Arquivo do mês: outubro 2011

Bom dia

(créditos da imagem: http://miseriahq.blogspot.com/)

Natanael é um homem imundo que mora na esquina e fede a ser humano. Sua maior posse é um saco plástico e sua conta bancária, metade de uma garrafa pet. A copa de uma pata de vaca transformou-se em seu teto há cerca de uma semana atrás. Sua aparência é composta por olhos vidrados e filosoficamente cansados, roupas esfarrapadamente marrons e pele tingida da negritude do pó de asfalto levantado pelos carros importados que passam na frente da residência de Natanael. Homem de sorte! Área nobre da cidade e ainda por cima, não paga IPTU. A cada dia, ele aumenta um pouco sua casa, se deslocando mais para frente na calçada. As pessoas se irritam, porque precisam aumentar seu grau de desvio ante o incômodo. Pois além da sujeira na praça, das palavras toscamente balbuciadas e da poluição visual no bem cuidado bem municipal, Natanael ainda tem a audácia de incomodar os narizes chanelentos dos transeuntes com seu cheiro fétido. Audácia! Pois amanhã, tomarei um resolução ao passar por Natanael, visando o bem comum. Vou lhe servir chá inglês em porcelana made in china. Conversaremos sobre a bolsa, o caos do sistema financeiro mundial e como isso afeta nossa vida de consumo essencial e outras coisas estupidamente importantes para o bem andar social. Assim, Natanael poderá ser elevado à categoria de ser humano e essas pessoas victor huganas não poderão mais desprezá-lo. Ou não mais ignorá-lo. Ele deixará de ser um mendigo e será um mendigo que, graças ao bom deus do capital, entenderá da moda de valentino. E quem sabe logo, transformará sua podridão visual na próxima tendência de Paris.

Marina Costa

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Minha entrevista com Aldo Rebelo

– Boa tarde, ministro Rabelo.
– Rebelo.
– …
– Rabelo é o outro.
– Ministro, por que escolheram justamente o senhor para a pasta do Esporte?
– Bem, começa que eu sou palmeirense.
– Já está em atrito com o governo.
– Mas eu não tenho que mudar minha posição pessoal. E em todo caso, sigo o governo.
– Falávamos dos motivos para a sua escolha.
– Para mim, futebol e política andam juntos. Eu até escrevi “O Jogo Vermelho”.
– Não li. É um manifesto comunista?
– Fala sobre um Palmeiras e Corinthians que arrecadou dinheiro para o Partido Comunista.
– Pra quê?
– Queriam financiar algumas campanhas políticas.
– A Veja sabe disso?
– …
– Quais serão suas prioridades nos preparativos para a Copa do Mundo?
– O campo.
– O campo?
– A sociedade não pode virar as costas para o campo. Nossa música vem do campo, nossa culinária vem do campo. E a nossa agricultura, naturalmente.
– Entendi. O futebol vem do campo também.
– Sem campo ninguém joga bola.
– E o que pretende fazer pela qualidade do campo nessa Copa?
– Bem, eu acho que não devemos proibir o cultivo neles.
– Cultivo no campo?
– Como é que vamos proibir a agricultura em várzea? É algo que existe no mundo inteiro.
– Os campos serão de várzea?
– Há 2 mil anos se planta arroz em várzeas da China e da Índia. Nunca reclamaram, e continuam plantando até hoje.
– Mas eles não jogavam futebol nessa época.
– Temos que ter cuidados, mas você não pode proibir o uso dessas áreas.
– Não dá pra fazer isso em outro tipo de várzea?
– Se o conceito de várzea mudar, todos os produtores passarão à ilegalidade.
– Bom. Mas o senhor deve saber que a Fifa não permite isso.
– As regras do futebol são muito rigorosas. Deixa que o Ministério Público cuida disso.
– Mas o senhor tem certeza de que isso não vai atrapalhar as partidas?
– O que está em jogo não é apenas futebol. Estamos falando de como o Brasil dispõe do seu solo. Não podemos deixá-lo na mão dos interesses de grandes países que virão jogar aqui.
– E quanto aos convênios com as ONGs? Foi isso que derrubou o Orlando Silva.
– As ONGs agem a favor de interesses estrangeiros. Querem ditar regras aqui no Brasil.
– E o que elas querem?
– Impedir o nosso sucesso no campo.
– Argentinos, talvez?
– Americanos e europeus. Foram elas que quebraram o campo africano.
– Na última Copa?
– Não podemos deixar que façam o mesmo aqui.
– Pra terminar, ministro, o que pretende fazer com os estádios após a Copa?
– Quem preservou, terá benefícios. Quem não preservou mas já estava construindo no tempo em que eu não era ministro, será anistiado.
– Entendi. Obrigado, ministro. Digo, ainda é ministro, não?

