Honra teu trisavô e tua trisavó

 

Aqui no Brasil é comum ouvir que não sei quem tem antepassados holandeses, aquele outro tem avô português, um terceiro pode requerer cidadania italiana porque sabe lá por quais vias tem um sobrenome de capo. Poucos são os que contam que são descendentes do pretinho lá da Angola, ou Zaire, ou Somália.

Em defesa deles podemos argumentar que ninguém sabe ao certo de quais países vieram nossos afro-antepassados. Até porque os senhores de escravo se empenhavam para misturar pessoas de origens diferentes justamente para dificultar que eles se organizassem e fugissem. Mas enfim, isso tudo para dizer que agora é a hora da revanche! E foram os meus antepassados que iniciaram o contra-ataque.

Recebi essa semana um digníssimo e-mail do Mr. John Cocker, não o cantor, mas um ilustre banqueiro do Barclay’s do estado da Flórida/EUA. Diz ele que um tal de Mr. Timmy Cross apareceu por lá com uma procuração minha para sacar o dinheiro deixado por um parente para mim na instituição. Café pequeno, coisa assim de uns US$ 16,5 milhões.

Agora me conta, quem é o alemão, o francês, o espanhol que deixou isso para qualquer um de vocês leitores? Não tem, né? Sabia. Tantos reis e príncipes havia naquelas tribos africanas que algum havia de ser esse meu parente, com certeza. Ou então, foi algum senhor da guerra, que arrependido, lembrou-se dos familiares de além-mar e me escolheu. Certamente, agora com toda essa bufunfa nas mãos, vou encomendar o brasão familiar, procurar-lhe o túmulo e fazer todas as cerimônias pertinentes. É o mínimo.

E também, que dignidade do Mr. Cocker, em me mandar um e-mail para confirmar se eu tinha mesmo autorizado o Mr. Cross a responder por mim. Oras pois, é claro que não, pois se só agora eu soube de toda essa maravilha! Mas também não é motivo para se apoquentar, já lhe mandei todos os meus dados bancários corretamente. Ele só me pediu um pequeno adiantamento, coisa de algumas centenas de dólares para abrir a minha conta, fazer toda a papelada.

Eu nem deveria estar contando essa estória, afinal, já teve gente que morreu por muito menos. Só lembrar daquele caso do ganhador da Mega-Sena. Mas, achei que um testemunho desta envergadura histórico-social devia ser compartilhado. Afinal, é um esforço em prol da conscientização. Não acham? Mesmo? Ah, então só morram de inveja.

 

Aline Viana

Muito mais que cinquenta coisas

Nessa era da internet o que não faltam são textos de autoajuda publicados a orto e a direito sobre tudo e sobre nada, muitas vezes sem autoria ou com autoria falsa. Assim a gente lê de tudo e se alguém pergunta somos incapazes de responder a mais simples das perguntas: De quem é isso? Li não sei onde e nem quando, sobre a importância do esvaziamento – esvaziar móveis, cômodos e mente, com o objetivo de renovar a vida – é o que estou fazendo, movida pela necessidade geográfica: estamos passando por essas mudanças dentro da própria casa e transportando objetos de um lugar para o outro e esvaziando gavetas e armários. Olho ao meu redor e constato aterrada, o tanto de tralha que venho juntando esses anos todos. Coisas inúteis das quais nem me lembrava mais, estão se empilhando em busca de um melhor destino, que na maioria das vezes será o lixo, mesmo que seja reciclável – bem mais de cinquenta coisas e com isso vou ganhando espaço. Só espero que não seja para colocar lixo novo.

Nesse mexe e mexe daqui para ali e de lá para cá certamente terei algumas perdas, mas já noto muitos ganhos – meu baú de escritos está a caminho de se tornar organizado. Em um único lugar coloquei tudo o que escrevi e foi publicado, em jornais, revistas e participações em livros, tudo o que escrevi e que está organizado – dois livros de poesias e três romances, sendo um em co autoria.  Esse lugar já chamo de minha arca do tesouro,  pois ali está  minha maior riqueza – os frutos do meu pensamento, o produto de minha mente. Em outro local, mais accessível e agora reunidos, meus romances inacabados, meus textos esparsos, colocados agora de forma que eu possa trabalhar com eles e deixa-los agrupados  para que possam um dia, quem sabe, se tornarem livros publicados, vendidos e lidos.

