O Murmúrio dos Sinos

Foi em sonhos que Karina ouviu o murmúrio dos Sinos. A princípio, demorou em atinar no que os sinos queriam lhe dizer. Porém, badalavam os Sinos incessantemente, bem longe da janela do seu quarto. Para além daqueles edifícios, onde telhados e antenas de tevê recortavam cruelmente sua paisagem.

Os Sinos lhe ofereciam sonhos de simplicidade. Ela imaginou que – por um capricho seu bem peculiar – esses sinos deveriam estar a soar em algum campanário de alguma cidade mineira, Ouro Preto ou São João Del-Rei. Ou mesmo, refugiados entre montanhas de um país secreto que ninguém pisara. Desde então, Karina passou a persegui-los furiosamente, tal qual um cavalo selvagem que ignora regalias e porteiras. Tomada de súbita esperança, confiou seu destino a Eles, e galopou no mais imponderável dos caminhos. Caminhava descalça sobre estradas de ferro e pulando os trilhos como quem pula amarelinha.  Às vezes tinha medo, a tremenda solidão no ermo das estradas, e só pedia que nenhum trem lhe surpreendesse o caminho, com sua fúria de comércio e gravidade.

Às vezes acontecia de Karina ouvir dentro de si o desespero ganhando corpo. No entanto, mantinha-se atenta à promessa dos Sinos. Eles lhe ofereciam tanto e tão pouco: chuva, luz e vento, um girassol pousado entre os cabelos, uma cidade após outra, um amigo em cada vilarejo, descobertas a não poder mais e amplidões de estrada virgem.

Trazia sua flauta doce à boca, sabia necessário povoar a solidão das estradas com as mais ousadas melodias. Caminhar a deixar a camisa aberta, sentir nos seios a carícia dos ventos, deter-se durante muito tempo à sombra de alguma árvore prazenteira, beber água de algum arroio, acender um cigarro e não pensar em mais nada: olhando não olhando aquelas nuvens que passam, como uma vaga procissão de carneirinhos vagando livres no espaço, despojados de qualquer mistério, sem nenhuma metafísica.

Com o passar do tempo Karina já não se sentia mais tão sozinha, na estrada seus passos foram se tornando cada vez mais firmes e puros, o seu ar povoado cada vez mais pela música e pelo silêncio mais acolhedor: qualquer coisa inominável. De resto, bastava-lhe ouvir silenciosamente o murmúrio dos Sinos, ajeitar o ipê amarelo nos cabelos e seguir alegre no mais impoderável dos caminhos!

Alex Canuto de Melo

6 comentários em “O Murmúrio dos Sinos

  1. Não vale. São proibidas crônicas tão bonitas assim. Está cheia de pequenas preciosidades, que podem passar batidas numa primeira leitura, mas que mereceriam maior atenção. Muito bem construída, inclusive o vocabulário.

  2. Eu adorei!! Que vontade de ser um pouco mais Karina na vida. Sem importar com as convenções e andar, andar atrás do que realmente importa, das vontades que a gente tem… Fez meu domingo mais doce ler esse texto!

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