Henrique Fendrich


Lembrança



Mesmo no nervosismo que foi a coisa toda, Antônio cuidou para que o tiro atingisse o coração. Ele não se perdoaria se estragasse o rosto de Helena. E agora ela jazia ao seu lado no carro, presa pelo cinto e coberta com a jaqueta jeans preta dele.

Não era caso de terminar, ele insistiu o quanto pôde. Ele podia sempre largar a mulher. Que não era ruim, era verdade. Ainda nova, a Marlene, estudada também. Mãe dos filhos dele e tal. Aquela história toda.

E Helena não tinha mais o que fazer com aquele maridinho. Que nem marido era. Tinham começado a dividir apartamento pra economizar pra faculdade e passaram a dividir também a cama numa noite dessas, ela contou a ele uma vez. O sujeito cursava contabilidade, ia ser um nada a vida toda. Ela merecia mais. Como ele, professor universitário, advogado. Juiz um dia.

Ele seguia dirigindo meio sem rumo, à procura de um lugar onde pudesse parar por alguns instantes, ou até algumas horas sem chamar a atenção.  Seria seu últimos momento. Iria se entregar, estava decidido.

Só que antes ele precisava fazer uma coisa. Pela última vez. E por culpa da Helena. Culpa dela.

Desligou o motor sob uma árvore em uma rua só com terrenos à venda. Antônio virou delicadamente o rosto dela pra si. E olhou. Fechou os olhos e tentou lembrar. Dos olhos, do cabelo teimando em cair sobre eles.

Quis voltar a ver. Afastou os fios, apenas para vê-los caírem outra vez. A pele morena. Os lábios ainda úmidos de sal.  De uma lágrima que ele não viu.

Aline Viana


A Mulher Magra

Estávamos em grupo e quando isso me acontece acabo sozinha. Não porque não me dêem atenção, mas porque me vendo sem a obrigação de dar atenção a alguém eu me ensimesmo. E assim, naquele sobe e desce de Olinda, estávamos nós, o casal hospedeiro, o casal filho do casal hospedeiro e sua menininha, e os hospedados, o cientista francês e eu. Ajudava o fato de estarem falando em inglês e eu, embora compreenda alguma coisa, como dei a perceber algumas vezes por comentários em português, me mantinha calada a maior parte do tempo. Eu não falo inglês. 

 Eu a vi a primeira vez quando estávamos junto a um pátio onde comíamos tapiocas, eu a minha moda, com bastante coco ralado e leite condensado. O pátio era ladeado por pequenas lojas de artesanato e penso que me disseram que ali fora um dia o local onde se vendiam os escravos. Mas essa informação passou raspando por mim porque eu tinha acabado de vê-la. A mulher magra.

A mulher era tão magra que parecia um picolé redondo. Um picolé de caramelo porque tinha na pele o queimado do sol. Usava uma saia quase batendo no tornozelo, estampada em tons da própria cor de sua pele. E a blusa, uma blusinha seca, cava seca, decote seco, tinha a mesma cor. E o cabelo também. Muito curto. Ela estava por ali conversando com outros folgados na vida em voz bem alta, mas não consegui apreender o que ela falava. O grupo de meus amigos começou a dispersão e eu os segui, mas não sem antes pegar outra tapioca que eu já tinha engolido bem antes de chegar à esquina. Virando continuamente minha cabeça para continuar a ver a mulher magra até que ela simplesmente desapareceu do meu foco visual.