Estou aqui lutando para continuar dentro desse tema – a necessidade de abrir espaços para que a vida possa fluir, porque minha mente teima em pensar em outra coisa: a razão pela qual eu nunca, realmente, me interessei por publicar meus escritos. Só que meu pensamento em um momento de lucidez me garante que não é hora para isso – agora é hora de jogar fora o lixo acumulado e continuar procurando e me livrando de mais lixo. Questões psicológicas vou deixar para quarta-feira buscando ajuda com minhas parceiras na sessão de terapia de grupo. Ou com meus leitores virtuais que podem dar alguns palpites.

Maria Olímpia Alves de Melo

Chorinho

Cheiro de cravo, rosa na lapela, gravata violeta em terno de marfim. Pele de baunilha, boca fresca de cereja, olho azeitonado, tirou ela de mim. Vejo, se vão longe, de mãos dadas e sorrisos, abraçados e perdidos em um amor que não tem fim. Vai feliz do lado dela, vai devota ao lado dele e eu que não abracei, não amei, não fiz que sim, fico no pó da esquina, sob a chuva e o sol do tempo, sozinho para contemplar esse meu coração ruim.

Marina Costa

 

 

A MAÇÃ

 

Por um lado te vejo como um seio murcho
Por outro como um ventre
Cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino
Dentro de ti
em pequenas pevides
palpita a vida prodigiosa
Infinitamente…

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel

 

Nesse poema de Manuel Bandeira a maçã aparece como objeto de um olhar, tal como classicamente se dá em sua relação com os pintores. A diferença é que, enquanto ao olhar do pintor ela é uma natureza morta, aqui, ao olhar do poeta, ela é aproximada ao ser vivo, ao ser humano. Ela é comparada a partes do corpo humano: seio, ventre, por sua forma arredondada. O pequeno caule é comparado ao cordão placentário.
Junto com o humano ele é aproximada á divindade – ao amor divino: o vermelho , cor do sangue , púrpura dos reis, envolve sua polpa, no interior da qual as pevides ( sementes ) são fontes milagrosas de vida eterna.
No final, ainda animada, pois ainda interlocutora, destinatária da fala do poeta, ela sofre uma redução: ela é aproximada á condição de objeto pictórico, de natureza morta, ela é aproximada aos objetos, ao mundo inanimado, colocada ao lado do talher, no quarto de um hotel.
O quarto de hotel é pobre, a maçã “queda” e se torna simples. Ela que se apresentava numa perspectiva de progressiva complexidade, retorna ao simples, ao estático, ao inerme.
A viagem do poeta através da maçã, a viagem da maçã através do poema, é metáfora da relação dinâmica entre a transcendência e a imanência dos seres, entre a simplicidade e a complexidade da existência.

(Afonso Guerra-Baião)

Outrossim, válido aditar

Revista Diretrizes praticava bullying estilístico

Diz o velho Braga – sempre ele – que existem boas maneiras para se começar pessimamente um texto. E cita o caso do homem que queria publicar um artigo sobre economia ou política na revista Diretrizes, dirigida por Joel Silveira, de quem era amigo. Depois de muito tempo, o artigo finalmente ficou pronto e foi entregue ao Joel, que começou a ler. Pois não precisou ler mais que a primeira frase. Indignado, e aos gritos, foi mostrar ao Braga o começo do artigo que havia lido.

– Veja se é possível publicar isto! Leia as três primeiras palavras: você não conseguirá chegar até a quarta palavra. A linotipo vai engasgar na hora de compor isso!

E o Braga leu então as palavras que o amigo de Joel havia escolhido para iniciar a sua composição:

Tirante, é óbvio…

– Eu fecho esse jornal, mas esse artigo não sai!

Lembrei dessa história porque acredito ter encontrado um caso ainda pior. E digo pior não só pela escolha das palavras, mas por estar na apresentação de uma revista – uma publicação sobre a inclusão feminina na sociedade. Depois de dizer que pretendem colocar a mulher “como artífice da construção de uma sociedade equânime” – o que por si só já é algo pavoroso – o redator teve a habilidade de compor o seguinte início de parágrafo:

Outrossim, válido aditar…

Fiquei tão espantado com essa criação que tive vontade de conhecer o seu autor. Certamente, trata-se de um septuagenário nato, como o Nelson Rodrigues chamava gente como o Rui Barbosa. O Nelson, inclusive, dizia que o Rui havia sido o último deles. Pois eu creio que não. Ninguém aprende a falar “outrossim, válido aditar”. É bem provável que o redator já tenha nascido com isso dentro dele. A apresentação da revista foi apenas a oportunidade para que a frase se manifestasse. Eu, sinceramente, não consigo imaginar como tenha sido a infância de uma pessoa capaz de formular frases como essa – é por essa razão que acredito se tratar de um septuagenário nato.

