Arquivo do mês: dezembro 2011

DIÁLOGO DE NATAL

 

 

Programei essa crônica pro dia 24. Não sei por que não entrou.

Então aqui vai ela, pro Ano Novo.

DIÁLOGO DE NATAL

            Carlos Drummond nunca gostou de Academias, mas agora vive na eterna happy-hour da Sociedade dos Poetas Mortos, onde eu, como sócio-leitor, o encontro sempre. E, como aprendiz de feiticeiro, busco a sabedoria tão bela desse mago. Para puxar conversa, lembro um verso de outro bruxo, o de Cosme Velho: “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. E acrescento: – O Natal não é algo do passado, silenciado pelo nosso ruidoso comércio, ofuscado pelo brilho de nossas festas? O poeta me diz: – O Cristo é sempre novo, e na fraqueza desse menino há um silencioso motor, uma confidência e um sino.

Mas meu coração de estudante quer saber mais. Pergunto: – Como pode o Cristo nascer entre pessoas que se movem pela competição, que se guiam pelo egoísmo, que buscam mais o ter que o ser? Calmamente, o mestre me explica que o Cristo “nasce a cada dezembro e nasce de mil jeitos. Temos de pesquisá-lo até na gruta de nossos defeitos”.

            Meu coração, que não se cansa de ter esperança, banca o advogado do diabo: – Em meio à mediocridade, à corrupção, à demagogia, ao nepotismo, à desonestidade, ao corporativismo, pode o Cristo nascer e sobreviver? Sem piscar Drummond responde: – “Ministros, deputados, presidentes de sindicatos prosternam-se, estabelecendo os primeiros contatos”.

Meu coração é teimoso: – Como poderá o Cristo falar a todos, nas nossas sociedades hierarquizadas, formalmente democráticas, de fato autoritárias, fechadas em círculos excludentes de classes e de castas? Na resposta tão serena quanto rápida, o poeta disse que o Cristo “preside (mal) as assembléias de todas as sociedades anônimas, anônimo ele próprio, nas inumerabilidades de sua pobritude”.

Meu coração vagabundo não dá trégua: – Como pode o Cristo sobreviver se nasce pobre, sem terra, sem teto, condenado à marginalidade? E ouço a voz de Carlos: – “Ele tenta renascer a cada hora em que se distrai nossa polícia, assim como uma flora sem jardineiro apendoa, e sem húmus, no espaço restaura o dinamismo das nuvens”.

Meu coração, que quer guardar o mundo, insiste: – Como a mensagem de amor do Cristo vai florescer num mundo de acirrados radicalismos? O mestre não vacila : – “Sua pureza arma um laço à astúcia terrestre com que todos nos defendemos da outra face do amor, a face dos extremos”.

Represento, por fim, o inquisidor moralista: – Como o Cristo pode nascer em corações mundanos, materialistas, devotos de bezerros de ouro e do prazer? Antes de desaparecer com o portal que se fecha, o poeta responde: – “O Cristo vem numa cantiga sem rumo, não na prece”.

Enquanto eu desço do Tabor, meu coração bate um pouco mais feliz.

                                                    Afonso Guerra-Baião

Anúncios

Meu dentista no elevador

Um baixinho, careca. Meio gordinho. Cara estranha. Um tipo esquisito. Viu que eu estava entrando no elevador e decidiu pegar o próximo – simplesmente. Não o culpo: eu teria feito exatamente o mesmo. E o nosso simples motivo para isso é que nos conhecemos. Ou melhor: nos conhecemos e não queremos mais nos ver – eu, pelo menos, não quero.

Digo que nos conhecemos, mas a verdade não chega a tanto. Foi apenas o caso em que ele tratou e destratou os meus dentes – pois o baixinho é um dentista. E dos sanguinários. Se houvesse carne nos dentes, eu o chamaria de açougueiro. Quando faz uma simples limpeza, coisas podem sair voando da sua boca: uma restauração, o próprio dente, talvez a língua. É a personalização do dentista das pessoas com medo de dentista. Em geral, não há motivo para muito medo. Pois com esse dentista, todos os medos são poucos.

Suas consultas, quando demoram, chegam a cinco minutos. Corre-se o risco de ser dispensado antes mesmo de abrir a boca. Até que um dia cansei, desmarquei uma consulta e não apareci mais – arrumei uma dentista. Enfim. Era esse o homem. É preciso dizer que ele não perde a oportunidade de cantar uma mulher – casada, solteira, viúva e desquitada. Cantou a minha chefe, que estava grávida. E cantou sem ter moral nenhuma pra cantar. Não é o tipo de dentista que vai despertar alguma fantasia – não mesmo. O brabo é que às vezes ele parece simpático. Pois bem. Entrei no elevador e ele decidiu pegar o próximo – como se houvesse algum motivo lógico para fazer isso.

