Arquivo do mês: novembro 2011

Honra teu trisavô e tua trisavó

 

Aqui no Brasil é comum ouvir que não sei quem tem antepassados holandeses, aquele outro tem avô português, um terceiro pode requerer cidadania italiana porque sabe lá por quais vias tem um sobrenome de capo. Poucos são os que contam que são descendentes do pretinho lá da Angola, ou Zaire, ou Somália.

Em defesa deles podemos argumentar que ninguém sabe ao certo de quais países vieram nossos afro-antepassados. Até porque os senhores de escravo se empenhavam para misturar pessoas de origens diferentes justamente para dificultar que eles se organizassem e fugissem. Mas enfim, isso tudo para dizer que agora é a hora da revanche! E foram os meus antepassados que iniciaram o contra-ataque.

Recebi essa semana um digníssimo e-mail do Mr. John Cocker, não o cantor, mas um ilustre banqueiro do Barclay’s do estado da Flórida/EUA. Diz ele que um tal de Mr. Timmy Cross apareceu por lá com uma procuração minha para sacar o dinheiro deixado por um parente para mim na instituição. Café pequeno, coisa assim de uns US$ 16,5 milhões.

Agora me conta, quem é o alemão, o francês, o espanhol que deixou isso para qualquer um de vocês leitores? Não tem, né? Sabia. Tantos reis e príncipes havia naquelas tribos africanas que algum havia de ser esse meu parente, com certeza. Ou então, foi algum senhor da guerra, que arrependido, lembrou-se dos familiares de além-mar e me escolheu. Certamente, agora com toda essa bufunfa nas mãos, vou encomendar o brasão familiar, procurar-lhe o túmulo e fazer todas as cerimônias pertinentes. É o mínimo.

E também, que dignidade do Mr. Cocker, em me mandar um e-mail para confirmar se eu tinha mesmo autorizado o Mr. Cross a responder por mim. Oras pois, é claro que não, pois se só agora eu soube de toda essa maravilha! Mas também não é motivo para se apoquentar, já lhe mandei todos os meus dados bancários corretamente. Ele só me pediu um pequeno adiantamento, coisa de algumas centenas de dólares para abrir a minha conta, fazer toda a papelada.

Eu nem deveria estar contando essa estória, afinal, já teve gente que morreu por muito menos. Só lembrar daquele caso do ganhador da Mega-Sena. Mas, achei que um testemunho desta envergadura histórico-social devia ser compartilhado. Afinal, é um esforço em prol da conscientização. Não acham? Mesmo? Ah, então só morram de inveja.

 

Aline Viana

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Muito mais que cinquenta coisas

Nessa era da internet o que não faltam são textos de autoajuda publicados a orto e a direito sobre tudo e sobre nada, muitas vezes sem autoria ou com autoria falsa. Assim a gente lê de tudo e se alguém pergunta somos incapazes de responder a mais simples das perguntas: De quem é isso? Li não sei onde e nem quando, sobre a importância do esvaziamento – esvaziar móveis, cômodos e mente, com o objetivo de renovar a vida – é o que estou fazendo, movida pela necessidade geográfica: estamos passando por essas mudanças dentro da própria casa e transportando objetos de um lugar para o outro e esvaziando gavetas e armários. Olho ao meu redor e constato aterrada, o tanto de tralha que venho juntando esses anos todos. Coisas inúteis das quais nem me lembrava mais, estão se empilhando em busca de um melhor destino, que na maioria das vezes será o lixo, mesmo que seja reciclável – bem mais de cinquenta coisas e com isso vou ganhando espaço. Só espero que não seja para colocar lixo novo.

Nesse mexe e mexe daqui para ali e de lá para cá certamente terei algumas perdas, mas já noto muitos ganhos – meu baú de escritos está a caminho de se tornar organizado. Em um único lugar coloquei tudo o que escrevi e foi publicado, em jornais, revistas e participações em livros, tudo o que escrevi e que está organizado – dois livros de poesias e três romances, sendo um em co autoria.  Esse lugar já chamo de minha arca do tesouro,  pois ali está  minha maior riqueza – os frutos do meu pensamento, o produto de minha mente. Em outro local, mais accessível e agora reunidos, meus romances inacabados, meus textos esparsos, colocados agora de forma que eu possa trabalhar com eles e deixa-los agrupados  para que possam um dia, quem sabe, se tornarem livros publicados, vendidos e lidos.

Estou aqui lutando para continuar dentro desse tema – a necessidade de abrir espaços para que a vida possa fluir, porque minha mente teima em pensar em outra coisa: a razão pela qual eu nunca, realmente, me interessei por publicar meus escritos. Só que meu pensamento em um momento de lucidez me garante que não é hora para isso – agora é hora de jogar fora o lixo acumulado e continuar procurando e me livrando de mais lixo. Questões psicológicas vou deixar para quarta-feira buscando ajuda com minhas parceiras na sessão de terapia de grupo. Ou com meus leitores virtuais que podem dar alguns palpites.