Rui Barbosa, o homem que nasceu aos 70 anos

Outrossim, válido aditar que a revista está procurandoum jornalista. E por uma grande coincidência, eu sou um jornalista. Como é uma revista que trata de temas essencialmente ligados à sociedade feminina, eu imagino que prefiram contratar uma mulher – e, como se sabe, eu não sou uma delas. Mas apesar disso, acho que não seria esse o maior problema que eu poderia ter com o conselho editorial da revista: eu me considero muito mais próximo do cérebro feminino do que do cérebro do Rui Barbosa.

Tirante, é óbvio, contradições secundárias.

Sintomas

Surge assim, quando menos se espera. Rápido demais, a ponto de não querer acreditar. Mas não há como negar. Chega de maneira avassaldora? Nem sempre. Acredito que seja de mansinho, de maneira acanhada, comendo pelas beiradas, obrigando-lhe a desvendá-lo e buscar a certeza, pois não trata-se de algo que surja todos os dias. Não é coisa fácil de reparar, é necessário prestar atenção aos detalhes, pois, aos poucos, as pistas vão surgindo, de maneira cada vez maior. Lembra tímidamente o período de gestação, mas ao invés de sentir náuseas e dores,  você sua e treme, sente frio e calor, tudo ao mesmo tempo. Não é possível? Sim, garanto que é. Basta que também chegue pra você . Analisando bem, até sente uma dor, mas uma dor gostosa, por mais que soe paradoxalmente. É uma dor misturada com um quê de alegria, com um quê de saudade, com um quê de se saber feliz. Dizem ser uma espécie de sexto sentido, controlador de todos os outros. Sente-se mais perceptível a cenas e fatos antes nunca reparados. ‘Nossa, o pôr do sol é tão bonito assim?’ É mais ou menos por aí. Torna-se mais criança e mais humano. Diria até que contem algo de divino, algo de transcendente… Há quem pergunte do que é feito. Não há resposta. Ainda bem, já pensou se virasse algo banalizado, vendido em farmácia? ‘Basta uma colher de sopa, de três em três horas. Em uma semana já verá o resultado! Adquira já o seu!’ Deus me livre. Se repararmos bem, pode-se dizer que seja algo inerente à todos, como se já nascesse conosco, mas foge, com o intuito justamente de fazermos por merecer o seu retorno. E como descobrimos já sermos merecedores? Se houvesse resposta, não haveria encanto.Você se sente uma fortaleza. Mas é capaz de sair voando com a primeira brisa que bater. Porque passastes a admirar o canto daquele seu curió, que antes só servia pra encher a varanda de alpiste? Porque não espanta mais aquele pássaro estranho que insiste em pousar no varal e sujar as roupas lá penduradas? Aliás, aquele pássaro é realmente estranho? Talvez pelo fato de se sentir exatamente como estes: Nas nuvens.

O que está acontecendo com você? Os sintomas são evidentes. É a mais pura contaminação, e não há remédio que a combata.

Permita-se ser contaminado…

O verdadeiro problema dos ônibus

“Caro Senhor Prefeito

Escrevo para tratar de uma questão urgente nos nossos ônibus, vans e metrôs. O senhor pode ficar descansado porque não vou tratar do trânsito, dos bancos desconfortáveis, da superlotação, das baratas ou do preço da passagem. Mas nem por isso o meu assunto é menos importante, pois se trata dos encostos.

Não, senhor, não dos encostos dos bancos, que como eu já lhe disse, estão dentro dos padrões para o transporte público. E sim daqueles que o mestre Chico Xavier nos alertava em seus livros. Ele assim chamava as entidades que dominavam um ser vivo e o punham sob seu domínio. Porém, aqui cabe uma revisão ao amigo Xavier. Acho que lá nas Minas Gerais ele só andava a pé, então não visualizou todas as implicações do fenômeno.