A partir daí ela surgia em todos os lugares aonde íamos. Na sorveteria, onde ela pegou em meu braço, causando um susto tão grande quando a vi, cara a cara, que meu sorvete caiu no chão. O dono da sorveteria com um rápido vai andando a expulsou do estabelecimento e eu comprei outro sorvete. Ela se dirigiu para a pracinha em frente e eu fui me afastando aos poucos, olhando para ela. E ela para mim. Aonde íamos, ela aparecia do nada. E quando aparecia eu ficava tão angustiada que buscava correndo algo para comer. Mal eu a via a fome surgia. Uma estranha fome. Minha boca secava, meu estômago apertava e eu corria em busca de alimento o que começou a causar espanto em meus companheiros. Comi panquecas. Novas tapiocas. Doces que ia encontrando em barraquinhas. Era uma coisa de louco. A certa altura, lá no alto da cidade, eu de repente dei um grito que espantou a todos. Eu tive uma visão que logo desapareceu, mas eu não podia contar aos meus amigos. Falei, ainda trêmula, que me assustara com uma ave, um urubu talvez. Mas não foi isso. Eu a vi ao longe, pairando no ar, tão magra quanto um mastro de navio. Quem iria acreditar se nem eu mesmo acreditava. Lembrei de uma visão que tive quando era menina, quanto caminhando pela linha do trem que margeava um campo de futebol, vi, caminhando do outro lado, uma girafa. E o mais espantoso é que quanto mais a girafa andava mais o seu pescoço crescia. Magro, magro, como a mulher magra. É claro, ninguém acreditou em mim quando contei, nem mesmo a minha avó que vivia me contando histórias fantásticas. Bastante encabulada eu aceitei a sugestão de voltar para Recife, afinal já anoitecia. Voltamos os quatro, eu, o cientista francês e meus amigos. O filho de meus amigos, sua mulher e a filhinha deles ficaram. No carro eu fui atrás com minha amiga, ela me contanto histórias e na frente os cientistas, o francês e o pernambucano. Eu me esforçava para prestar atenção na conversa dos dois, em inglês, e entabulava também uma conversa com minha amiga. Eu não queria deixar a minha mente vagar, mas não conseguia tirar da minha cabeça a imagem daquele varapau. Ora eu olhava para os lados e lá estava ela, correndo junto com o carro. Ora era parava em frente do carro e eu tinha que segurar meu grito de susto. Em certo momento percebi que o cientista francês nos convidava para encerrar a noite em um bar perto de seu Hotel e também da casa de meus amigos. Todos concordamos, eu em português é claro e me distraí de tal forma que aquela imagem saiu logo de minha cabeça. Já no bar, a coisa mudou de figura porque ela ficou do lado de fora da varanda em que estávamos olhando para mim com uma cara de fome tão grande que me levou a começar a comer de uma forma avassaladora. Escondidinho de carne seca. Caldo de aipim. Bolinho de bacalhau. E eu não parava mais. Comia e bebia caipirinha acompanhando o cientista francês. Só na bebida é claro porque eles já haviam parado de beber fazia tempo. Mas bastava eu olhar para fora e ver a mulher magra que eu pedia mais alguma coisa. Até que ela olhou para mim, deu uma banana e se virando caminhou em direção ao mar. E enquanto caminhava ela ia crescendo cada vez mais até virar uma sombra. Foi aí que eu, geralmente calada, comecei a falar feito uma maritaca. Em inglês. E eu nem percebi. De repente, após um tempo bem razoável, minha amiga rindo, me perguntou: Pia, porque você ficou a semana inteira calada e agora fala inglês como se soubesse. E bem? Eu não soube responder porque não entendi a pergunta. Pedi a ela que a refizesse, em inglês. Foi aí que ela se assustou e resolveu me levar para casa. Fomos caminhando pela orla e, por Deus, eu não conseguia nem ao menos pensar em português. E quando acordei no outro dia, o sol batendo em minha cara, acordei  pensando em inglês. Só depois que tomei um bom banho as coisas voltaram ao normal. Graças a Deus.

  Maria Olímpia Alves de Melo


Lambada

Créditos da imagem: Juliana Andrade, MG – http://bambue.com.br/2010/11/duda/#more-337

Molhada e meio áspera, a menininha sardenta levou uma lambida do menino atrevido, bem na bochecha direita. Ficou estática. Que absurdo, pensou ela. Que engraçado, ele disse. Que audácia, ela sussurrou. Me dá um beijo, ele pediu . Daí ela ficou vermelhinha, como a rosa que ganhou e largou no chão, quando se pôs a correr pelo pátio. Ele a recolheu e soprou o pó. Havia visto uma loirinha saindo da cantina e logo pensou outra vez na sensação engraçada de refrigerante no nariz…

