Arquivo do mês: setembro 2011

Lia Gógol na fila do posto de saúde

Voltemos dois anos. Minha garganta está incomodando. Começou com uma gripe, uma gripe forte, mas depois a gripe se foi e a dor de garganta continuou. Não é bem dor. Incômodo mesmo. Estou com o bichinho do ramram. E tossindo mais do que o normal. Às vezes minha voz sai falhada. Pois eu vou ao médico então. Ver do que se trata isso. Se eu tivesse um plano de saúde, iria procurar um médico especialista. Um otorrino, um desses aí. Mas lá em casa não temos nenhum plano e nem dinheiro para consultas particulares. Por sorte, há um posto de saúde lá perto. Mas sabe como é posto de saúde, né. Tem que madrugar pra conseguir ser atendido, às vezes mal atendido. Decido enfrentar.

Descobri que o posto de saúde começa a atender às 8h. O horário é bom. Os funcionários podem dormir até lá pelas 7h, se morarem perto. O cidadão de bem que quiser ser atendido, no entanto, deve acordar por volta das 5h. É isso que eu faço. Acabei de acordar e tomo um café apressado. Vou ter que esperar muito tempo, então decido pegar alguma coisa para ler. Eu gosto de ler, e de vez em quando tenho uns acessos, que me fazem ler mais do que o normal. Estou numa dessas fases. Descobri há pouco uma biblioteca na cidade. Comecei a ler autores que nunca havia lido. Ando interessado nessa coisa de literatura russa. Dostoievski, esses caras. O último que peguei foi um tal de Gógol. Nikolai Vassílievitch Gógol. Ô nominho. Taras Bulba, o livro que peguei. Comecei a ler há uns dois dias. Até que estou gostando. Às vezes me atrapalho um pouco na leitura. Mas estou gostando. Vou levar pra ler lá na fila do posto. Tenho mais de duas horas pra ler.

O pior é que eu acordo tão cedo e não sou o primeiro a chegar. Já tem duas mulheres lá. Impressionante. O clínico-geral atende 15 pessoas por dias. É uma mulher, aliás. Mas dessas 15, são 6 consultas agendadas para os idosos. Sobram 9. Eu fui o terceiro, então estou tranquilo. Vou ser atendido hoje mesmo. Está um pouco frio aqui fora. É um banco. As pessoas chegam e vão sentando conforme a ordem de chegada. Está muito escuro ainda. Vou ver o dia amanhecer. Bom. Então vamos ler. Taras Bulba. Esses russos são meio estranhos. Parece que vivem num mundo à parte. Que história a desse livro! Fisicamente, eu estou ali, sentado no banco de um posto de saúde, antes do sol nascer. Mas, na verdade, eu estou no meio de uma terrível guerra. Coisa de cossacos ucranianos contra os polacos. Está tenso o negócio. Agora há pouco entrou uma mulher na história. Uma polaca. O filho do Taras Bulba gosta dela. É sempre a mesma coisa, isso de gostar do inimigo. Chegou também uma mulher ao meu lado no banco. Trouxe uma criança. O pediatra também atende aqui. Ou seja, essa mulher não conta entre os 9. Pra pediatra, tem uma contagem própria. Nenhuma consulta agendada, imagino. Aí ela senta do meu lado. E eu continuo lendo. As mulheres conversam. Atrapalham a minha leitura, na verdade.

Às vezes eu paro de ler. Fico olhando o dia nascer. Ou ouvindo as mulheres mesmo. E lembro de Isadora. Fico pensando em Isadora. A gente está numa fase terrível. Desejos a flor da pele. E eu penso bobagem ali também. Na fila do posto de saúde. Leio Gógol, ouço as mulheres e penso em fazer bobagens com Isadora. Terrível. A fila só aumenta, e já não cabe no banco. Devia ter um banco maior. É engraçado a gente pedir um banco maior. Devia pedir é para não estar ali desde a madrugada. O dia já nasceu, e eu já não consigo ler nada. Vem então uma mulher. Nos cumprimenta, nós que estamos no começo da fila. Abre a porta. O posto de saúde está finalmente aberto. Entramos.

Henrique Fendrich


O Mistério das rosas

 

 

Haviam duas flores em cima daquela mesa. Ambas adornadas com um laço cor salmão, dentro de um copo transparente. Para ser mais exato, eram duas rosas. Uma vermelha, a tradicional, e uma branca, difícil de encontrar por aí. Soberanas, pareciam donas daquela sala. E acredito que, de fato, eram.