O senhor pegue um ônibus. Mesmo com todos os seus assessores a lhe proteger dos cidadãos que pedem emprego ou qualquer outra coisa, poderá observar que haverá um grupo ali em pé ao lado da porta. E não importa se tem bancos disponíveis ou se vão descer longe. Eles se agarram ao suporte e ali ficam todo o tempo. Os outros pensam que eles vão descer, mas nada. São incapazes até de dar passagem para que os outros saiam.

Diga-me se isso não são sinais claros de que temos uma epidemia de obsessores nos transportes públicos desta cidade? Basta olhar pra eles: estão assim, assim, sem qualquer vontade, sem ânimo, nitidamente sob influência de algo maligno, um feitiço. E mesmo que você grite e xingue e proteste, eles dali não saem. Quer mais sinal que este?

Pois então, caro prefeito, esqueça das baratas, da superlotação, do trânsito que isso são problemas que todos os países de primeiro mundo têm e não pega nada. Pense na saúde espiritual de nosso povo. Chame exorcistas de renome para que venham purificar os nossos carros públicos. Ou, pelo menos, algum médium decente. Se para isso não houver mais verba a essa altura do ano, pelo menos ordene que se tire os apoios verticais dos coletivos, pois isso já dificultaria que os encostos atrapalhassem o dia-a-dia nos veículos.

Na certeza de sua compreensão,

Heitor da Silva, sempre seu eleitor”

Aline Viana

Comendo pipoca na cozinha branca e fria

Comendo pipocas na cozinha branca e fria

                Sozinha com minhas panelas e meus pratos refratários estou sentada na cozinha. Fico pensando em minha avó cozinhando no fogão de lenha, as panelas enegrecidas, lavadas com sabão de cinzas. O forno de micro-ondas apita e eu tiro as pipocas amanteigadas e me sento a mesa de fórmica pensando na vida.

                Minha avó tinha cinquenta e cinco anos quando morreu e era uma velha e eu querendo começar a viver. Agora. Tem cabimento a vida? E não é que nessa idade ainda penso em safadezas? Acho que foi a televisão quem fez a minha cabeça, ou a internet e a cabeça de minha avó foi feita pela religião.Minha avó era viúva e usava um coque sem nenhum glamour. Eu não. Trago os cabelos bem curtos como se ainda fosse moleca. 

               Minha cozinha é fria, apesar do calor que faz lá fora. Mas a dela era tão quente… As achas de lenha queimando faziam um fogo vermelho de pura  paixão e queimava tudo o que ardia deixando a brasa quente virar carvão. Meu fogo é azul de um azul tão pálido que tenho medo que se esvaia.

              Meu tio era carvoeiro. O meu pai era padeiro. E eu, o que eu sou? Nem ao menos sei quem sou mas muita coisa sei que não sou.

             Minha avó fazia doces e tingia com papel crepom. Ela coloria os doces mas a vida era em preto e branco, sem rouge ou batom. Eu tenho os cabelos vermelhos. Ora enrolo, ora estico. Quando me lembro do coque de minha avó quero arrancar meus cabelos fazê-los voar ao vento, ficar careca de puro desencanto. A vida mudou ou continua tudo igual? Minha avó enchendo  de carne moída  bem temperada as tripas tão bem lavadas do porco,  para fazer linguiças. que eu espetava com um alfinete para tirar o ar.  Eu comendo pipocas , milho arrebentado dentro de um saco de papel. O milho no saco, o saco no forno e o fogo apagou. Todas as duas tão sozinhas, eu sem filho ou marido, ela  com tudo e sem nada, tão cedo esticada no frio caixão de madeira, toda coberta de flores, molhadas com água de sal.

              Tem gente que acha que eu sou esquizofrênica só porque crio gatos. E daí? Eles só existem na minha imaginação. Não fazem sujeira, não fazem barulho, não custam dinheiro ,nem gemem na noite escura andando pelo telhado. Não incomodam ninguém. Minha avó criava ratos no porão. Os ratos roeram os meus sonhos ainda menina. É por isso que eles são tão esfarrapados, assim meio adoidados. Eu já quis ser artista de circo, trapezista. Minha avó ria de mim. Dizia que eu seria matrona, como ela. Não sou não. Sou estabanada, sou lerda, sou nada, mas não sou escrava do fogão. Um dia eu deixei meus cabelos crescerem e fiz um coque. De noite tive pesadelos: piolhos fazendo pique-nique em minha cabeça.

