Milagres possíveis

Vai fazer cinquenta anos que Arthur Penn, no filme “O milagre de Anne Sullivan”, recriou em dimensão estética um drama real: aquele vivido por Helen Keller e Anne Sullivan.

Imagine uma menina muda. Não só muda, mas também surda. E que, como se não bastasse, era cega. Essa era Helen Keller. Anne Sullivan foi a persistente professora que assumiu o desafio de ajudar aquela menina a interagir com o mundo, adquirindo meios de interpretá-lo e modos de expressar-se.

De um ente selvagem e inválido, Helen Keller se transformou, pela mão afetuosa mas firme de sua mestra, num ser humano em plenitude, vindo a ser mais tarde uma escritora, filósofa e conferencista de renome internacional, que sempre militou em favor das pessoas portadoras de deficiências.

A lembrança do milagre de Anne Sullivan me faz pensar nos mestres e mestras que, hoje, em Minas Gerais, enfrentam um outro desafio: o de se fazer ouvir por um governo surdo, cujos ouvidos moucos não percebem suas justas reivindicações, mesmo quando feitas através de manifestações públicas, numa greve que já dura meses; o de fazer com que um governo cego consiga ler e entender a lei federal do piso salarial; o de fazer com que um governo insensível, anestesiado pela frieza burocrática, abrace a causa da educação, condição de todo progresso.

Será que, para vencer esse desafio, os profissionais da educação de Minas precisarão fazer um milagre?

Esse milagre poderia acontecer se o governo de Minas aprendesse com os nossos mestres uma lição: a de que é preciso ter a coragem, a ousadia de seguir um sonho e lutar por ele, superando o imobilismo conservador.

Cumprir a Lei Nacional do Piso é um perigo para as contas do governo?

Vamos abrir nossos ouvidos para a voz de Helen Keller:

“Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto se expor ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada”.

 Afonso Guerra-Baião

4 comentários em “Milagres possíveis

  1. Acho a comparação uma grande sacada. E tenho certeza também que isso não se resume a Minas Gerais. Por todo o canto pipocam greves, inclusive de professores, que também tentam se fazer entender para um governo surdo, mudo, cego e paralítico, que, ao contrário de Hellen, tampouco quer se expressar.

  2. Nossa, fico imaginando como deve ter sido para Anne ter conseguido romper a barreira para enfim se comunicar com a Helen. Milagre é a palavra perfeita, mesmo.
    A batalha dos professores mineiros se repete em todos os estados do país, basta ver os editais de concursos públicos: enquanto um médico de família recebe R$ 8 mil de salário, às vezes, nem o salário mínimo é oferecido na mesma cidade ao educador. É deprimente que nossa sociedade tenha tão pouco apreço ao esforço de formar um cidadão.

  3. Tenho que elogiar, como já fizeram, a comparação feita na crônicas. Brilhante. Assisti esse filme quando fiz libras na faculdade, e realmente é uma situação que mostra do que o ser humano, quando ciente de seu potencial, é capaz. E sobre a situação lametável da educação, em Minas e também no Brasil, só há um comentário a fazer: se queremos mudança, nós, a sociedade, devemos lutar contra a cegueira auto imposta dos governantes para obtê-la.

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