Imagino a cena: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Eu olho distraído para o celular. Ele não olha para coisa nenhuma. Ou, antes: olha para a televisão que há dentro dos elevadores. Tentamos ser naturais – fingimos ser naturais. E os pouco segundos que o elevador leva para subir do térreo ao décimo primeiro andar são eternos. Estamos constrangidos e não nos olhamos.

Não, não, apaguem essa imagem aí. Vamos a uma outra: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Ele olha para mim e me cumprimenta. Eu retribuo. Ele observa que já faz algum tempo que eu não vou ao seu consultório – e há alguma malícia na sua frase. Respondo que é verdade, faz tempo sim – eu podia dizer que não havia precisado mais, alguma coisa assim. Podia mentir. Não minto: apenas concordo que faz tempo.

Uma terceira imagem: estamos os dois no elevador. Somos os únicos passageiros. Ficamos cada um em um canto. Ele me cumprimenta secamente. Faço o mesmo. Pergunta por que não apareci mais no seu consultório – só há malícia na sua frase. Respondo que é porque ele não sabe cuidar, é péssimo dentista, destrói restaurações e machuca toda a boca dos pacientes. Sua fisionomia se altera: “O que é que você está falando? Repete!”. E eu: “É isso mesmo, seu galanteador de meia pataca! Vá se olhar no espelho, seu careca safado”. Nos atracamos ali mesmo, no elevador. A porta abre. E nós continuamos ali.

Bom. Nenhuma das três imagens me parece muito agradável. Diante disso, o melhor que poderia ser feito era justamente tomar a atitude que o dentista tomou: deixar passar o elevador e pegar o próximo.

Henrique Fendrich


A Primeira vez

− Vai, enfia!

− Aonde?

− Ai no buraco.

− Qual deles?

− Como assim?

− Qual dos dois?

− Nos dois , ora!

− Mas como é que eu enfio?

− Anda, é só colocar que eu faço o resto.

− Mas eu não sei!

− Enfia devagarzinho, é questão de jeito!

− Eu não vou conseguir, eu não vou conseguir…

− Você está suando?

− Sim, eu tô nervoso, nunca fiz isso antes.

− Relaxa, não é complicado não, eu te ajudo.

− É só colocar no buraco, assim ó…

− Não. Não, deixa que eu faço.

− Então faz logo!

− Assim?

− Ai doeu, você não sabe enfiar. Seu cavalo. Assim você acaba me machucando. Tem que ser devagar, com calma, enfia com jeitinho.

− Agora não dá mais. Perdi a vontade de aprender. Olha! É sangue!

− Larga de ser frouxo! Isso ai é uma gotinha só, vem aqui vem, vem que eu te mostro como faz.

− Não. Deixa que eu coloco. É devagarzinho… assim, é assim?

− Não, não. O buraco não é ai seu burro! Ai!

− Eu disse que eu não sabia.

− Você não sabe de nada mesmo.

− Mas uma coisa dessas ninguém nasce sabendo fazer.

− Mas se aprende rápido, você que é uma lesma, até parece que tem medo!

− Isso não é normal para mim.

− Isso não justifica sua falta de delicadeza.

− Mas…

− Chega! Sai daqui!

− Vamos sair então?

− Eu? Sair com um homem feito você?

− Então vamos ficar aqui; vamos ali pro quarto?

− Vai aprender a colocar um brinco primeiro para depois tentar me levar pra cama, tá?

− Essas mulheres, nunca entendem!

− Esses homens, só pensam naquilo!


A ruína do escalafobético

Charge publicada originalmente no diário Gazeta do povo

Foi-se o tempo em que um escândalo escandalizava. Não se trata apenas de um fenômeno brasileiro oferecido pela mais nobre classe tupiniquim, àquela sediada em Brasília. É global. Vi, certa vez, em um filme muito recomendável chamado “Hotel Ruanda”, um personagem falar para o outro (e o diálogo real aconteceu em 1994) sobre a reação das pessoas quando viam, pela tv, o genocídio que acontecia no país do norte da África: “As pessoas veem esse horror todo e dizem ‘que infelicidade’ e voltam a degustar seus jantares”. A frase me atingiu como uma bazuca. Era, ainda é e continuará sendo, verdade. Há algo involuído em nossa relação com o mundo e com tudo que o habilita. A psicologia pode sugerir se tratar do “desconforto da civilização” ou uma questão egóica, ainda que posta em relevo mais amplo e abrangente. O nosso choque é não se chocar como nossos avós se chocavam. O escalafobético, a própria palavra um tanto escandalosa, sumiu de nossos dicionários e surge um tanto hesitante em buscas de internet. Mal disfarçada pelo pós-modernismo que dita novos valores, que justamente por sua condição pós-moderna são tão flexíveis quanto Dita Von Teese, a sociedade viceja no politicamente correto de fachada. A grande imprensa fabrica escândalos, quando os escândalos não têm a generosidade de se fabricarem sozinhos. Entorpecidos por uma realidade alarmante e inflacionada por um consumismo mesquinho, somos obrigados a desviar os olhos para seguirmos sãos. Talvez os escândalos tenham se banalizado, apontaria um. Ou então não são escândalos “porreta” o suficiente, devolveria um outro. O problema reside no fato de que não é preciso haver um vencedor nesse duelo de retóricas perdidas. Perdemos todos nós. Anestesiados que somos. O “occuppy Wall street” é uma piada que os engravatados riem enquanto saboreiam um uísque e se embevecem no ar condicionado do 50º andar. Perdemos. O grande escândalo de tudo isso é que ainda não percebemos. E de nada adianta “googlar”.