               A cozinha de minha avó cheirava a fumaça. Mas era um cheiro bom. A minha cheira incenso e tem flores no fogão. Fiquei órfã de avó muito cedo, não aprendi a envelhecer. A velhice é tremendamente ridícula. Eu tenho um retrato dela, minha avó na janela, ao lado de meu avô. Cara de mau, enfezado, como se fosse pecado sonhar com o céu nesta vida. Pensando em suas bonecas, com as quais nunca brincou, o jeito dela era triste, como se da mãe estivesse sentindo uma grande saudade. Por certo lá dentro esperando, a comida por fazer, as trouxas para lavar, as crianças berrando, as camas para arrumar. Eu juro que nunca quis um destino assim para mim. E se eu pudesse mudava a vida que ela levou.

             ô merda!!! ô merda! Eu fico aqui lamentando a vida que ela levou, mas que raio de porcaria é a vida que levo eu? Tem muita diferença o que sou do que ela foi?

               Acho que fico tentando encontrar desculpas. Tentando achar que sou mais feliz do que foram as mulheres de minha família que vieram antes de mim. Elas se contentaram em ser tão comuns! Eu me recuso a ser banal. Mas afinal de que adianta essa minha recusa se no final tudo o que me  resta é esta cozinha branca onde como pipocas frias, tão sozinha como qualquer uma outra mulher nesta vida?

               Quando eu era menina e ajudava a minha avó a assar pães de queijo no forno a lenha do terreiro, sonhava ser princesa. Rapunzel em minha torre de pedras a espera do prìncipe libertador. Mas se naquela época eu nem tinha dor! Do que eu queria me livrar?Dor eu tenho agora, mas agora os príncipes morreram, de câncer ou de aids e eu nem mais tenho, nem avó nem avô.

             No fundo da casa tinha um quintal e no fundo do quintal passava um rio que a gente avistava da porta ou da janela da cozinha. As águas que por alí passaram nunca mais voltaram e nem voltarão. De minha janela vejo a vida passar e nada, nada vai voltar. Nada será como antes, nada será como agora, mas tudo continua igual, como se tudo tivesse parado um dia, no tempo, no espaço.

             Eu usava uns brincos vermelhos de princesa que eu apanhava das trepadeiras que subiam pelas cercas de bambu. Hoje tenho uns cristalinos ,bem brilhantes ,que comprei em uma joalheria em um shopping em Beagá.
E daí?

            É assim que vejo a vida. Sentada na minha cozinha, nada sendo como antes, tudo igual ao mesmo tempo. Minha avó, lá me esperando…e eu aqui, fazendo hora esperando a vida passar.

  (este texto aqui transcrito como crônica é um poema denominado Cozinha e faz parte do meu livro de poesias inédito: Mapa da Vida)

Morena

É morena, o cantor diz que está tudo bem e te chama de serena. Mas por trás desse rosto passivo, escorre lava e pedras explodem, contidas pelo germe da boa educação.

O mundo continua girando e levando quem já cumpriu seu tempo e você segue chorando por tudo que sabe não ter remédio. O fardo é pesado mas ai daquele que te mandar descansar. Sua bondade de mártir te dá forças, mesmo que falsas, para continuar a andar.

É morena, chega uma hora na vida que é preciso decidir. Deixar o outro escolher por você não quer dizer diplomacia mesmo que seja o que sua mente condicionada quer te fazer acreditar. Busque o seu caminho pela sua vontade. Diz a lenda que quem se deixa levar acaba ficando invisível, perdido na floresta do nada…

Levanta dessa cama e abre o vidro da janela. Não tem problema se a chuva entrar. Tudo um dia seca. E se alguém reclamar, deixa falar… ou você acha que o mundo segue essas nossas regras contidas?

A vida passa, morena, e você insiste em não querer deixar marcas. Não quer ser citada, não quer ser lembrada, não quer se mostrar. Página em branco, sem margens nem linhas, só existindo por insistência da criação. Não é desperdício não?

Tenta acordar se sentindo linda. Achando que fala a língua do vento, que ouve as histórias das árvores velhas. Beije aquele menino com brilho no olhar. Lambuze a boca de chocolate, fale coisas impensadas, só para rir de si mesma.

O tempo vai passar morena, e todo o riso vai ser esquecido. Seus sonhos e desejos não serão mais que memória empoeirada. Mas o que você pode sentir, morena, isso vai seguir por aí. Inspirando outras meninas que como você tinham medo de viver.

