, oriundos dos estados de Minas Gerais, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, para fazer irradiar a produção literária eclética e criativa desses nobres escritores brasileiros, capazes de perpetuar uma das mais iluminadas e apaixonantes manifestações culturais criada pelo ser humano: a arte de escrever.
E assim, irradiam-se Lumens!

(Andréia Donadon, Academia de Letras do Brasil , seção de Mariana)

Os meus sapatos

Essa história de ter mais amigas mulheres do que homens volta e meia me coloca em enrascadas. Não é raro o dia em que entro com elas em lojas de roupas, sapatos ou bolsas – coisas muito necessárias e bonitas, mas que nem por isso chamam muito a minha atenção. Sei que existem homens que gostam e, mais do que isso, que entendem do assunto. Não é o meu caso. De qualquer forma, eu as acompanho, e vou dando palpites aqui e ali, todos muito sinceros, embora sempre embasados no senso comum. Mesmo assim, elas levam em consideração. Opinam. Discutem. Gostam de estar ali e querem falar sobre isso.
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Na última vez em que isso aconteceu, eu estava com duas mulheres em uma loja era de sapatos. Elas queriam trocar um presente de amigo oculto. O sapato servia direitinho, mas, se há a possibilidade de trocar por um mais bonito, por que não? E foram lá trocar. Eu, naquele dia, estava especialmente entediado e me afastei, olhando sapatos sem me interessar por eles. Na verdade, nem parece que a sapataria foi uma tradição na minha família. Meu trisavô aprendeu a ser sapateiro em Viena e depois montou uma fábrica e oficina no Brasil. Ensinou tudo ao seu filho, que levou adiante o negócio. E eu, hoje, calço mal, muito mal.
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Fui então até a porta da loja. Era um shopping center. Para a minha sorte, logo em frente havia uma livraria. Deixei as duas escolhendo seus sapatos e sorrateiramente parti para lá. Ah, que maravilha! Aquele sim era o meu lugar. Gosto de livros, embora não tenha muitos – são caros pra mim. Mas leio bastante, e me considero capaz de fazer algumas considerações até aceitáveis sobre as minhas leituras. E às vezes, até sobre o que não leio. Numa livraria, ainda que não compre nada, consigo mais informações sobre escritores e as coisas que escrevem. E ainda oriento os empréstimos que depois farei em uma biblioteca.
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É o tipo de lugar em que poderia tranquilamente passar algumas boas horas, sem ver o tempo passar. Só que, desta vez, não fiquei muito tempo, pois logo as duas mulheres vieram atrás de mim – parece que na loja não havia o número que uma delas calçava. E quando elas me encontraram diante de uma prateleira, folheando um livro e babando pelos outros, não tive dúvidas e tasquei essa grave sentença, absolutamente verdadeira: “Esses aqui são os meus sapatos”.
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Um livro seria provavelmente o que eu pediria em um amigo oculto – e provavelmente seria o único a fazer coisa semelhante. Não quero dizer com isso que eu seja uma pessoa mais bacana apenas porque peço um livro no lugar de um sapato. Acho, inclusive, que eu seria uma pessoa muito mais bacana se, além dos livros, entendesse mais sobre sapatos. Mas também não posso deixar de lamentar que não nos ocupemos de livros com a mesma frequência de um artigo do vestuário.
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Em todo caso, amigo leitor, caso venha a me tirar em um amigo oculto nesse final de ano, já sabe o que irá me agradar. Compre um livro. Não qualquer livro, naturalmente. Nada de auto-ajuda. De preferência, evite os best sellers do momento. Se me vier com A Cabana, eu volto lá correndo pra trocar. Não é o meu número. Poesia, eu tenho dificuldade. Direi tudo de uma vez: compre um livro de crônicas. Mas nada de Martha Medeiros, por favor. Nem Clarice. Eu gosto da Clarice, mas não a toda hora.
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Ah, quer saber? Dê-me um vale-presente e estamos entendidos.