Ipoema e a Festa das Bruxas

Ipoema e a Festa das Bruxas

 

           Impliquei com o tal de Halloween. Acho inadmissível comemorarmos essa festa, fora das escolas de língua inglesa. No entanto ela está virando uma praga. Todo o ano é a mesma coisa. Nossas escolas estão colocando no calendário e fazem um arremedo da comemoração.Arremedo, porque não é a nossa cultura e soa falso. Não que eu seja contra o entrelaçamento cultural. Sou a favor. A troca, enriquece. Mas não gosto desse forçamento. Não gosto mais ainda do abandono de nossa cultura tão rica. Só, que nunca fiz nada a respeito. Só resmungo, quando recebo convites para ir a alguma. Ou fecho a cara, quando encontro bruxas e vampiros pela rua. Fico até parecendo uma bruxa. Bruxa velha.

 

           Eu nunca fiz nada, mas alguém fez. Em Ipoema, MG. Jamais meus olhos tinham avistado, nem meus ouvidos escutado, nome tão lindo de uma cidade.Ipoema é um poema. Gustavo Werneck escreveu a matéria de capa do Gurilândia, encarte infantil do Estado de Minas, e eu li. Foi por puro acaso, porque quando recebo os jornais de sábado e domingo, que minha assinatura é de fim – de – semana, já vou separando os cadernos que não me interessam para a reciclagem. Gurilândia é um deles, a menos que tenha alguma criança por perto. Ontem não tinha.

 

          Ele escreve que Ipoema fica em Itabira, o que explica tudo. Ou quase. Estou sem internet e não posso consultar o Google. Ipoema fica perto de Itabira ou faz parte do município de Itabira? Não ficou claro para mim, mas depois descubro.De qualquer forma, está a 111km de Belo Horizonte e tem 4000 habitantes. Pequena assim, como Arantina, a cidade onde nasci. Todo mundo se conhece e isso é bom. Faz parte da Estrada Real. Lavras luta para ser incluída e acho que com todo o direito, portanto estamos no mesmo caminho.O que significa que, saindo daqui, chego lá.

 

         Pois lá, em Ipoema, a diretora do Museu do Tropeiro, Eleni Cássia Vieira, teve a original idéia de transformar essa típica festa norte-americana em uma festa brasileira. Dia 31 de outubro, em vez de bruxas e vampiros Ipoema será tomada de assalto pelos mitos nacionais predominantes na região: Saci Pererê, lobisomem, cavalinho-de-osso, mãe-de-ouro e a mula sem cabeça.Alguns desses mitos assombraram a minha infância, como o saci pererê, o lobisomem e a mula sem cabeça. Sempre pensei que o Saci pererê fosse amigo de meu irmão Tarcísio.Não posso mais checar isso, porque o Tarcísio morreu. Mas as artes do sacizinho, moleque de uma perna só, são iguais as que meu irmão fazia. Era um menino danadinho. Talvez por isso eu não tivesse tanto medo do Saci, mas me aterrorizava com o lobisomem e a mula sem cabeça. Minha avó gostava de apontar-me um certo homem quando passava por nós, dizendo -. “Esse aí é lobisomem.”. “Mas como sabe vó?” “Ah,ele tentou devorar o próprio filho. A mulher estava sozinha em casa quando o bicho entrou. Ela custou a afastá-lo, mas quando o marido chegou ,ela notou que ele trazia nos dentes fiapos do cobertor da criança.” A mula-sem-cabeça me causava pena:era a mulher do padre, condenada a vagar pela vida por ter pecado.Muito injusto, eu pensava. E o padre, virou o que? Mas, o que me dava mais medo era o cavaleiro da meia-noite.Ele atravessava Arantina todinha, com seu cavalo, bem devagar…Não sei que pena penava, mas sei que quando pressentia alguém com medo e acordado ele dava uma paradinha em frente à janela… Quantas noites eu ouvi seu passar e o sentia parado em frente a minha janela!… Pois é, já posso contar histórias…Aliás, tenho algumas bem interessantes, das assombrações que vi pela vida, mas hoje o que quero é festejar Ipoema. E desejar que tenha vida longa esta comemoração.Que o cavalinho–de-osso passe chocoalhando os ossos de seu corpo cansado, que a mãe-do-ouro cruze os espaços celestes  como uma estrela cadente, que o saci-pererê não deixe o cachimbo cair da boca enquanto faz trapalhadas  ao som da roda de viola que vai trazer de volta sem dúvida nenhuma os velhos fantasmas dos tropeiros que por ali passaram.

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3 respostas para “Ipoema e a Festa das Bruxas

  • Henrique Fendrich

    Maria Olímpia, eu vejo com muito reserva essa coisa de “cultura nacional”, e a crítica de que “halloween não é da nossa história”. Pra mim, não existe cultura nacional. O carnaval mesmo vem da Grécia. E quando criticamos o halloween por não ser da nossa cultura, estamos admitindo a possibilidade de ser rechaçados no exterior pelos mesmos motivos, quando fomos praticar “algo nosso”, Mas entendo, claro, os abusos que nascem a partir das escolas inglesas, e o perigo de esquecimento de outras atividades. Só que aci-pererê, pra mim, também não diz nada.

  • Henrique Fendrich

    saci-pererê*

  • Aline Viana

    Também não vejo as festas de Halloween como um fenômeno cultural negativo per si. Acredito, claro, que a cultura nacional deva ser valorizada, mas não acho que isso implique em excluir o estrangeiro. Sou meio modernista, voto pela antropofagia rsrsrs! Tanto é que até o lobisomen não é nosso, veio aí muquiado em algum navio e se espalhou de norte a sul. Mas isso é assunto pra outro dedo de prosa, rsrsrs

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