Arquivo do mês: agosto 2011

O Brasil vai salvar o mundo, de novo

Sempre ouvi dizer que o quê diferencia os homens dos animais é a consciência. Da morte, principalmente. Ou de si mesmo, habilidade cada vez mais escassa no mercado de todas as espécies. Foi pelo jornal que soube do meu fim iminente. Diz a ONU (Organização das Nações Unidas) que as mulheres estão entrando em extinção. Eis que, imediatamente, estou no mesmo balaio da arara-azul, do mico-leão-dourado e das moedas fortes.

O fenômeno é biológico, as mulheres estariam dando a luz cada vez mais a meninos do que meninas. Leitor que duvida da estatística, informo que o tema foi abordado até pela revista dos economistas de Londres, como diria o Lula. Não tem essa de 50% para cada um, hoje de cada mil crianças nascidas em Hong Kong, 547 são meninas, mas com as taxas atuais, essas 547 mulheres dariam a luz a 299 crianças do sexo feminino. Em 25 anos, o déficit vai ser maior do que a dívida pública americana.

Nascer mais homens do que mulheres é algo mais velho do que andar pra frente. Uma penúltima pesquisa já apontava um descompasso de 5% a favor deles, causado por diferenças na mobilidade dos espermatozóides. Os que continham cromossomos Y seriam mais velozes do que aqueles com o X.  A conta se equilibraria na vida adulta, quando, por razões que só a testosterona explica, os moços se envolveriam em duelos vários – brigas de bar, de gangues, de torcidas de futebol – que acabariam na perda do excedente. A natureza já foi mais sábia.

Agora, nós mulheres é que vamos sumindo lentamente, até não sobrar mais nenhuma. Isso lá para o ano 5000. Será que vou conseguir reencarnar o número de vezes suficiente para atingir o nirvana? Não creio.

Bateu uma aflição, um medo do inferno. Apesar de Deus ser brasileiro, São Pedro não deve ter nascido no Maranhão, então o jeito foi pôr o meu livre-arbítrio pra trabalhar.

Passei o olho por uma revista velha, cuja capa era a Amazônia como pulmão do mundo. Pensa: só tem nós surfando na marolinha da crise econômica. Consegui captar o sinal: o Brasil pode salvar o mundo. Pelo que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) andou levantando, temos 3.941.819 mulheres a mais do que homens. A cidade de São Caetano do Sul, no ABC paulista, é onde o déficit mais aperta. Vamos botar a mulherada na plataforma de exportação nacional. E, de brinde, virar a balança comercial.

Já ouvi que dificilmente o mulherio vai querer trocar um brasileiro por um chinês. Chinês é melhor do que nenhum. Também está faltando mulher no Japão, na Alemanha, na Rússia, Itália e Espanha.

Sem ilegalidade e nenhuma maracutaia no esquema porque eu quero é garantir meu lugarzinho no paraíso.  As mulheres se inscreveriam em um site, que definiria de forma aleatória o país dos mocinhos com quem elas vão conversar. Os países estrangeiros bancariam toda a produção e a viagem – com direito a seguro para uma eventual passagem de volta. Afinal, já estamos fazendo muito de salvar o mundo. Agora, se a mocinha quiser escolher o destino, paga uma taxa também.

Leitor americano, não perca do seu tempo, já tirei patente da coisa toda, os royalties são meus, querido. Ou você acha, que depois de Santos Dumont, nós não aprendemos nada?

É isso, ou podem ir se preparando porque o mundo será cada vez mais flex.

Aline Viana


As cores da alma

Comprei o livro O Mestre das Iluminuras, da inglesa Brenda Rickman Vantrease pela beleza de sua capa.A semelhança com iluminaras medievais, me encantou.Tanto na capa como na contracapa trazem uma moldura onde os desenhos,traçados com perfeição e delicadeza,reproduzem as figuras de aves, anjos, guerreiros,frutas e flores.Comprei e guardei por quase um ano sem ler. E, quando nofinal do ano passado resolvi ler,foi uma resolução tíbia, já que venho lendo devagarzinho.Cheguei agora ao décimo capítulo. Entre cada capítulo,outros livros.

Logo no começo do décimo capítulo eu parei de novo.Só que agora para pensar e escrever. Porque estas duas ações muitas vezes se realizam simultaneamente em minhavida. Penso enquanto escrevo. Escrevo enquanto penso.O resultado é sempre um pensamento escrito ou um escrito com o pensamento. O que trocando em miúdos, dá no mesmo. É a mesma coisa.