Maria Olímpia Alves de Melo


Chorinho

Cheiro de cravo, rosa na lapela, gravata violeta em terno de marfim. Pele de baunilha, boca fresca de cereja, olho azeitonado, tirou ela de mim. Vejo, se vão longe, de mãos dadas e sorrisos, abraçados e perdidos em um amor que não tem fim. Vai feliz do lado dela, vai devota ao lado dele e eu que não abracei, não amei, não fiz que sim, fico no pó da esquina, sob a chuva e o sol do tempo, sozinho para contemplar esse meu coração ruim.

Marina Costa


 

 

A MAÇÃ

 

Por um lado te vejo como um seio murcho
Por outro como um ventre
Cujo umbigo pende ainda o cordão placentário
És vermelha como o amor divino
Dentro de ti
em pequenas pevides
palpita a vida prodigiosa
Infinitamente…

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel

 

Nesse poema de Manuel Bandeira a maçã aparece como objeto de um olhar, tal como classicamente se dá em sua relação com os pintores. A diferença é que, enquanto ao olhar do pintor ela é uma natureza morta, aqui, ao olhar do poeta, ela é aproximada ao ser vivo, ao ser humano. Ela é comparada a partes do corpo humano: seio, ventre, por sua forma arredondada. O pequeno caule é comparado ao cordão placentário.
Junto com o humano ele é aproximada á divindade – ao amor divino: o vermelho , cor do sangue , púrpura dos reis, envolve sua polpa, no interior da qual as pevides ( sementes ) são fontes milagrosas de vida eterna.
No final, ainda animada, pois ainda interlocutora, destinatária da fala do poeta, ela sofre uma redução: ela é aproximada á condição de objeto pictórico, de natureza morta, ela é aproximada aos objetos, ao mundo inanimado, colocada ao lado do talher, no quarto de um hotel.
O quarto de hotel é pobre, a maçã “queda” e se torna simples. Ela que se apresentava numa perspectiva de progressiva complexidade, retorna ao simples, ao estático, ao inerme.
A viagem do poeta através da maçã, a viagem da maçã através do poema, é metáfora da relação dinâmica entre a transcendência e a imanência dos seres, entre a simplicidade e a complexidade da existência.

(Afonso Guerra-Baião)


Outrossim, válido aditar

Revista Diretrizes praticava bullying estilístico

Diz o velho Braga – sempre ele – que existem boas maneiras para se começar pessimamente um texto. E cita o caso do homem que queria publicar um artigo sobre economia ou política na revista Diretrizes, dirigida por Joel Silveira, de quem era amigo. Depois de muito tempo, o artigo finalmente ficou pronto e foi entregue ao Joel, que começou a ler. Pois não precisou ler mais que a primeira frase. Indignado, e aos gritos, foi mostrar ao Braga o começo do artigo que havia lido.

– Veja se é possível publicar isto! Leia as três primeiras palavras: você não conseguirá chegar até a quarta palavra. A linotipo vai engasgar na hora de compor isso!

E o Braga leu então as palavras que o amigo de Joel havia escolhido para iniciar a sua composição:

Tirante, é óbvio…

– Eu fecho esse jornal, mas esse artigo não sai!

Lembrei dessa história porque acredito ter encontrado um caso ainda pior. E digo pior não só pela escolha das palavras, mas por estar na apresentação de uma revista – uma publicação sobre a inclusão feminina na sociedade. Depois de dizer que pretendem colocar a mulher “como artífice da construção de uma sociedade equânime” – o que por si só já é algo pavoroso – o redator teve a habilidade de compor o seguinte início de parágrafo:

Outrossim, válido aditar…

Fiquei tão espantado com essa criação que tive vontade de conhecer o seu autor. Certamente, trata-se de um septuagenário nato, como o Nelson Rodrigues chamava gente como o Rui Barbosa. O Nelson, inclusive, dizia que o Rui havia sido o último deles. Pois eu creio que não. Ninguém aprende a falar “outrossim, válido aditar”. É bem provável que o redator já tenha nascido com isso dentro dele. A apresentação da revista foi apenas a oportunidade para que a frase se manifestasse. Eu, sinceramente, não consigo imaginar como tenha sido a infância de uma pessoa capaz de formular frases como essa – é por essa razão que acredito se tratar de um septuagenário nato.

Rui Barbosa, o homem que nasceu aos 70 anos

Outrossim, válido aditar que a revista está procurandoum jornalista. E por uma grande coincidência, eu sou um jornalista. Como é uma revista que trata de temas essencialmente ligados à sociedade feminina, eu imagino que prefiram contratar uma mulher – e, como se sabe, eu não sou uma delas. Mas apesar disso, acho que não seria esse o maior problema que eu poderia ter com o conselho editorial da revista: eu me considero muito mais próximo do cérebro feminino do que do cérebro do Rui Barbosa.

