Amigo dele

E  seu amigo, está bem? Ele não me responde. Não me atende. Não quer me ver. Disse que ficaria tranquilo mas vai saber. Esperei e esperei. Resolvi vir até você. Agora, não que eu não me importe com ele… mas e a gente, como vai ser?

Não sei se foram as nossas conversas enquanto ele me pedia um tempo. Ou as risadas sobre  coisas em que ele não via a mínima graça. Talvez compartilhar comida japonesa, longe da alergia que ele dizia ter. Ou quem sabe era porque, no fundo, não tinha mesmo nada a ver…

Fala para ele que a vida é assim. E a gente só insiste no erro quando o ego não quer perder. Mas não tem derrota. Ninguém é troféu.

Vamos sorrir que o mundo é colorido. A vida transborda. E agora, eu amo você.

Marina Costa

Eu e o outro

Em 1973, Mary-Claire King, da Universidade da Califórnia, demonstrou que, geneticamente, os homens e os chipanzés são 99% idênticos.

Enquanto isso, nos dias de hoje, muita gente continua agindo como se houvesse uma grande diferença entre as raças humanas – e como se existisse uma hierarquia que as catalogasse como superiores e inferiores, melhores e piores.

Na última vez que a Seleção Brasileira jogou em Londres, torcedores escoceses atiraram cascas de banana no jogador Neymar. Na Itália o jogador Balotelli, único negro da Squadra Azzurra, foi agredido pelas manifestações racistas de um grupo de torcedores italianos. Na Rússia Roberto Carlos decidiu abandonar o campo em protesto contra atitudes discriminatórias vindas das arquibancadas. Na Espanha Marcelo foi hostilizado por manifestações xenófobas de torcedores do Atlético de Madri. O jovem jogador Lucas, da Seleção Brasileira, percebeu bem a contradição: segundo ele, é na Europa, é no “primeiro mundo” que mais se manifesta o racismo. A xenofobia e o racismo, porém, não se expressam apenas no futebol.

No ano passado, na Espanha, o Partido Popular da Catalunha apresentou um jogo de videogame protagonizado pela candidata às eleições regionais, Alicia Sánchez Camacho que, sob o codinome “Alicia Croft”, dispara contra imigrantes ilegais e os faz desaparecer. Na Suíça, o polêmico partido SVP produziu um cartaz em que um grupo de ovelhas brancas chutava uma ovelha negra para fora da bandeira da Suíça.

E no Brasil? Para quem pensa que tudo aqui é só futebol, carnaval e praia, nós temos também os nossos racistas e, entre eles, desfila como destaque o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Esse, por sinal, tem ampliado o seu repertório de intolerâncias para além do racismo, agredindo com sua militância preconceituosa as mulheres e os homossexuais.

Não bastasse a lição científica da genética, convém convocar, para combater todo tipo de preconceito, a lição filosófica de Mihail Bakhtin para quem a palavra (prerrogativa humana) é sempre “uma ponte entre mim e o outro”: eu preciso do outro para identificar-me a mim mesmo, pois “é o excedente do olhar do outro que me constitui”.

Afonso Guerra-Baião

Maracanazo

Que as mulheres me perdoem, mas hoje eu quero falar de futebol. É verdade que estou um pouco atrasado – faz quase uma semana que o Brasil foi eliminado da Copa América. Pois, ainda sim, tenho o desejo de colocar no papel – ou na tela do computador – alguns dos pensamentos que me nasceram com o episódio. Antes de tudo, preciso dizer que gosto de futebol. Em geral, as pessoas acham que não. Sou um homem magro, muito magro, bastante desajeitado, desengonçado mesmo, tido como nerd, e ainda por cima uso óculos. Normalmente, as pessoas acham que tipos assim detestam esportes e passam os dias na frente do computador tentando descobrir meios de invadir os sites do governo. Pois não só gosto como, eventualmente, inclusive jogo. Não sou um craque, mas de vez em quando coloco a bola para dentro do gol. E posso garantir que muito dificilmente perderia um pênalti com tanta propriedade como perderam os jogadores do Brasil.

Mas não posso dizer que tenha ficado muito triste com a eliminação – não como na Copa de 1998, quando eu era um simples menino que, após a derrota para a França, se trancou no quarto e ficou emburrado o resto da noite. Na verdade, hoje é mais difícil torcer pelo Brasil. O que a gente faz é tentar esquecer o Ricardo Teixeira, os patrocinadores, a Rede Globo, e todas as sujeiras dos bastidores, para então se agarrar a algum sentimento patriótico que nos convença a querer que a Seleção vença. Isso poderia dar certo se, dentro do campo, o futebol apresentado fosse o mesmo que nos fez ter a fama de melhores do mundo. Como os resultados mostram, não é – e está cada vez mais longe de ser.