Magda é um personagem que apareceu no capítulo nove, onde entrou muda, mas não saiu calada: anunciou um incêndio que provavelmente vai mudar os rumos da trama. Mas é no capítulo dez que o leitor vai poder conhecê-la melhor e ver a cor de sua alma. Ou as cores. Pois as almas têm cores, afirma Magda. E ela pode vê-las. E esse é o seu dom, peloqual agradece a Deus.

Há alguns anos atrás, quando eu buscava um caminho para seguir, frequentei um curso esotérico onde se dizia que podíamos detectar as cores de nossa aura. Não sei se arregalando, fechando, ou deixando os olhos estáticos, vi cores circundando a cabeça das pessoas. Não foi assim tão fácil, mas me lembro de ter visto. Viram a minha também e conforme relatos minha aura na época era verde azulada.Gostei que ela fosse verde, é a cor que mais gosto, e ainda agora a Magda disse que não teme pessoas de alma verde, porque elas nunca poderiam lhe fazer mal.Depois dessa experiência nunca mais me interessei pelo assunto, não sei se a cor de minha aura mudou e nem sei se a cor da aura teria alguma coisa a ver com a cor da alma. Até acredito que tenha mudado porque nada é permanente neste mundo.

Sei que existem explicações científicas para a existência da aura, mas como na Idade Média isso era desconhecido acredito que a autora do livro esteja se referindo a essa aura, quando fala da alma.

Alma e/ou espírito não faz diferença. O certo é que como diz o ditado popular, quem vê cara não vê coração. Ou alma.Ou espírito. E eu fiquei aqui pensando quão bom seria se tivéssemos esse dom: o de reconhecer por trás da imagem física o que realmente cada pessoa é. Para mim seria um dom precioso já que tenho a tendência a achar que todo mundo é bom, antes que se prove o contrário. O que na maioria das vezes não é verdadeiro. Tirando a certeza quase óbvia de que a humanidade tem duas caras, ou seja, nem sempre age com coerência, não sendo nem bom nem mau, mas às vezes bom e outras não, a tendência geral é considerar bom e belo como sinônimos e feio e mau também. O que convenhamos, desfavorece muita gente não beneficiada pela beleza física.Se pudéssemos ter esse dom talvez as pessoas se preocupassem menos com a aparência física. E se preocupassem mais em falar a verdade. Seria de extrema utilidade na época das eleições, porque de nada adiantaria as promessas de campanha se a cor da alma de quem promete negasse o prometido. Evitaria muitos problemas, sem dúvida nenhuma. Mas como esse dom não é coletivo ( acredito que algumas pessoas possam tê-lo) temos que prestar redobrada atenção ao lidar com pessoas para não sermos enganados. Os enganadores sabem colocar direitinho as máscaras de bonzinho, em todas as ocasiões em que isso se fizer necessário: seja para conquistar um amor,um emprego, um cargo político.Seja apenas pelo prazer de mentir e enganar. Ah, se eu tivesse esse dom, de quanta enrascada eu não teria me livrado!

Maria Olimpia Alves de Melo



Brutus

Allan Hart

Outra porta se fechou no nariz de César. Não era mesmo seu dia de sorte. Aliás, era um dia azarento como o foram todos os outros até hoje e o seriam até a sua morte. Se é que teria a sorte de morrendo se livrar de tanto azar. Para completar, a nuvem negra que o acompanhava se agitou e uma tromba d’água começou a cair, deixando sapatos, calça e paletó encharcados, cobrindo no rosto dele um rastro já seco de lágrimas recentes. Sem emprego, sem dinheiro, sem mais desculpas para o atraso do aluguel, César deixou-se ficar no degrau da calçada, observando a enxurrada lamber seus pés enquanto esperava o milagre da multiplicação, ainda que fosse de parcas sardinhas. Além de tudo, tinha fome. E desprezá-la não a diminuia.

Altas horas, entrou em sua casa pela janela para não ser visto e cobrado. A roupa molhada foi para trás da geladeira, pois tal como ele, era órfã. Do forno, estranhamente, vinha um cheiro doce de lar, que mesmo não conhecido é por todos percebido quando se faz sentir. Ao chegar na cozinha, viu uma mulher. Uma bela mulher, que cantava enquanto cozinhava. Ela parou ao ouvi-lo se aproximar e sorriu  ao lhe ver. Abriu os braços e o acalentou no peito. Ele a amou. Perdido no fogo do corpo firme dela, feliz como nunca achou que pudesse ser, adormeceu com um sorriso torto e tímido, pois a boca há muito não sabia mais como reproduzir tal expressão.