Tirante, é óbvio, contradições secundárias.


Sintomas

Surge assim, quando menos se espera. Rápido demais, a ponto de não querer acreditar. Mas não há como negar. Chega de maneira avassaldora? Nem sempre. Acredito que seja de mansinho, de maneira acanhada, comendo pelas beiradas, obrigando-lhe a desvendá-lo e buscar a certeza, pois não trata-se de algo que surja todos os dias. Não é coisa fácil de reparar, é necessário prestar atenção aos detalhes, pois, aos poucos, as pistas vão surgindo, de maneira cada vez maior. Lembra tímidamente o período de gestação, mas ao invés de sentir náuseas e dores,  você sua e treme, sente frio e calor, tudo ao mesmo tempo. Não é possível? Sim, garanto que é. Basta que também chegue pra você . Analisando bem, até sente uma dor, mas uma dor gostosa, por mais que soe paradoxalmente. É uma dor misturada com um quê de alegria, com um quê de saudade, com um quê de se saber feliz. Dizem ser uma espécie de sexto sentido, controlador de todos os outros. Sente-se mais perceptível a cenas e fatos antes nunca reparados. ‘Nossa, o pôr do sol é tão bonito assim?’ É mais ou menos por aí. Torna-se mais criança e mais humano. Diria até que contem algo de divino, algo de transcendente… Há quem pergunte do que é feito. Não há resposta. Ainda bem, já pensou se virasse algo banalizado, vendido em farmácia? ‘Basta uma colher de sopa, de três em três horas. Em uma semana já verá o resultado! Adquira já o seu!’ Deus me livre. Se repararmos bem, pode-se dizer que seja algo inerente à todos, como se já nascesse conosco, mas foge, com o intuito justamente de fazermos por merecer o seu retorno. E como descobrimos já sermos merecedores? Se houvesse resposta, não haveria encanto.Você se sente uma fortaleza. Mas é capaz de sair voando com a primeira brisa que bater. Porque passastes a admirar o canto daquele seu curió, que antes só servia pra encher a varanda de alpiste? Porque não espanta mais aquele pássaro estranho que insiste em pousar no varal e sujar as roupas lá penduradas? Aliás, aquele pássaro é realmente estranho? Talvez pelo fato de se sentir exatamente como estes: Nas nuvens.

O que está acontecendo com você? Os sintomas são evidentes. É a mais pura contaminação, e não há remédio que a combata.

Permita-se ser contaminado…


O verdadeiro problema dos ônibus

“Caro Senhor Prefeito

Escrevo para tratar de uma questão urgente nos nossos ônibus, vans e metrôs. O senhor pode ficar descansado porque não vou tratar do trânsito, dos bancos desconfortáveis, da superlotação, das baratas ou do preço da passagem. Mas nem por isso o meu assunto é menos importante, pois se trata dos encostos.

Não, senhor, não dos encostos dos bancos, que como eu já lhe disse, estão dentro dos padrões para o transporte público. E sim daqueles que o mestre Chico Xavier nos alertava em seus livros. Ele assim chamava as entidades que dominavam um ser vivo e o punham sob seu domínio. Porém, aqui cabe uma revisão ao amigo Xavier. Acho que lá nas Minas Gerais ele só andava a pé, então não visualizou todas as implicações do fenômeno.

O senhor pegue um ônibus. Mesmo com todos os seus assessores a lhe proteger dos cidadãos que pedem emprego ou qualquer outra coisa, poderá observar que haverá um grupo ali em pé ao lado da porta. E não importa se tem bancos disponíveis ou se vão descer longe. Eles se agarram ao suporte e ali ficam todo o tempo. Os outros pensam que eles vão descer, mas nada. São incapazes até de dar passagem para que os outros saiam.

Diga-me se isso não são sinais claros de que temos uma epidemia de obsessores nos transportes públicos desta cidade? Basta olhar pra eles: estão assim, assim, sem qualquer vontade, sem ânimo, nitidamente sob influência de algo maligno, um feitiço. E mesmo que você grite e xingue e proteste, eles dali não saem. Quer mais sinal que este?

Pois então, caro prefeito, esqueça das baratas, da superlotação, do trânsito que isso são problemas que todos os países de primeiro mundo têm e não pega nada. Pense na saúde espiritual de nosso povo. Chame exorcistas de renome para que venham purificar os nossos carros públicos. Ou, pelo menos, algum médium decente. Se para isso não houver mais verba a essa altura do ano, pelo menos ordene que se tire os apoios verticais dos coletivos, pois isso já dificultaria que os encostos atrapalhassem o dia-a-dia nos veículos.

Na certeza de sua compreensão,

Heitor da Silva, sempre seu eleitor”

Aline Viana