Marina Costa

LEITURAS

LEITURAS

Leio no noticiário: mulheres do grupo Femen comemoram, seminuas, a queda do primeiro ministro italiano, Sílvio Berlusconi. Confiro na Wikipédia: Femen é um grupo ucraniano de protesto com base na cidade de Kiev, fundado em 2008. A organização tornou-se notória por protestar em topless contra temas como o turismo sexual, o sexismo e outros males sociais.
Leio: Muammar Kadafi era viciado em sexo e em Viagra. Ficava com quatro ou cinco mulheres por dia. Segundo seu chefe de cozinha “algumas ficaram ricas com seus presentes; outras não tinham tanta sorte e saíam dos aposentos do ex-ditador direto para o hospital para receberem atendimento médico”.
Leio mais (ora, vejam que coincidência): Berlusconi pensou em renunciar quando a OTAN decidiu atacar Kadafi, seu amigo.
Leio em outdoors pela cidade anúncio de show com Mc Catra. Ouço na internet um refrão que ele canta junto com Mc Dido: “Vira a cara pra parede, vira seu bumbum pra cá”. As músicas Mc Dido têm títulos assim: “Novinha da bunda grande e a xota pequenininha”; “Que novinha safada”; “Porque eu gosto só de novinha”; “Como é bom ser traficante”.
Que se pode ler nessas amostras? Redução do ser feminino a partes de seu corpo, mutilação simbólica da mulher, a pedofilia insinuada pela fixação na “novinha” e a apologia do crime.
Bem ao contrário da mensagem do Grupo Femen: afirmação do corpo feminino contra restrições moralistas; afirmação do ser feminino contra reduções sexistas; afirmação da mulher como sujeito, para além das barreiras geopolíticas e dos preconceitos de gênero.

Afonso Guerra-Baião

É dia de mudança

É dia de mudança, afinal. Moramos numa região alta em que venta muito. É comum que as casas sejam destelhadas. Também as árvores costumam derrubar os seus galhos. Outro dia, caiu um deles justamente em cima da nossa antena parabólica. Foi um baita prejuízo. Minha mãe não suporta mais passar por isso. Quando o vento é forte demais, e vem a tempestade, ela tem medo do que possa acontecer. E então faz orações para a santa. Há inclusive uma simpatia que consiste em fazer uma cruz com farinha, ou algo do tipo, em cima da mesa. E assim passamos, enquanto lá fora venta, chove, troveja.

Mas não mais, pois hoje mesmo nos mudamos. Até que ficamos bastante tempo aqui – todos os meus treze anos. Conheço toda a vizinhança. Quer dizer, ultimamente vieram alguns moradores novos, que eu não conheço tão bem. Mas por aqui sempre estiveram os meus amigos. Do outro lado da rua, o meu melhor amigo. Na casa ao lado, a minha primeira amiga – eu tinha quatro anos. Depois a gente cresceu e se separou. E há os amigos que moram em outras ruas, mas sempre aqui por perto. É bem verdade que nos últimos tempos eu pouco tenho conversado com eles. Estou me mudando daqui e não fiz as pazes com meu melhor amigo. A gente brigou, e já faz tempo. Mas nem sei o que houve. Sei apenas que um dia eu não fui mais em sua casa, ele não foi mais na minha, e fomos repetindo isso ao longo dos dias, até que nos acostumamos com a situação.

De vez em quando o irmão dele vem aqui em casa. Mas tem só uns cinco ou seis anos. Não é a mesma coisa. Tenho passado a maior parte do tempo sozinho mesmo. Quer dizer, ultimamente arrumei um cachorro. A gente nunca teve um cachorro, mas eu arrumei o cachorro do vizinho pra mim. É um vira-lata pequeno, criança ainda, e todo branco. Mora na casa ao lado. Supostamente, ele estaria preso ou amarrado – na pior das hipóteses, deveria estar solto mas dentro do terreno dos nossos vizinhos. Mas aquele cachorro não conhece limites ou fronteiras. Não tem um dia que não escape até a nossa casa. E eu aproveito a ocasião para brincar com ele – raros cachorros brincam mais do que esse. Jogo até futebol com ele. E basquete. É um bom companheiro. Agora há pouco, brinquei com ele pela última vez. A gente vai se mudar e eu vou perder o meu novo amigo. Paciência.