Na manhã seguinte acharam seu corpo, nu, sob o leito. Não houve luta. Nem latrocínio. Causa mortis: alta concentração de carboxihemoglobina indicando falecimento por intoxicação de monóxido de carbono precedido de possíveis delírios febris.

Marina Costa


A Lei do Cão

Você quer ler um romance que reúna ação, emoção e que, ao mesmo tempo, seja uma denúncia verossímil de problemas reais? Então não perca tempo com fantasias pouco convincentes e mal escritas, como o “O código de Da Vinci” ou “Anjos e demônios”. Leitura de muito maior qualidade, no que diz respeito à construção do texto, bem como no que concerne á pesquisa de fatos verídicos, é “A lei do cão”, de Don Winslow, publicado pela Editora Record.

Trata-se de um romance da ação, com todos os elementos de suspense e de emoção de um thriller policial. Mas é um romance realista, tanto no sentido de que tem como referente fatos reais que podem ser comprovados, como no sentido de não ter meios termos, de mostrar a realidade nua e crua, sem o véu da fantasia. Além disso, não há nesse romance a visão maniqueísta que coloca em campos claramente distintos o mocinho e o bandido, o bem e o mal. Não se trata, por outro lado, de uma abordagem relativista ou cínica de problemas cruciais como o do narcotráfico. O ponto de vista do narrador é crítico, sem ser panfletário, e ele consegue mostrar, através de uma trama densa, aliada a informações objetivas, como a fronteira entre o bem e o mal ás vezes se torna tênue e ás vezes mesmo se confunde. “Pouco do que está escrito nesse livro é ficção, declara o autor; as coisas descritas aqui realmente ocorreram.”

As coisas descritas se referem aos bastidores da “war on drugs”, operação encabeçada pela agência americana DEA, com apoio do FBI e da CIA, na fronteira dos Estados Unidos com o México, em El Salvador, Honduras e Colômbia, nas décadas de 1970 a 1990 – operação na verdade destinada a combater os movimentos populares e os governos de esquerda bem como a apoiar as ditaduras de direita na América Latina.
Episódios da História recente (como golpe de estado em Honduras – com a deposição do presidente Zelaya – e o acordo para a instalação de bases militares americanas na Colômbia) não podem ser vistos com inocência e sem suspeita, depois da leitura de “A lei do cão”: leitura em que a adrenalina da emoção se mistura à da indignação.