Guerra santa no portão

Eu não estou em casa. Acreditem. Testemunhas de Jeová, suas orações não me vão me levar ao portão. Desistam. São duas, consigo ver pelas frestas da janela de madeira da sala. Já abaixei o som da tv e elas continuam lá. Ainda não são nem nove horas da manhã. Estão tão acostumadas a esperar pela vinda do Senhor, que se movem apenas para procurar alguma brecha no meu sumiço. Mulheres de pouca fé: eu não estou! Não vou estar nunca para vocês.

Preciso mudar para um apartamento. Lá o porteiro seria pago para ser catequisado por essa gente. Talvez nem tivesse que pegar folheto nenhum só por oferecer uma água gelada a duas vítimas desse sol cortante. E seria considerado um homem bom, já se eu sair, não vão me liberar. Vão me arrastar para o inferno junto com elas porque se soubessem do paraíso, guardariam o caminho para si mesmas, para os filhos e os amigos. Divulgar para estranhos? Com esse empenho ainda?

Foi aí com as duas ali fora, tostando no sol e sentando o dedo na minha campainha, que tive uma iluminação. Com base na minha experiência de anos com as testemunhas eu poderia revolucionar o comércio e as relações entre os clientes e as empresas. Para quem trabalha com cobrança, ensinarei as táticas de perseguição usada por eles: usar todos os meios para encontrar o cliente, nunca desistir, trazer sempre um folheto conciso com os principais serviços da empresa e o endereço da franquia mais próxima. Andar em duplas, com um figurino engomadinho, as moças de saltinho, e sempre levar uma maleta à mão. Pelo telefone, é só ter fé e insistir.

Já no setor de ouvidoria, a tática seria inversa. Os consumidores é que seriam tratados como todo mundo trata as tejotas. Podem ligar. Vocês ligam e quem atende é uma secretária eletrônica, já começa por aí – não terá ninguém lá é o que queremos que você acredite e, se tiver, vai ser bem difícil encontrar. Vamos oferecer várias opções: ligue 1 se você é cliente, ligue 2 se ainda não. Depois disque 1 se você quer falar sobre isso, 2 sobre aquilo, até chegar no 9, que permite falar com um ser humano, a paciência do cliente vai ter acabado ou a ligação caído.

Não acabou? A ligação não caiu? Não seja por isso, a gente põe uma musiquinha e cinco minutos depois derruba. Para os e-mails, respostas-padrão automáticas. Não tem ninguém em casa. Acredite.

Posso até ouvir os milhões caindo na conta com essa minha nova técnica de marketing.  E sem as irmãzinhas, tão insistentes, eu não teria tido essa revelação. Vou lá,dou uma desculpa qualquer, digo que não ouvi antes a campainha porque estava alimentando os passarinhos nos fundos da casa, sei lá, e levo uma água pra elas e pego de novo um folheto. É muito provável que não sejam anjos nem Jesus disfarçados, e vão demorar no palavrório, mas é um jeito de agradecer a Ele. Vou agora sim, até porque de uma próxima vez eu não vou estar.

Aline Viana


Minha lista de Presentes de Natal.

 

Como ainda estamos no Natal e nada escrevi sobre o assunto este ano, acho que ainda é pertinente falar a respeito. Assim é que, sabendo que minha tia-madrinha Clarita leu um texto meu sobre o assunto,  através de um e-mail de minha irmã Regina para sua filha,  resolvi conferir,  pois nem me lembrava mais dele. Queria ver se podia riscar ou alterar qualquer coisa.