Sou meio bobo e por isso fico pensando em todas as coisas que estou fazendo pela última vez nessa casa. Fui tomar banho e pensei nisso – a última vez que estava tomando banho ali. Não sei até que ponto o sentimento era natural, mas eu realmente me emocionei. Deu vontade de chorar. Ali, embaixo do chuveiro. Não sei bem o motivo. Um pouco era mesmo saudade e outro tanto era vontade de sentir mais saudade. Alguma coisa deve mudar em mim junto com essa mudança. Estou saindo do lugar da minha infância. Acho que foram essas coisas que me deram vontade de chorar – e eu não me fiz de rogado.

Enfim. Meu pai está me chamando. Tenho que ajudar a levar coisas para o caminhão. As coisas pequenas, claro. As minhas coisas de criança estão subindo naquele caminhão também. Onde as deixarão? Elas só fazem sentido nessa casa. Mas vamos lá. Vou aproveitar ao máximo as coisas que farei aqui pela última vez. Talvez eu queira guardar bem na memória. Um dia, quem sabe, eu até escreva algo sobre isso.

Henrique Fendrich

Onde vai dá tanto desimbêste?

Quem se achega ao Santuário dos Pajés logo vê cobaíba, aroeira, ipê, jatobá, um festejo de árvores nativas do cerrado, passarim de enchê de luz as vista – os Fulniô batucando, e quem vai se achegando também vai se inteirando da vida com a terra, planta-se um ipê aqui, uma goiabêra ali, um pequizêro acolá; uns mais achegados arriscam uma pandeiração nas batucadas, se apruma nos pife, bate triângulo e quizumba na zabumba.

 

Até certo tempo atrás – dizem – nada perturbava o canto do juriti – o diabo é que há menos de uma légua, bem perto dali, estridente grita, esperneia com uma fome desesperada de destruição os tratores da Emplavi. Esses tratores, diferente dos passarinhos, não cantam nem avoam; só fazem zoada e desmatação. Chegam derrubando tudo, sem um pingo de dó arrastam árvores ancestrais plantadas pelos índios há anos: caem por terra umbaúbas, guarirobas, pau d’balsa, ipês, copaíbas, cai tudo, e num sobra nada por onde essas peste passa, só a poeira vermelha nas vista… E a gente simples que se sente rica com tanto passarinho, bicho e planta, em desalento se pergunta: pra quê isso, meu Deus, pra quem serve tanta destruição, onde vai dá tanto desimbêste?

 

Sandália prata, salto doze

Ela devia calçar 37, calculou o homem. Um ramo de flores serpenteava pela lateral do pé. Seriam flores de cerejeira? Dizia-se que elas tinham um significado especial, embora não conseguisse atinar qual. As unhas eram de um vermelho intenso. Ele não conseguia se decidir se já tinha visto aquela cor antes. Punha um olhar alucinado naqueles pés, preso em divagações.

Alex pegou o trem na estação Rebouças, no final da tarde, e deu sorte de encontrar um lugar vazio. Colocou a pasta sobre o colo e deu uma olhada 180° em volta. A mulher da vida dele poderia estar ali mesmo, por que não? E ele já tinha uma pista para descobri-la em meio a tantas outras: pelos pés.

Os pés deviam ser bem proporcionados em relação ao corpo, unhas feitas e limpas – não fazia muita questão de cor – sem veias saltadas, calcanhar cascudo, nem tatuagens bestas como golfinhos ou estrelas.

Uma passageira de calça jeans e camisa clara desafiou o dia chuvoso e quase frio com uma sandália de tiras prateadas. Sentada, de pernas cruzadas, oferecia um bom ângulo para que Alex examinasse seus pés.

Ele estava disposto a ser feito de tapete, mas não por qualquer uma. O passo tinha que ser elegante e firme para deixar sua marca.

Chegavam à estação Santo Amaro e ela fez menção de descer. Ia chegar junto. Todo mundo se aboletava em frente à porta, parecia até que não tinha nenhuma outra naquele vagão. No empurra- empurra, ele sentiu um salto sobre os pés. Nada do condutor abrir a porta. A dor crescendo. Olhou e ela sorriu, meio sem jeito:

– Desculpe, moço. Mas não consigo me mexer daqui.

Naquele dia, deu a ela seu cartão e conseguiu o telefone  dela. Não parece que a marca, já meio roxa, vá sair tão cedo.

Aline Viana