Afonso Guerra-Baião


Vida velha

Ah, a cidade caminhava mais devagar. Lembro bem. A gente tinha bastante coisa pra fazer, mas as coisas passavam mais devagar. Trabalhava o dia inteiro na fábrica, chegava em casa e tinha mais coisa pra fazer. E pra divertir, não tinha muita opção. De vez em quando, uma partida de cartas. Ou bilhar, bolão. No final de semana, um baile, um casamento. Mas a gente ficava muito em casa também. Com a família. Tá vendo ali na parede? Mamãe teve treze filhos. Eu devia ter o quê, uns dois anos nessa foto. Faz muito tempo. E como mudaram as coisas! O pior é que a gente nem sempre se adapta né? Computador, essas coisas. Nunca mexi. Não sei se é medo, ou o quê que é. É mais difícil pra gente né? Mas sabe, essas coisas modernas deixam a gente mais distante. Eu vejo muito isso. Aqui na nossa cidade mesmo. Cada um no seu canto, uma coisa estranha. Não era assim. Às vezes dá uma saudade de como as coisas eram. Mas passou né, fazer o quê. E quem se interessa pelas coisas que passaram? Você é um caso raro, menino. Caso raro. Porque a gente não tem com quem falar não. A não ser os outros velhos. Só que os velhos vão morrendo. Do meu tempo tem poucos. Semana passada fui a dois enterros. Um era o velho Zépi. Aquele que tinha uma oficina lá na Getúlio Vargas, sabe? Você não deve ter conhecido. Não é do teu tempo. Era casado com a minha prima também. Amanhã já é a missa de sétimo-dia. Missa é outra coisa que mudou bastante né? Hoje não tem mais isso de ir lá todo domingo. Pessoal não respeita mais. E às vezes nem quem vai respeita direito. Essa juventude não respeita muita coisa. Você sabe que naquela rua de cima tem um colégio né? Cinco horas, a calçada aqui em frente vira um inferno. Eles descem a rua em bando e não querem nem saber. Se a gente tiver chegando ou saindo de casa, é capaz de ser arrastado. E as calçadas já são estreitas, daí se a gente encontra eles vindo, quem tem que descer é a gente. Não é fácil não. Mas vamos sentar um pouco, que a mãe fez bolo pra nós. Tem cuca também. Essa é da festa da igreja. Foi meu filho mais moço que comprou. Ele sempre passa aqui, mais ou menos por essa hora. Já devia tá aqui. Deve tá chegando já, aí você conhece ele também. Se fosse ontem, você ia conhecer uma das minhas filhas. Eles sempre tão por aqui, ajudando a gente. Ajudam com essa coisa de médico, remédio também. Coisa de velho mesmo. Eu gosto mesmo é quando todo mundo tá junto. Natal, ano novo, essas datas. Antigamente a gente fazia um almoço aqui, mas hoje a gente não dá mais conta né? Aí a gente sempre vai pra algum restaurante. Ninguém quer que eu pague, mas eu pego a conta e saio de fininho pra pagar. É a minha alegria, sabe? Todo mundo reunido. Os filhos, os netos. Ah, não te contei ainda, vou ganhar mais uma netinha. Esse meu filho mais novo que vai ser pai. Já tem uma filha, e agora vai ter outra. É bom porque deixa as coisa mais alegre né? Esse ano eu com a mãe nem ia fazer mais a árvore de Natal. Muito trabalho. Mas agora com criança, pode ser que a gente ainda faça. Porque elas gostam né? Mas coma mais! Quer mais refrigerante? Eu falo bastante né? Você não ligue não, que eu às vezes começo e não paro mais. Depois quero te mostrar o álbum de fotos do papai. Você gosta dessas coisas velhas né? Isso deve tá lá no sótão. Tenho alguns livros também, da história da cidade. Posso te emprestar. Tanta coisa bonita passou, sabe? Sim senhor, a cidade caminhava mais devagar.


Eu ia lhe chamar enquanto corria a barca

Segunda-feira. Era por volta de uma hora da tarde. Aquele mesmo nauseático balanço. Apoio-me em um dos bancos da barca, sento e aguardo a minha rotineira e monótona viagem de 17 minutos rumo à labuta. O trajeto Niterói-Rio de Janeiro já não me enche mais os olhos. Sei que na minha esquerda está o Museu de Arte Contemporânea, bem como a direita vejo a ponte Rio-Niterói. Nada demais pra mim. Mas não pra eles…

Ao intervalo entre uma e outra música no meu MP3, escuto umas vozes esquisitas, em um dialeto um tanto que enrolado. Reparo que, um pouco a frente de mim, havia um grupo de turistas com a aparência de orientais. Logo associei a japoneses, pois, para nós, qualquer oriental é japonês.
Comecei a notar suas reações, e o quão maravilhados estavam com aquele passeio. Porém, alguns minutos depois, parecia que a alegria havia cedido lugar à frustração. Pelo o que entendi, a tia dos olhinhos puxados não conseguira fotografar alguma paisagem, acredito ser o Pão de Açucar. A janela não dava mais ângulo. Confesso que fiquei preocupado ao vê-la dependurada naquela estreita janela, na vã tentativa de lograr êxito em seu registro. Em uma visão mais materialista, entrevi a Sony Cyber Shot 12.1 da japa na iminência de juntar-se aos pneus e às latas de alumínio, no fundo da Baía de Guanabara. Que desperdício seria…
Após este imbróglio protagonizado pelos nossos simpáticos visitantes, flagrei-me a divagar: Não é que aquela antiga barca, praticamente um teco-teco dos mares, faz falta?!
Lembrei-me então dos meus passeios nesta famigerada embracação, e de como aquele trajeto de 30 minutos era agradável.
Decerto que, naquele tempo, eu não ia ao outro lado da “poça” para trancafiar-me em uma sala, pois as referidas lembranças datam de quase uma década atrás. Mas e daí? Tais circunstâncias devem ter propiciado casos praticamente impossíveis de acontecer nos dias de hoje. Por exemplo, quantas pessoas se conheceram, namoraram e casaram a partir daquele sorvete na varandinha da popa dessa barca, com a brisa do vento juntando-se ao frescor de uma Baía de Guanabara praticamente límpida? Os tempos eram outros, e a pressa, por muitas vezes instintiva e desmotivada, também. Tempos que só as minhas mais vagas lembranças conseguem trazer à tona.

