Urso de pelúcia

Sempre tive certo apego às coisas ligadas à minha infância. Talvez por serem atalhos ou detalhes que minha mente não mais traria à tona, ou por derivarem de alguma ocasião especial. Ainda guardo comigo alguns peduricalhos de festinhas de quinze anos e trabalhinhos da minha época de escola, mas minha maior “relíquia” veio de longe, lá do outro lado do Altântico.

Portugal, final da década de oitenta. Eu, do alto dos meus três anos de idade, dando um rolê pela terrinha. Minha memória de nada me ofertou para relatar aqui, mas nada muito diferente de um passeio pela Torre de Belém ou pelos castelos de Sintra. Mas foi por lá que encontrei a maior de todas as minhas recordações, que minha mãe diz ter sido amor à primeira vista. Abracei um urso de pelúcia, praticamente do meu tamanho, e só fui soltar ao chegar no Brasil.

Eu era daquelas crianças que não tinha qualquer cuidado com brinquedos, praticamente um serial killer dos bonequinhos. Mas com o urso era diferente. Guardo até hoje uma foto da copa do mundo de 1990, ele e eu vestidos com a camisa da seleção. Tecnologias, video-games, bonecos, carrinhos, tudo possuía prazo de validade, menos meu urso. E nem precisava.

Mas a vida me deu rumo. Doei boa parte dos meus brinquedos, mas o urso continuava comigo, não mais tão bonito e vistoso como em tempos atrás. Um trapo pra quem olhasse de fora, mas pra mim era a chama da minha infância cultivada da maneira mais preciosa. Um apego um tanto desproposital, mas repleto de afeto. Tinha a impressão que aqueles seus olhos de botão já gastos pelo tempo conseguiam ler minha mente. Gostava de deixá-lo em cima da minha cama, me vigiando. Havia propósito.

Meu urso comprava a minha saudade.

“Matar saudade” é a frase mais descabida que conheço. Saudade é imortal. Quando pensa ter batido as botas, volta com mais intensidade. Nem tento mais matar as minhas saudades. Eu as reciclo, as transformo de passado pra presente. São portarretratos que saltam à minha mente.

Talvez por nostalgia, talvez por carência, precisamos manter eterno contato com nossas saudades. Precisamos de um elo com nossa infância, para pegarmos carona no barquinho de papel de Toquinho na propaganda da Faber-Castell, no choro de quem faz pirraça pra não ir à escola, num abraço apertado naquele seu melhor amigo de pelúcia. A infância nos torna mais humanos. Nos faz enxergar a vida através do paradoxo que é a ingenuidade de uma criança com coração purificado, preparando-se para ser triturado pelo nosso mundo subdesenvolvido. A ingenuidade nos deixa mais próximos de Deus, por isso é coisa de criança. Desaprendi a ser eternamente ingênuo.

Faz um tempo que não vejo meu urso. Deve estar empoeirado, dentro de um caixote qualquer em algum canto da casa, esquecido, aguardando o momento de voltar a enfeitar meu quarto e me fazer criança de novo.

Brunno Leal

4 comentários em “Urso de pelúcia

  1. E ninguém cultiva saudades melhor que o cronista, o único capaz de dar mergulhos tão profundos na infância e tentar resgatar, um mínimo que seja, da ingenuidade perdida. Texto belíssimo.

  2. Lindo esse texto! Saber que até hoje um menino crescido guarda esse carinho por um ursinho revela uma delicadeza que a gente não costuma suspeitar nos homens. Parabéns, Brunno!

  3. Quanta verdade sobre essa história de matar a saudade… sabe que eu nunca tinha pensado nisso, realmente, ela é imortal!! E a doce infância, acho que a perda mais lamentada por qualquer ser humano equilibrado é a ingenuidade infantil que se transforma com o passar dos anos… É, tenho muito o que pensar depois de ler essa crônica de uma criança grande!

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