Tal embasamento não é à toa. Parecia haver algo que as ligava, como se fossem irmãs. Havia algo de mágico, de místico, pois é sabido que as rosas são detentoras de poderes, como se emanescesse uma luz tão forte capaz de nos transportar para outro plano, bem distante.

No dia seguinte, retornei àquela sala e lá estavam as duas rosas, intactas, exatamente como no dia anterior. É possível esquecer a chave do carro, a carteira, a caneta… mas não dá pra esquecer as rosas. Rosas são inesquecíveis.

O laço em seus caules denunciava o destino. Alguém as receberiam como presente. Declaração ou prova de amor, pedido de perdão ou casamento… E qual a finalidade para a distinção de suas cores? Tão incomum… talvez daí surja a resposta. Fora dos parâmetros considerados normais, distante do fácil, do óbvio. Admito ter ido umas oito vezes naquela sala, a fim de averiguar a permanência daquelas rosas. E nada mudava. Não é possível não possuirem dona! Mesmo com tanto esquecimento, não perdiam seu brilho. Permaneciam com aquela cor tão viva… eram capazes de cumprir suas funções em fração de segundos. Reconciliar, perdoar, apaixonar… qual fosse. Cartola que me perdoe, mas aquelas duas rosas, com toda a certeza, falavam.

No dia seguinte, logo pela manhã, minha função de detetive havia terminado, porém, sem lograr êxito. As rosas não estavam mais naquele copo, nem sobre aquela mesa. Mas como pode?
Depois de dois dias em uma quase vigília, tudo terminaria assim? E mais, as rosas foram retiradas de lá na madrugada, pois fui o último a deixar aquela sala na noite anterior, e o primeiro a entrar nesta manhã. Teriam sido roubadas?

Não teve jeito. O copo foi retirado da mesa, e o trabalho continuou normalmente. Mas o perfume parecia não ter ido, o que me obrigava a pensar no destino daquelas duas flores.

Mas há quem diga que as rosas, por serem sozinhas e solitárias no caule, estão sempre em busca de companhia. Como se usassem de todos os artificios que possuem para nos cativar, daí explica-se o fascínio que nos causam. E quando rejeitadas, não costumam secar, ao contrario, enchem-se de energia para buscar quem as queira.

Mas tudo não passa de história, né não?


Que rock é este?

“Eu sou do rock, bebê”, disse a atriz Christiane Torloni lá pelas tantas da noite de sábado à uma inexperiente repórter, no Rock in Rio. No domingo, era a Susana Vieira se declarando roqueira e a Ana Maria Braga também, fazendo o clássico símbolo com os dedinhos. E dias antes ainda teve a Carla Bruni que disse que se casar com o presidente francês foi a atitude mais rock-and-roll que teve na vida. Mais que dormir com o Eric Clapton e na sequência com o Mick Jagger. Mais que subir no palco e tocar para milhares de pessoas. Ser do rock é casar com o rei? Choquei.

O rock mudou, só pode. O rock já foi um ritmo contestador de costumes, de valores, de crenças. Ser do rock significava não abraçar o senso comum. E isso valeu para tanto pro Elvis, com seu rebolado pré-axé, quanto para o Metallica.

Hoje é difícil imaginar essas senhoras como sendo do rock. Com exceção da Susana Vieira, que viveu sempre como quis, dando agora pra pegar menores de 25 anos e deixando emperrado o botão do “foda-se”. Não consta que ela tenha qualquer intenção de consertá-lo. Talvez seja possível admitir a Ana Maria na lista se dermos pontos extras por aquele cabelo dela.

Fica difícil considerar parte do rock ícones pop como Restart, NxZero, Fiuk e similares. Eles não trazem leveza a um mundo cinzento, caso dos Beatles, para ficarmos em uma banda que não viveu só de tocar fogo no picadeiro. Fazem canções que apenas repetem clichês de adolescência.

Não questionam nada, nem o pé na bunda que entoam. Não chutam nem cachorro morto, como o Capital Inicial que dedicou “Que país é este?”, hino da Legião Urbana, ao senador José Sarney.  Bezerra da Silva era mais rock.  Até Bruno e Marrone são mais rock.

Pior é que la Torloni realmente é do rock, para além da regata preta e da mini-saia de couro. Militou pelas Diretas Já; meteu o dedo, metaforicamente, na cara do Lula, classificando seu governo como “quadrilha”;  e luta pelos direitos das mulheres vítimas de violência. Acabou marcada essa semana por ter tomado um pilequinho. Vá lá, do jeito que estamos, até pileque é rock-and-roll.