Eis a lista:

1 – Dançar tango com Al Pacino em Buenos Aires.
2 – Ganhar uma rosa do Richard Gere.
3 – Ser dona de uma livraria ultra charmosa.
4 – Um par de asas para me locomover.
5 –Ter tempo  suficiente para ler todos os livros que tenho.
6 – Viver em rítmo de trilha sonora.
7 – Noites de luar, dias de sol e madrugadas chuvosas.
8 – Conhecer todos os meus amigos virtuais.
9 – Jogar meus óculos fora.
10- Não precisar trabalhar nunca mais e nunca ficar sem trabalho.
11- Morar em um loft.
12- Cozinhar na cozinha do meu loft para meus amigos sem precisar de lavar a louça.
13- Um cachorrinho que não precise de cuidados especiais.
14- Uma faxineira para deixar minha casa com cheirinho de alfazema.
15- Conhecer todas as palavras em todas as línguas.
16 -Ter tantos amigos quantos os grãos de areia de uma praia.
17- Morrer dormindo.

Reli  cada uma de minhas sugestões para ser presenteada e mesmo sabedora das utopias que desejei acho que não eliminaria nenhuma delas, embora tenha  consciência de que aquilo que realmente queremos conseguimos.Mas certamente nunca poderei dançar um tango com Al Pacino porque nem mesmo sei dançar tango e raramente vou a Buenos Aires. O mesmo vale para o segundo item da lista e quanto ao terceiro, tive a oportunidade e recusei. O quarto? Acredito que seja esse o presente que minha tia-madrinha também gostaria de ganhar, ela com mais veemência porque com os joelhos estropiados certamente um bom par de asas a ajudariam muito. No sentido figurado, tanto ela como eu  não precisamos de asas – temos espíritos livres e inquietos que nunca param sossegados. Ler todos os livros que tenho? Não desisti, mas fiquei mais razoável  porque  estou doando uma grande parte deles e mesmo assim ainda tenho muitos para ler. Um tempo justo, principalmente se parar de comprar, o que meu propósito para o próximo ano. Já conheço dois amigos virtuais e como é de grão em grão que a galinha enche o papo certamente irei mais longe, conhecendo outros. Também não pretendo mais jogar meus óculos fora, aprendi a gostar deles e pretendo mesmo é comprar alguns bem bonitos. Quanto ao décimo esse eu recebi por completo graças ao meu pai que sempre bendigo. Embora esteja satisfeita onde estou um loft não é coisa para se jogar fora. Quanto ao cachorrinho em vez de  um consegui dois mimadíssimos cachorrinhos o que me levou a pensar que é preciso ter muito cuidado com o que se pede. O que posso querer mais? Sinceramente? Minha vida está de bom tamanho, nem pequena nem grande. Só quero mesmo é continuar tendo coragem para viver sempre dentro daquele lema: que hoje eu seja melhor do que ontem e amanhã pertence ao futuro e ninguém vive no futuro: só no presente.


Humor Natalino

  Eu não acredito em natal. Nem no papai noel, pobrezinho. Não gosto das compras desenfreadas, das ruas estericamente cheias e nem dos cheiros excessivamente apetitosos. Mas eu tenho coração, mesmo que não pareça. Eu, confesso, gosto do clima de benevolência que permeia tudo. Sei que é criado pelo constante bip das máquinas de cartão de crédito e caixas registradoras mas nem tudo é perfeito, nem mesmo no natal. Eu gosto de comer castanhas apesar de sempre ficar um restinho amargo no fundo da garganta. Metáfora da festa: depois do doce açucarado do dia 25 vem o sabor honesto da vida real pós 26.

 Para estragar só mais um pouco o clima dos que me lêem, queria dizer o clichê de sempre: que compras, comidas, bebidas e amigos ocultos não fazem a vida mais bonita, nem deixa a família mais amável nem transforma bandidos em mocinhos. Praticamente todas as culturas do mundo comemoram o nascimento de um ser especial que trouxe renovação, amor, promessa, renascimento. Não necessariamente acompanhado de peru da Sadia, Veuve Clicquot ou uma caixa cheirosa do Boticário. Enfim, presenteie sim, mas de verdade. Seja com uma flor de jardim ou uma Mont Blanc. Mas que seja por vontade de fazer alguém feliz e não por convenção social de datas programadas para vender.

     Vou dar um conselho para mim. Ouça se quiser. Quando chegar a inevitável hora da “noite feliz” vou fechar os olhos e pensar naqueles que eu desejaria que estivessem ao meu lado, sem obrigações ou ilusões. Somente presença no silêncio, sensação de estar perto, amizade pelos olhos, abraço com carinho. Se existe mesmo um velhinho que ouve nossos pedidos, seja ele da terra ou do céu, espero que me atenda. E permita que no ano que vem eu possa distribuir todo o amor que sinto mas que, pela busca sem rumo de vaidades das quais não preciso, acabo por reprimir.
Marina Costa