O verde que eles roubaram da gente – I

I

A tarde era uma ensolarada tarde de agosto em Ceilândia, dessas bem secas que há no cerrado, dessas que contorcem árvores, devoram sombras e cegam se miradas de frente. Eu saíra com o Sangue e o Dunguinha embaixo de muito sol. Nós havíamos deixado nosso triste subúrbio com suas esquinas e suas ruas para trás e acabávamos de penetrar uma das poucas áreas verdes que ainda resistia em nossa cidade.

A idéia fora do Sangue – Vamos tocar violão na Pedra!

E lá fomos tocar violão nessa tal de Pedra. E que lugar fabuloso não se descortinara ante os nossos olhos sobressaltados! O verde, mesmo oprimido pelo aglomerado de casas e edifícios que se acumulavam monstruosamente ao redor, era imenso, belo, surpreendente. Era o cerrado e sua esplêndida vegetação ali, acuada e escondida entre três cidades ameaçadoras. O sentimento de surpresa que nos assaltou naquele momento veio talvez acompanhado com um certo despeito pelos homens, um despeito pelo mundo sombrio e brutal que eles legaram a todos que fomos lançados aqui no subúrbio. Era impossível para nossos olhos deslumbrados com aquela beleza não se perguntar magoados – “Quer dizer que isso sempre esteve aqui?”.

Sim, sempre estivera ali. Era uma espécie de beleza escondida, acuada por três grandes cidades. Era como se os homens a houvessem escondido todo esse tempo de nós. Mais grave, era como se eles houvessem roubado da gente uma infância que poderia ter sido mais verde. Uma infância entre árvores, uma infância com cheiro de ipê e de terra molhada. Mas a nós, os ceilandenses, os suburbanos, a massa torpe e violenta de Brasília, eles destinaram o asfalto e o concreto. A nós, os vira-latas da capital do Brasil, eles destinaram uma das maiores usinas de lixo da América Latina e estavam pouco se fodendo se essa mesma usina empestava de doenças o nosso ar, se poluía ou não os nossos pequenos rios.

Eles nos extorquiram o verde, a pureza, a delicadeza e nos lançaram numa vida de penosos trabalhos, um mundo de medíocres preocupações domésticas, de fobias urbanas, de humilhações raciais, de terror, tiro, sangue e noticiário policial. E, apesar de tudo, continuam a especular, a pedir votos, a especular. Ah, a especulação imobiliária cresce como um monstro sobre o cerrado e o que fazemos? Indústrias, comércio, edifícios – “um show de morar!” – bradam orgulhosos os empreiteiros!  E a corja de grileiros expropria impunemente o verde e ergue sobre ele sua riqueza, sua arrogância predatória, destruidora, insensível.

Sentado naquela Pedra, com meus amigos, tendo aquela paisagem deslumbrante do cerrado a minha frente, eu pensava, revoltado eu pensava, eu pensava numa infância que poderia ter sido mais verde se não fora a sombria maldade dos homens!

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