Eu e o outro

Em 1973, Mary-Claire King, da Universidade da Califórnia, demonstrou que, geneticamente, os homens e os chipanzés são 99% idênticos.

Enquanto isso, nos dias de hoje, muita gente continua agindo como se houvesse uma grande diferença entre as raças humanas – e como se existisse uma hierarquia que as catalogasse como superiores e inferiores, melhores e piores.

Na última vez que a Seleção Brasileira jogou em Londres, torcedores escoceses atiraram cascas de banana no jogador Neymar. Na Itália o jogador Balotelli, único negro da Squadra Azzurra, foi agredido pelas manifestações racistas de um grupo de torcedores italianos. Na Rússia Roberto Carlos decidiu abandonar o campo em protesto contra atitudes discriminatórias vindas das arquibancadas. Na Espanha Marcelo foi hostilizado por manifestações xenófobas de torcedores do Atlético de Madri. O jovem jogador Lucas, da Seleção Brasileira, percebeu bem a contradição: segundo ele, é na Europa, é no “primeiro mundo” que mais se manifesta o racismo. A xenofobia e o racismo, porém, não se expressam apenas no futebol.

No ano passado, na Espanha, o Partido Popular da Catalunha apresentou um jogo de videogame protagonizado pela candidata às eleições regionais, Alicia Sánchez Camacho que, sob o codinome “Alicia Croft”, dispara contra imigrantes ilegais e os faz desaparecer. Na Suíça, o polêmico partido SVP produziu um cartaz em que um grupo de ovelhas brancas chutava uma ovelha negra para fora da bandeira da Suíça.

E no Brasil? Para quem pensa que tudo aqui é só futebol, carnaval e praia, nós temos também os nossos racistas e, entre eles, desfila como destaque o Deputado Federal Jair Bolsonaro. Esse, por sinal, tem ampliado o seu repertório de intolerâncias para além do racismo, agredindo com sua militância preconceituosa as mulheres e os homossexuais.

Não bastasse a lição científica da genética, convém convocar, para combater todo tipo de preconceito, a lição filosófica de Mihail Bakhtin para quem a palavra (prerrogativa humana) é sempre “uma ponte entre mim e o outro”: eu preciso do outro para identificar-me a mim mesmo, pois “é o excedente do olhar do outro que me constitui”.

Afonso Guerra-Baião

4 comentários em “Eu e o outro

  1. Acho que o Bolsonaro só coloca em alto e bom som o que muita gente pensa e não tem coragem de fazer. Aqui as torcidas têm tantos negros que os racistas não conseguem usar do expediente do grupo para praticar esse tipo específico de agressão. O que me consola é que, ainda que o Bolsonaro, tenha ganho meia dúzia de fãs com suas diatribes, ele não deve passar disso. Talvez o DNA do brasileiro, tão miscejenado, tenha algum anticorpo para impedir a infecção evolua para um câncer.

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