O verde que eles roubaram da gente – II

II

Então meu amigo Dunguinha que também seguia calado e contemplativo se sentou do meu lado na Pedra do cerrado e murmurou estas palavras: “Bolinha, pense num parque…”.

Então, como num passe de mágica, naquele lugar cheio de árvores esturricadas e contorcidas eu vi um monte de meninos correndo entre paineiras alegres e gigantescos guapuruvus, eu vi meninos se metendo entre galhos dum pé-de-manga, crianças desbaratinando nos parquinhos, descendo apressados da goiabeira e apontando deslumbrados um beija-flor com rabo de tesoura sobrevoando os ipês amarelos; eu vi, eu vi, como num passe de mágica, meninos descobrindo o cerrado que não tivemos em nossa infância de asfalto e concreto, eu vi meninos espertos, com uma infância mais verde que a nossa, dando ouvido aos passarinhos, ao sabiá-laranjeira e ao bem-te-vi, meninos imitando gansos e patos na beira de um enorme lago azul…

E aqueles meninos sombrios que engraxavam sapato nas estações e nos terminais de ônibus de Ceilândia e de Taguatinga por míseras moedinhas, agora não estavam mais sentados aos pés de senhores frios ou apressados, nem gastando suas moedinhas com jogos de guerra; não, esses meninos agora estavam sentados a segurar o braço de uma viola, entre violeiros astutos, a ouvir repentistas, aprendendo com os cantadores a improvisar um verso, a puxar a viola com aprumo e graça, descobrindo a magia de cantar, de dar voz ao próprio mundo numa outra forma de expressão!

Eu vi os casaizinhos entardecendo na beira dos lagos, nas pracinhas, nos parques, eu vi outros Léos e outras Bias descobrindo o amor numa cidade que antes era feia e cinza, eu vi outros Eduardos e Mônicas se apaixonando ali sobre meus olhos, vi outros Joõoes e outras Marias, vi Árinas e Vanessas, eu vi os velhinhos e as velhinhas bebendo a nostalgia bela de crepúsculos mais felizes, não mais se queixando da violência, não mais trancado em suas pobres casas, entre mil cadeados fechados, com medo do mundo, do vizinho do lado!

Eu vi belíssimas meninas dançando enluaradas sob o luar do cerrado e me apaixonei por uma delas; essa era de sorriso meigo e sapeca, os cabelos soltos e o longo vestido rodavam no ritmo dos ventos e eu pensara com convicção que vivera uma vida inteira unicamente para aquele lírico momento, para aquele alumbramento quase místico que é contemplar uma mulher dançando entre coisas da natureza!

Foi então que eu acordei do meu sonho, foi aí então que eu pousei desse salto incrível que é imaginar coisas. E vi, árdua e cruelmente a realidade concreta! A realidade era monstruosa, a realidade envolvia interesses, a realidade era um aglomerado de casas e edifícios acuando cada vez mais o cerrado, esse recanto verde que resistia escondido da gente. Mas ao mesmo tempo eu vi, eu vi, ah, eu vi o parque que o Dunguinha com seus olhinhos de poeta vislumbrou – eu vi!

E juntos, mais uma vez, onde menos esperávamos encontrar, descobrimos o verde que os homens de terno e gravata queriam roubar da gente. E mais que isso, testemunhamos o despertar de um novo sonho brotando na gente. As pessoas precisam tomar consciência da existência dele! Era preciso então levar fotografias, divulgar a idéia! Começar – quem sabe – um movimento pela criação de um parque que permitisse a nós o reencontro com o verde! Pois a partir daquele momento aquele verde passou a ser nosso, das gerações de meninos que estavam vindo e dos que já estavam crescendo nessas cidades, esse verde deveria ser de todo aquele que o amasse, esse verde agora deveria ser nosso; sim, era nosso e os homens de terno e gravata não poderiam mais roubá-lo da gente!

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