Peço licença ao amigo para contar uns causos

“Até 82 a gente não sabia o que era roupa por aqui. Depois foi só roupa, roupa, roupa.” Foi assim que Danilo contou a mim e a dois amigos o que foi o achamento de Jericoacoara, vila litorânea do Ceará, por uma inglesa e seu amigo paulistano. Antes não tinha nada disso. Seus pais e seus antepassados, muitos deles descendentes de índios, não tinham nada que ver com isso. E prossegue contando que a terra ali é encantada. A Pedra Furada não surgiu do confronto entre o mar e a pedra. Aquilo é uma ponte. Uma passagem que as pessoas das grutas, os encantados, fizeram há muitos anos.

O jeito era dar corda pra saber o final. Nem precisamos pedir duas vezes ao Danilo, nosso charreteiro, para ele desenrolar. Essas histórias têm muito de mentira e de verdade, mas como a gente não sabe a diferença, conta tudo, disse e eu repito aqui. Uma prima dele foi vítima de uma aparição dessas. Ela estava no morro a caminho da pedra com umas amigas e se afastou poucos metros do grupo. Nisso, uma cobra com cara de homem e olhos azuis surgiu e a abraçou com todo o corpo.

Cobra macho, amigo, ela estava decidida a beijar a moça. E na boca. Parecia até aqueles moços que a gente encontra na balada. Arrochava mais e insistia. Como se com aqueles movimentos de serpente artista, ela tentasse hipnotizar a presa. A cada investida, o bicho ficava mais determinado e a moça no sufoco. Não se sabe o que quebrou o encantamento, mas as amigas finalmente deram pela falta dela, o que fez a cobra, que era um príncipe, soltar o abraço e se embrenhar no mato.

A oeste de Jeri, em Tatajuba, as dunas em poucos meses varreram pro lado uma cidade. O povoado antigo submergiu em areia. Em um abrigo coberto por palha seca, vendem-se cocos, conchas para se ouvir o mar e lembranças. Estas são oferecidas por uma velha senhora, que num pique de repente, fala da tempestade de areia, do navio que está escondido sob a maior das dunas brancas e de como o pai dela foi seguido por uma mulher de branco em noite de luar. Bonita ela vinha alguns passos atrás dele. Ele corria, ela também. Ele parava, o mesmo ela. De repente, ela ajoelhou-se e ergueu os braços aos céus. Quando ele foi saber se ela rezava, ela se desfez de súbito. Houve testemunhas, mas ninguém deu queixa do sumiço.

A manicure disse que a cidade é um portal. Que os espíritas já sabiam há tempos. Por isso os de fora, estrangeiros de Andorra a Israel, de São Paulo ao Piauí, conseguem relaxar ali. O que posso dizer? Tenho um acordo antigo com os seres do desconhecido: eles lá e eu aqui, consta nas letras miúdas. Mas eu, como eles, trapaceio um pouco. Quero sempre espiar o que andam fazendo. E isso em São Paulo não dá pra fazer, nosso encantamento é noutros termos.

Aline Viana

4 comentários em “Peço licença ao amigo para contar uns causos

  1. Tô com inveja desses cronistas viajantes, que não páram quietos. Uma tá no Ceará, outra tá na Bolívia, outro ia pra Ouro Preto. E eu? Apenas leio. Mais uma vez, sua crônica está escrita com texto impecável, e causos assim são capazes de passar uma visão muito interessante da cidade.

    1. Oi, Henrique,

      Tudo bom?

      Então, eu estava quase há um ano e meio sem férias e os últimos seis meses foram particularmente puxados. Resolvi me conceder um mês de férias mesmo, daquelas de propaganda de companhia de turismo, com direito a viagens, acordar/dormir tarde, ter sol todos os dias. É uma experiência que recomendo a todos, rsrsrs

      Beijos

    1. Pôxa, Marina,

      Obrigada pela mensagem tão bacana!
      Também não quero desfazer as malas – e nem embarcar no avião gripada de novo, rsrsrs

      Bjs

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