O Brasil parece ter se perdido em sua própria memória de sucesso. Ficamos convencidos de que somos eternamente superiores e que conseguiremos vencer ao natural. E, por isso, continuamos a jogar do mesmo jeito, só que agora a superioridade é apenas soberba. As seleções menores, como era natural, aprenderam a jogar com o Brasil. E nós não percebemos isso – ou, se percebemos, não foi suficiente para achar que deveríamos mudar alguma coisa. Geralmente dizem que é difícil jogar contra times pequenos porque eles se fecham na defesa. Bolas, se sabemos que eles fazem isso, e se acreditamos que somos os melhores do mundo, já passou do momento de acharmos estratégias para superá-los. Sem elas, de pouco vale ter bons jogadores de ataque.

Talvez uma dessas estratégias seja jogar como time pequeno – talvez. Quem sabe a gente precise diminuir pra voltar a crescer. No fundo, imagino que os brasileiros queriam que jogássemos como o Uruguai. No papel, o time é inferior ao nosso. E eles provavelmente sabem disso. O que eles fazem é se entregar e jogar com raça – coisa que nós não sabemos. Nossos jogadores são eliminados de forma vexatória, mas nenhum deles é capaz de chorar amargamente, pedir desculpas e se dizer envergonhado. No instante seguinte, estão dando entrevistas calmamente, falando em levantar a cabeça, e lamentando que não foi o dia do Brasil. Não é possível esperar muita coisa de um time assim.

Espero que não precisemos de outro Maracanazo para aprender.

Ensaio para o amor

Tudo tem seu começo. O amor que o diga. Ah, o nascimento do amor, aquelas descobertas, o desejo de alcançar o infinito quando ao lado daquela pessoa… o começo é realmente mágico. Mas remeto-me a um pouquinho antes, quando o amor não passava de flerte.
.
O flerte é o ensaio pro amor. Serve como um amistoso, pra treinar e estar preparado quando for pra valer. É o início do início, onde nada ainda são flores e nada ainda são trevas. É o momento que você conhece a pessoa, e digo conhecer em sentido estrito. Você confia, mas sempre com um pé atrás. Você gosta, mas passa um pente fino na agenda telefônica dele. Você acredita, e essa, sem sombra de dúvidas, é a parte mais cômica.
.
Tomemos como exemplo uma noitada qualquer. Um cara puxa assunto contigo e, se ainda não tomou mais de duas caipirinhas, perguntará seu nome, o que faz da vida… aquele papo que você conhece melhor que eu. O cara quer saber sobre você, mas você, quando não responde com uma simples e bela ignorada, conversa monossilabicamente. Ele está ali, praticamente um gentleman, mas você não dá bola, só veio pra dançar, tem namorado, coisa e tal. É um belo exemplo do teatro do flerte; Um homem se fazendo de interessado pra uma mulher que banca a difícil.
.
Isso ocorre também na faculdade, no trabalho, no ponto de ônibus, no velório…  O cara, com receio de uma iminente rejeição, de uma hora pra outra torna-se o Diretor de núcleo da Rede Globo, neto de xeique, vencedor do torneio de salto-triplo do seu clube. Já a mulher,com intuito de se livrar daquele mala, arruma um noivado com o campeão interestelar de caratê, com o chefe da boca-de-fumo ou com um Hannibal da vida. A verdade é que já não se fazem mais mentiras como antigamente.
.
Felizes são aqueles que se permitem transcender essa etapa. Permitir-se ao amor é descer do salto, é olhar na mesma altura, e não de cima pra baixo. Por trás daquele cara inseguro e insistente, pode estar a pessoa que lhe amará até seus últimos minutos. É sabido que, transgredindo a garota de poucas palavras, que vira a cara quando passa, que finge um olhar de desdém, pode haver alguém que dará amor até de olhos fechados. Dizer sim pra esse início é abrir uma brecha pro amor, e desistir é assinar o atestado de solidão. Curtir o nascimento do amor é dadivoso, mas antes é necessário que se passe pelo período de gravidez, com direito a todas as intempéries.
.
A regra é instintiva: Pra presenciarmos o nascimento amor, é necessário que o façamos.
.
Faça amor…

Peço licença ao amigo para contar uns causos

“Até 82 a gente não sabia o que era roupa por aqui. Depois foi só roupa, roupa, roupa.” Foi assim que Danilo contou a mim e a dois amigos o que foi o achamento de Jericoacoara, vila litorânea do Ceará, por uma inglesa e seu amigo paulistano. Antes não tinha nada disso. Seus pais e seus antepassados, muitos deles descendentes de índios, não tinham nada que ver com isso. E prossegue contando que a terra ali é encantada. A Pedra Furada não surgiu do confronto entre o mar e a pedra. Aquilo é uma ponte. Uma passagem que as pessoas das grutas, os encantados, fizeram há muitos anos.