Pior para aquele pequeno nissei, ainda não tem altura pra alcançar os aproximadamente 1,50m da janela. Terá uma lembrança cinza, bem como a parede desta.

Após várias (e infrutíferas) idéias para tentar desapoquentar a malogrante viagem dos gringos, resolvi fazer o caminho inverso: Será que, no dia em que eu for ao Japão, algum deles se preocupará caso eu não consiga ângulo para alguma foto, ou mesmo sentir um ventinho fresco, em uma viagem no trem bala suspenso, a 400 km/h? Acredito que não. Ainda deveriam agradecer por a barca não navegar o equivalente a 400 km/h em milhas náuticas! É olho por olho, dente por dente, meu chapa! E sayonara!

Então, tomado por uma forte sensação egocêntrica, relaxei. A funcionalidade vencera o romantismo, e não havia nada a fazer acerca disso. Mas quando dei por mim, já estava junto aos japoneses, fotografando a minha “rotineira e monótona” viagem. Pena que só consegui uma foto, a viagem chegara ao fim. Mas não há problema, amanhã ainda é terça-feira.

Brunno Leal


Vida, curiosa vida!

Às vezes me desconcertam certas coisas da vida. No caso, me refiro às certas coincidências que, por vezes, parecem tudo, menos coincidência. É curioso.

Dia desses lá estava eu, triste como uma besta, no ônibus, indo pra Universidade. Pensava, por alguma razão, na crise econômica que hoje afeta os Estados Unidos. Enquanto o ônibus balançava, ia pensando na arrogância histórica dos norte-americanos, na sua relação desleal com os outros povos. Com certa aflição, fiquei como que antevendo uma reação agressiva dos ianques, como um cão que teme perder o osso, depois de tê-lo durante tanto tempo bem preso aos dentes. Acontece que na mesma hora irrompe pela porta e passa pela roleta um sujeito, caboclo, moreno como eu, trajando uma camiseta estampada com um enorme desenho da bandeira norte-americana e uma águia – um dos símbolos característicos desse orgulho americano. Não pude ter outra reação além do espanto e da sóbria constatação de que ainda somos, os brasileiros, um povo colonizado.

Outro dia, isso deve passar de um ano, estava no carro com um amigo – o Raulzim – e filosofávamos sobre o que seria a “felicidade”. O som do carro estava sintonizado numa rádio de músicas nacionais. Num determinado momento, comecei a lhe falar de uma música do Vinícius que muito aprecio, o Samba da Bênção, em que o poeta versa sobre a felicidade. Cuidei de recitar alguns versos da música ao qual ele ouvia com atenção. Nessa mesma hora, o locutor da rádio anuncia “Samba da Bênção, Vinícius de Moraes e Baden Powell” e a música – para nosso espanto – começa a ser tocada na rádio.

Nunca li um livro sequer do psiquiatra Carl Jung – mas foi exatamente ele quem classificou essa série de acontecimentos como “sincronicidades”.

No dia 16 de agosto – numa terça-feira – tirei uma tarde para visitar pela primeira vez, desde quando foi fundado, o Beijódromo – Memorial Darcy Ribeiro, no campus da Universidade de Brasília. Chegando lá, passeio pela galeria onde se encontram documentos, diários, imagens, e penetro no universo que o antropólogo Darcy nos legou. Sua profunda contribuição nos estudos etnográficos, o indígena muitas vezes no centro de suas preocupações, seu amor por esse povo ultrajado pela brutalidade do colonizador. Aos poucos vou desvelando seu universo e me sentido parte dele. Afinal, lá nas minhas origens, sei que também sou índio.

 Lembro que minha avó Júlia é neta direta de indígenas – isso explicaria, talvez, sua mediunidade. Mas acontece que, no mesmo dia, sou informado, por amigos na internet, que as construtoras Brasal, Emplavi e Terracap, com apoio da Polícia Militar, estavam invadindo as terras reservada aos índios Fulni-ô Tapuya, onde fica o Santuário dos Pajés na região. Além do apoio da Polícia Militar, as empreiteiras chegaram, segundo o Pajé Santxiê Tapuya, com nove tratores, derrubando árvores como o araçá, o pequi, a macaúba e o pé de jatobá.

Mais uma vez sou tomado pelo espanto de uma improvável coincidência, pensando abestalhado o qual essa nossa vida é curiosa!

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Alex Canuto de Melo