Marina Costa

UNIVERSOS PARALELOS

UNIVERSOS PARALELOS

Você acredita em universos paralelos? Pois vou lhe contar uma coisa: digam o que disserem de Hermann Hesse, foi seu personagem Emil Sinclair, protagonista de “Demian”, ao descobrir a existência de um mundo incerto e sombrio adjacente ao seguro e luminoso universo da casa paterna, que me proporcionou, na juventude, uma inesquecível percepção das diversas dimensões da realidade.
Mais tarde percebi que as histórias contadas na infância antecipavam simbolicamente as lições de Bachelard sobre a ambigüidade do real: a casa de Joãozinho e Maria ficava na clareira da floresta habitada pela bruxa e seus monstros; no mito bíblico de Adão e Eva, uma simples maçã figurava o ponto de interseção entre o paraíso e o vale de lágrimas; o mito do Minotauro e “O médico e o monstro” de Wilde eram metáforas das diferentes forças que constituem um mesmo ser.
Tempos depois, a leitura de Borges revelou-me “O Aleph”: na mínima fenda em uma escada de porão, o portal para a totalidade do universo – “um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos”. Depois de Borges, o realismo fantástico predominou na literatura latino-americana: nas narrativas de autores como García Márquez (quem não viveu ao menos um de “Cem anos de solidão”?), Julio Cortázar (quem não pulou entre inferno e céu no “Jogo da amarelinha”?) e Murilo Rubião (quem não habitou “A casa do girassol vermelho”?) as dimensões do real e do imaginário se misturam ou se separam por tênues fronteiras. Mesmo na ficção de Vargas Llosa, que abre mão do fantástico em favor do realismo, entramos no jogo dos universos paralelos: em “Conversa na Catedral”, o perdido cãozinho de estimação da esposa figura o portal que conduz o protagonista do espaço burguês alienado ao mundo de horrores da ditadura. Acabo de ler “A hora azul” (Editora Objetiva), romance em que Alonso Cueto, na linha realista de Llosa, cria conexões entre mundos separados: um pedido enigmático do pai agonizante e um bilhete encontrado num baú após a morte da mãe abrem a fresta através da qual o universo elitista em que vive o protagonista é invadido pelo submundo onde vivem os pobres, os humilhados, os ofendidos, as vítimas da guerra entre o exército peruano e os rebeldes do Sendero Luminoso.
Quando, na infância, li a fábula de Esopo, não podia pensar que a raposa e as uvas representassem universos que procuramos ligar, preenchendo o vazio com nossas histórias e com todo nosso engenho e arte.
(Afonso Guerra-Baião)


O corcunda

Nada como a crônica para despejar nossos traumas infantis. Rubem Braga escreve sobre o vexame que passou por conta de uma redação escolar. Carlos Heitor Cony cita os episódios decorrentes da sua gagueira. Nelson Rodrigues revela a inveja que sentia dos colegas que tinham pão com ovo como merenda. E até mesmo Clarice Lispector tinha do que se queixar, pois relata episódios marcantes da infância que passou no Recife. Pois bem. A coisa não seria diferente comigo. Também tenho cá os meus traumas – ou, pelo menos, a lembrança deles. E como está na moda declarar-se vítima de bullying, também eu quero fazer o meu protesto, na esperança de que no futuro isso possa me trazer manifestações de solidariedade, ou mesmo perdão, diante de algum erro que venha a cometer.

Meu caso é mais um, é banal – diz o filósofo. Mas preste atenção por favor. Tenho um problema na coluna, que não sei o nome e, honestamente, não me interessa saber – tenho, pois, o problema. É algo que me faz andar mais curvado do que a maioria das pessoas. Não é apenas cifose ou lordose, mas uma mistura dos dois, somada a mais alguma outra coisa. Enfim. Na escola, uma pinta logo vira um caroço, e daí se imagine o que não seria uma pessoa mais ou menos curvada: logo virei o corcunda da escola.

Contribuiu para isso a péssima ideia da Disney em produzir um desenho sobre Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame. Crianças que, até então, jamais souberam o que era um corcunda, passaram então a tomar conhecimento e identificar no personagem características que, reparando bem, já haviam visto em mim. Trataram então de exagerá-las.

E então, sempre que a situação permitia, chamavam-me de corcunda. Eu não podia nem mesmo me vingar arrumando apelidos para as outras crianças, e por dois motivos: primeiro que, por mais horríveis que fossem os apelidos, dificilmente pareceriam tão acertados quanto o meu. E segundo que eu não era mal o bastante para fazer isso. Talvez eu até reclamasse e retrucasse algo quando me chamavam disso, não lembro bem. Na maioria das vezes, no entanto, devia ficar calado. Também não digo que fosse chamado dessa maneira o tempo todo – apenas o suficiente para destruir minha auto-estima. Em geral, era usado como argumento contra mim. Fizesse alguma coisa que desagradasse, recebia como resposta a lembrança da minha condição na época: corcunda de Notre Dame.

Com o tempo, o apelido foi rareando, e isso se explica pelo próprio crescimento das crianças – aos poucos, elas vão aprendendo melhor a dissimular, e não contar o que pensam realmente umas das outras. Aprendem isso com os adultos. E, como eles, deixam para falar mal e criar apelidos apenas na ausência das pessoas. É apenas por isso que não existe bullying entre as pessoas crescidas. Talvez eu ainda sofra hoje reflexos da sinceridade daquele tempo, embora eu não guarde nenhuma espécie de mágoa. Ou seja, não tenho motivos para me vingar. Em geral, essas crianças se vingam nelas mesmas. E o fato de virar um escritor introvertido não é prova de outra coisa.

Henrique Fendrich