O jeito era dar corda pra saber o final. Nem precisamos pedir duas vezes ao Danilo, nosso charreteiro, para ele desenrolar. Essas histórias têm muito de mentira e de verdade, mas como a gente não sabe a diferença, conta tudo, disse e eu repito aqui. Uma prima dele foi vítima de uma aparição dessas. Ela estava no morro a caminho da pedra com umas amigas e se afastou poucos metros do grupo. Nisso, uma cobra com cara de homem e olhos azuis surgiu e a abraçou com todo o corpo.

Cobra macho, amigo, ela estava decidida a beijar a moça. E na boca. Parecia até aqueles moços que a gente encontra na balada. Arrochava mais e insistia. Como se com aqueles movimentos de serpente artista, ela tentasse hipnotizar a presa. A cada investida, o bicho ficava mais determinado e a moça no sufoco. Não se sabe o que quebrou o encantamento, mas as amigas finalmente deram pela falta dela, o que fez a cobra, que era um príncipe, soltar o abraço e se embrenhar no mato.

A oeste de Jeri, em Tatajuba, as dunas em poucos meses varreram pro lado uma cidade. O povoado antigo submergiu em areia. Em um abrigo coberto por palha seca, vendem-se cocos, conchas para se ouvir o mar e lembranças. Estas são oferecidas por uma velha senhora, que num pique de repente, fala da tempestade de areia, do navio que está escondido sob a maior das dunas brancas e de como o pai dela foi seguido por uma mulher de branco em noite de luar. Bonita ela vinha alguns passos atrás dele. Ele corria, ela também. Ele parava, o mesmo ela. De repente, ela ajoelhou-se e ergueu os braços aos céus. Quando ele foi saber se ela rezava, ela se desfez de súbito. Houve testemunhas, mas ninguém deu queixa do sumiço.

A manicure disse que a cidade é um portal. Que os espíritas já sabiam há tempos. Por isso os de fora, estrangeiros de Andorra a Israel, de São Paulo ao Piauí, conseguem relaxar ali. O que posso dizer? Tenho um acordo antigo com os seres do desconhecido: eles lá e eu aqui, consta nas letras miúdas. Mas eu, como eles, trapaceio um pouco. Quero sempre espiar o que andam fazendo. E isso em São Paulo não dá pra fazer, nosso encantamento é noutros termos.

Aline Viana

Acrósticos

Os acrósticos são textos poéticos onde, usualmente, a primeira letra de cada frase ou verso forma uma palavra ou frase. Mas também podem ser usadas letras do meio ou do final de cada verso ou palavra. O vocábulo tem origem no grego Ákros (extremo) e stikhos ( linha ou verso). Podem ser simples, com frases, nomes ou palavras que não tenham ligação entre si ou podem mesmo ser um poema completo. Exemplo de um acróstico simples:

 Magia

Amor.

Encantamento.

Exemplo de um acróstico usando a letra final:

DoM

AlmA

LevE

Já eram feitos na Antiguidade por escritores gregos e latinos e na Idade Média pelos monges. Hoje em dia podem ser encontrados em vários lugares, como jornais e revistas e também em sites de poesia na internet, com destaque para o Recanto das Letras onde é grande o número de poetas que trabalham com essa forma de poesia. Professores também o utilizam bastante a fim de ativar a criatividade dos seus alunos através de uma atividade lúdica,por que se torna um jogo muito interessante. Eis aqui um belo exemplo de poema usado nessa situação:

Adivinha

Com quatro patinhas, o rabo curtinho,

Orelhas compridas, peludo – é verdade –

E sempre a mexer o nariz quando come,

Louco por cenouras e alfaces, louquinho,

Há tanto no campo como na cidade.

O nome não digo. qual é o seu nome?

