Eu vou

Sexta. No carro, vamos indo. O relógio continua me perturbando, contando os segundos para levar meu fim de semana, mas eu jogo essa coisinha asquerosa pela janela, pego a canga e, depois daquela pedra, tudo fica verde esperança com respingos de amarelo delícia no nosso capô. O dia amanhece limpo e lindo, o céu estalando de tão azul e assim que ele olhou para mim, eu disse “eu vou”! A praia estava vazia, o coco trincando de tão gelado, o mar piscando de um jeito sapeca e a areia impacientemente esquentando meu pé. Virei e disse: já fui! Os meninos bronzeados, as meninas de biquíni – pára de olhar! – , o sol todo enrolado no meu corpo, a água escorrendo fria pela minha barriga, o garçom me olhou com o sorriso de cúmplice mais fiel da orla e eu digo feliz “pode vir”! A onda quebra na praia, aparece uma estrela laranja que sussurra “me leva” e eu ganho esse presente de Iemanjá. Sua benção do mar. E eu sou. Levei. Uma explosão no horizonte, alguém chutou um balde de tinta rosa no céu, as estrelas começam a pipocar brilhantes e acho que vi um ser em uma bicicleta cruzando a Lua redonda. Dou um tchauzinho, olho para ele e sei que a gente pensa “vam’ embora”! Já fui! Sonhei. Ficar aqui para o resto da vida, sem conta no banco ou CPF, como um grão no chão… ao léu… Um nada. Um nada cheio de vida e fora da correria para tentar ser um nada no degrau de cima. Prefiro. Só que não tem jeito. O coração do papai não ia aguentar. E isso é o suficiente para me deixar na forca. Eu fico. E meu medo? Deus dá o frio conforme o cobertor, né mãe? Mas o problema é que conheci o edredom. Enfim… E ela chega, sinuosa e escorregadia, preparando o bote, já dá para sentir o aperto no pescoço… A segunda. Acordo pensando “tenho que ir”. