Maracanazo

Que as mulheres me perdoem, mas hoje eu quero falar de futebol. É verdade que estou um pouco atrasado – faz quase uma semana que o Brasil foi eliminado da Copa América. Pois, ainda sim, tenho o desejo de colocar no papel – ou na tela do computador – alguns dos pensamentos que me nasceram com o episódio. Antes de tudo, preciso dizer que gosto de futebol. Em geral, as pessoas acham que não. Sou um homem magro, muito magro, bastante desajeitado, desengonçado mesmo, tido como nerd, e ainda por cima uso óculos. Normalmente, as pessoas acham que tipos assim detestam esportes e passam os dias na frente do computador tentando descobrir meios de invadir os sites do governo. Pois não só gosto como, eventualmente, inclusive jogo. Não sou um craque, mas de vez em quando coloco a bola para dentro do gol. E posso garantir que muito dificilmente perderia um pênalti com tanta propriedade como perderam os jogadores do Brasil.

Mas não posso dizer que tenha ficado muito triste com a eliminação – não como na Copa de 1998, quando eu era um simples menino que, após a derrota para a França, se trancou no quarto e ficou emburrado o resto da noite. Na verdade, hoje é mais difícil torcer pelo Brasil. O que a gente faz é tentar esquecer o Ricardo Teixeira, os patrocinadores, a Rede Globo, e todas as sujeiras dos bastidores, para então se agarrar a algum sentimento patriótico que nos convença a querer que a Seleção vença. Isso poderia dar certo se, dentro do campo, o futebol apresentado fosse o mesmo que nos fez ter a fama de melhores do mundo. Como os resultados mostram, não é – e está cada vez mais longe de ser.

O Brasil parece ter se perdido em sua própria memória de sucesso. Ficamos convencidos de que somos eternamente superiores e que conseguiremos vencer ao natural. E, por isso, continuamos a jogar do mesmo jeito, só que agora a superioridade é apenas soberba. As seleções menores, como era natural, aprenderam a jogar com o Brasil. E nós não percebemos isso – ou, se percebemos, não foi suficiente para achar que deveríamos mudar alguma coisa. Geralmente dizem que é difícil jogar contra times pequenos porque eles se fecham na defesa. Bolas, se sabemos que eles fazem isso, e se acreditamos que somos os melhores do mundo, já passou do momento de acharmos estratégias para superá-los. Sem elas, de pouco vale ter bons jogadores de ataque.

Talvez uma dessas estratégias seja jogar como time pequeno – talvez. Quem sabe a gente precise diminuir pra voltar a crescer. No fundo, imagino que os brasileiros queriam que jogássemos como o Uruguai. No papel, o time é inferior ao nosso. E eles provavelmente sabem disso. O que eles fazem é se entregar e jogar com raça – coisa que nós não sabemos. Nossos jogadores são eliminados de forma vexatória, mas nenhum deles é capaz de chorar amargamente, pedir desculpas e se dizer envergonhado. No instante seguinte, estão dando entrevistas calmamente, falando em levantar a cabeça, e lamentando que não foi o dia do Brasil. Não é possível esperar muita coisa de um time assim.

Espero que não precisemos de outro Maracanazo para aprender.

3 comentários em “Maracanazo

  1. Jogar como time pequeno é também ter uma garra, uma vontade de vencer enorme e contagiante. Gosto de sentir isso vendo um jogo e por isso costumo assistir aos jogos do Brasileirão B. Ali, a fama, a grana absurda ainda não amoleceram os jogadores e eles tem ganas de sair vencedores. E sabem jogar em campos de gramado duvidoso inclusive, como nos jogos de várzea. Lucra quem assiste.

    E não precisa pedir desculpas às mulheres. Muitas gostam de futebol desde crianças também – no meu caso desde 1960 – e inclusive, mulheres jogam futebol com garra e qualidade!

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