O barqueiro

E eu que tantas vezes naveguei nesse mundão de meu Deus à deriva de tudo e de todos, tantos rios por onde me enveredei, tantos rios por onde tive que me perder para finalmente me encontrar e me perder de novo, sem rumo, sem norte, sem o sête-estrelo, sem as três-marias! Cabra ariado vivo por aí, entregue a esses rios…

Ah mais cê veja, eu aqui mais uma vez, nesse agosto, na beira dum outro rio, com pelos a me saltar do rosto como alegres peixes vadios, descansando firme, recém-chegado duma pelejada, cumprida, tortuosa viagem de deixar qualquer homem mais forte!

Meu destino é navegar assim, não como quem procura vida para além das veredas, mas como quem procura vida no labor necessário do velejar. Isso carece. Disso preciso. Assim vou extraindo com meu pequeno barco e meu remo algumas pequenas verdades, algumas humildes verdades do rio – verdade minha, verdade pequena – isso falo – nada grave, nada demais. Assim aprendo com os ventos, com as águas, com o tempo, sua música, essa música que os homens de cabeça seca ignoram, e toco meu barco pra frente, sem pressa! Assim… devagar.

E por mais que algumas vezes eu me canse nessa peleja de velejar, essa peleja que tantas vezes parece desnecessária, sem porque nem pra quê, há sempre uma voz que me clama: “Rema!”. E uma nova descoberta, uma nova margem inesperada me salta sobre os olhos cansados e me encanta, renova tudo, me dá fôlego novo, alento, outro tamanho de mim no mundo! E eu começo tudo do começo de novo como se fosse um menino que acabou de rebentar, aos berros, doido pra se encharcar de mundo! Assim: desaprendendo e aprendendo, tropeçando e se erguendo de novo, sem saber até quando, mas é assim, é sempre assim…

Aqui me vou, remando na companhia doutros barqueiros ou sozinho, remando, tocando rumo lá pra onde de tão longe os olhos não divisam mais. Pois – por alguma razão maior – não me é dado saber o que me aguarda do outro lado do rio. Se o mar, se o derradeiro encontro com a morte, se uma mulher, um bem-me-quer, um mal-me-quer… Não me cabe saber o que me aguarda do outro lado do rio. Não me cabe, seu moço, não me cabe.

Sabe lá Deus o que me aguarda do outro lado! Basta-me cruzá-lo, ouvir em mim essa música que me vem de não-sei-de-onde: “Rema! Rema! Rema!…”. E aprender, humildemente aprender a misteriosa melodia destas águas e partir sem medo pro indefinido, quem sabe pro espanto necessário duma outra margem…

***

Alex Canuto de Melo

5 comentários em “O barqueiro

  1. Linda demais essa. Acho os homens do mar figuras cheias de encanto. A leitura me fez lembrar, de forma incidental, coisas de Guimarães Rosa a Hemingway. Meu cérebro gosta de velejar também.

  2. Gostei da moral da história: não tem como parar de remar!! Levanta a cabeça e vamos enfrentar o que está na outra margem… É bonito falar mas dá um aperto danado na hora de ir!! Belo, belo, belo!!

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