Aline Viana


Reflexão não muito santa e feita antes de acordar de vez

Resolvi ser santa, mas como não posso ser santa porque não sou católica e a santidade é um privilégio da Igreja Católica, resolvi também criar uma Igreja onde eu pudesse ser o que quisesse. Já tenho até o nome escolhido  –Igreja do Fragmento Divino e a única fiel serei eu. Sendo criadora e única fiel de minha Igreja, poderei fazer dela o que quiser, inclusive acabar com ela no momento em que eu decidir e estabelecer as regras que eu quiser.  A primeira regra é que as regras serão flexíveis e acompanharão a evolução do Fragmento Divino, que também sou eu. Portanto as regras serão mutáveis e acompanharão o desenvolvimento do Fragmento em busca do Todo que é algo demorado pra chuchu, em um vai e vem que até parece sem sentido, mas que no fundo sentido tem. Minha Igreja é muito especial porque não cultiva o pecado e além do mais se baseia em uma única premissa que eu trouxe de priscas eras – ame o próximo como a você mesma, não importando onde ele esteja, mas dando preferência ao que estiver mais próximo do toque de seus dedos, seja um toque nele mesmo ou nas teclas de um computador on line.

Maria Olímpia Alves de Melo

(Imagem Google)


Recalque

Luana assistia a aula de anatomia muito atenta quando sua cabeça desancaixou do pescoço, caiu do colo para o chão e rolou até os pés do professor, que se calou. Os colegas, despertados pelo barulho oco, olharam sorumbáticos e o defunto, antes imóvel como um cadáver, ergueu os braços espantado. Muito vermelha, ela levantou-se cautelosamente, levou a mão ao rabo de cavalo e colocou, firme e protegida, a cabeça em baixo do braço. Saiu da sala para não mais atrapalhar a classe. De qualquer forma, há muito já tinha os pensamentos na lua.

Marina Costa


Arqueografia

ARQUEOGRAFIA

no jardim desse silêncio cintila
a ave do paraíso
ela me dá a graça de uma pena
a de cor mais fugaz
para vazar dos olhos a miragem
do corpo luminoso
nesse horto
à beira do poço da água viva
eu componho na pauta da treva
e na clave do vento
a voz em canto
que alguma concha guardará no mudo e mouco
sorvedouro
onde encontra-se o tesouro
perdido como o rosto
que me sonha no jardim desse silêncio

Afonso Guerra-Baião


Brasília-Maceió

Eu estava frustrado, porque havia saído para ir ao mercado e esqueci o dinheiro em casa. Esse simples incidente, tão banal, foi capaz de me perturbar de tal maneira que, a partir dele, comecei a questionar toda a minha vida até então. E nesse estado lastimável eu voltava para casa, quando de repente recebo uma mensagem de celular. Esse hotel é longe de tudo. Estou com fome e a rua é escura é deserta. Era uma mensagem de quando você estava em Maceió, passando férias sozinha. E eu sabia que você não era de reclamar, especialmente quando não havia nada que eu, aqui de Brasília, pudesse fazer por você. Sem dúvida estava insuportavelmente sozinha. E eu me enchi de compaixão por você, e desejei dar um conselho muito acertado, alguma coisa que você, quando lesse, pensasse consigo mesma “como é que não pensei nisso antes?”, e então agradecesse e fosse comer. Mas eu não sou tão criativo e nem tenho tanta experiência de vida assim. E então apenas perguntei se não havia alguma coisa que pudesse conseguir no próprio hotel.

Você disse que havia uma placa dizendo que não, não havia. Mas viu gente comendo lá embaixo, e cogitou ir até lá para ver. Eu incentivei a sua descida, feliz por ter surgido uma possibilidade de resolver o problema. E acrescentei alguma piada, apenas para que você não ficasse triste. E você provavelmente desceu até lá, mas eu não soube se conseguiu encontrar comida ou não. Você deve ter achado que já estava abusando da minha paciência, e então alegou que também já estava com sono, e a gente se despediu.

Talvez eu pudesse me gabar de ter, aqui de Brasília, contribuído para que você tomasse uma decisão em Maceió. Mas não penso em nada disso. Estou comovido com o seu problema e – confesso – um pouco contente por tê-lo confiado a mim. Nós já tivemos muitas brigas, e eu já exigi muita coisa de você, mas hoje somos capazes de mandar mensagens um ao outro quando não há ninguém mais a quem mandar.

Ah, é melhor eu parar de escrever. Sinto que daqui a pouco direi que te amo.

Henrique Fendrich