Vida, curiosa vida!

Às vezes me desconcertam certas coisas da vida. No caso, me refiro às certas coincidências que, por vezes, parecem tudo, menos coincidência. É curioso.

Dia desses lá estava eu, triste como uma besta, no ônibus, indo pra Universidade. Pensava, por alguma razão, na crise econômica que hoje afeta os Estados Unidos. Enquanto o ônibus balançava, ia pensando na arrogância histórica dos norte-americanos, na sua relação desleal com os outros povos. Com certa aflição, fiquei como que antevendo uma reação agressiva dos ianques, como um cão que teme perder o osso, depois de tê-lo durante tanto tempo bem preso aos dentes. Acontece que na mesma hora irrompe pela porta e passa pela roleta um sujeito, caboclo, moreno como eu, trajando uma camiseta estampada com um enorme desenho da bandeira norte-americana e uma águia – um dos símbolos característicos desse orgulho americano. Não pude ter outra reação além do espanto e da sóbria constatação de que ainda somos, os brasileiros, um povo colonizado.

Outro dia, isso deve passar de um ano, estava no carro com um amigo – o Raulzim – e filosofávamos sobre o que seria a “felicidade”. O som do carro estava sintonizado numa rádio de músicas nacionais. Num determinado momento, comecei a lhe falar de uma música do Vinícius que muito aprecio, o Samba da Bênção, em que o poeta versa sobre a felicidade. Cuidei de recitar alguns versos da música ao qual ele ouvia com atenção. Nessa mesma hora, o locutor da rádio anuncia “Samba da Bênção, Vinícius de Moraes e Baden Powell” e a música – para nosso espanto – começa a ser tocada na rádio.

Nunca li um livro sequer do psiquiatra Carl Jung – mas foi exatamente ele quem classificou essa série de acontecimentos como “sincronicidades”.

No dia 16 de agosto – numa terça-feira – tirei uma tarde para visitar pela primeira vez, desde quando foi fundado, o Beijódromo – Memorial Darcy Ribeiro, no campus da Universidade de Brasília. Chegando lá, passeio pela galeria onde se encontram documentos, diários, imagens, e penetro no universo que o antropólogo Darcy nos legou. Sua profunda contribuição nos estudos etnográficos, o indígena muitas vezes no centro de suas preocupações, seu amor por esse povo ultrajado pela brutalidade do colonizador. Aos poucos vou desvelando seu universo e me sentido parte dele. Afinal, lá nas minhas origens, sei que também sou índio.

 Lembro que minha avó Júlia é neta direta de indígenas – isso explicaria, talvez, sua mediunidade. Mas acontece que, no mesmo dia, sou informado, por amigos na internet, que as construtoras Brasal, Emplavi e Terracap, com apoio da Polícia Militar, estavam invadindo as terras reservada aos índios Fulni-ô Tapuya, onde fica o Santuário dos Pajés na região. Além do apoio da Polícia Militar, as empreiteiras chegaram, segundo o Pajé Santxiê Tapuya, com nove tratores, derrubando árvores como o araçá, o pequi, a macaúba e o pé de jatobá.

Mais uma vez sou tomado pelo espanto de uma improvável coincidência, pensando abestalhado o qual essa nossa vida é curiosa!

***

Alex Canuto de Melo

Um comentário em “Vida, curiosa vida!

  1. Meu nobre Dom Canuto, tu é moreno? Pois olha que morei contigo e nunca percebi! husahsauhsau. Bem, a única teoria que dá conta de explicar as coincidências é a física quântica (aqui estou eu citando ela em mais um comentário). A física quântica explica uma proximidade de números, sons e palavras, que se atraem e se aproximam, através das energias que emitimos, formando as coincidências

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