(Leonel Neves – Bichos de trazer pra casa)

Uma de suas funções é ressaltar as qualidades ou os feitos de uma pessoa, sejam essas qualidades boas ou más. Outra, mostra o gosto pelo segredo, quando você não ressalta as letras iniciais de cada verso e então, muitas vezes o acróstico nem é percebido como acróstico, como no poema abaixo de Ophélia Queirós. Descubram a quem é dedicado:

Fazia bem em me dizer

e grata lhe ficaria

razão porque em verso me dizia

não ser o bom-bom para si

a não ser que na pastelaria

não lho queiram fornecer.

d´outro motivo não vi

ir tal levá-lo a crer.

Não sei mesmo o que pensar.

Ha fastio para o comer?

Ou não tem massa p´ro comprar?

Peço porem que me desculpe

este incorreto poema

seja bom e não me culpe

sou estúpida e tenho pena:

o Sr. é muito amável

aturando esta… pequena.

Um dos mais famosos e respeitados acrósticos é o Hino Nacional dos Países Baixos que não pretendo reproduzir aqui ,mas são 15 versos onde a primeira letra de cada forma o nome de “Willem van Nazzov” (Guilherme de Nassau). Também na Bíblia, principalmente nos Salmos, encontramos exemplos de acrósticos. Poetas às vezes o utilizam para assinar um poema, como no exemplo abaixo, em que a autoria do poema se encontra formada pela união das primeiras letras de cada verso.

Transcendência

Manhã de sol e nem bem

acordo, já levanto em busca do meu café.

Risonha ,como se a vida fosse

infinita, como a eternidade o é.

Amo essas manhãs assim:

o sol com seus raios brilhantes,

límpidos como os olhos do meu amor.

 Intimamente eu sinto que o

mistério dessa vida será desvelado e

por todos se tornará conhecido.

Inúteis serão as iras irrompidas

através dos gritos dos amargos.

As almas todas se tornarão mais puras,

limpas que serão pela felicidade que

vitoriosa cantará a glória de viver

esperando que por todo o sempre

silenciem as dores dos sofridos.

Deus então mostrará sua cara.

Enfim estará presente em todas as vidas

morando em cada coração radiante que

encontrará então a paz tão desejada e a

 liberdade de ser feliz eternamente, pensando:

 “o resto dos meus dias será assim”

Maria Olímpia Alves de Melo

Eu vou

Sexta. No carro, vamos indo. O relógio continua me perturbando, contando os segundos para levar meu fim de semana, mas eu jogo essa coisinha asquerosa pela janela, pego a canga e, depois daquela pedra, tudo fica verde esperança com respingos de amarelo delícia no nosso capô. O dia amanhece limpo e lindo, o céu estalando de tão azul e assim que ele olhou para mim, eu disse “eu vou”! A praia estava vazia, o coco trincando de tão gelado, o mar piscando de um jeito sapeca e a areia impacientemente esquentando meu pé. Virei e disse: já fui! Os meninos bronzeados, as meninas de biquíni – pára de olhar! – , o sol todo enrolado no meu corpo, a água escorrendo fria pela minha barriga, o garçom me olhou com o sorriso de cúmplice mais fiel da orla e eu digo feliz “pode vir”! A onda quebra na praia, aparece uma estrela laranja que sussurra “me leva” e eu ganho esse presente de Iemanjá. Sua benção do mar. E eu sou. Levei. Uma explosão no horizonte, alguém chutou um balde de tinta rosa no céu, as estrelas começam a pipocar brilhantes e acho que vi um ser em uma bicicleta cruzando a Lua redonda. Dou um tchauzinho, olho para ele e sei que a gente pensa “vam’ embora”! Já fui! Sonhei. Ficar aqui para o resto da vida, sem conta no banco ou CPF, como um grão no chão… ao léu… Um nada. Um nada cheio de vida e fora da correria para tentar ser um nada no degrau de cima. Prefiro. Só que não tem jeito. O coração do papai não ia aguentar. E isso é o suficiente para me deixar na forca. Eu fico. E meu medo? Deus dá o frio conforme o cobertor, né mãe? Mas o problema é que conheci o edredom. Enfim… E ela chega, sinuosa e escorregadia, preparando o bote, já dá para sentir o aperto no pescoço… A segunda. Acordo pensando “tenho que ir”. Mas ainda tenho a soneca, só mais cinco minutinhos de paz e volto para o sonho de ser hippie, morar no oco da árvore, fazer artesanato de durepox, usar dread colorido e acreditar que minha juventude vai durar para sempre como nos filmes de Woodstock. E quem disse que não vai… Eu vou! Ah, Jeri…

Marina Costa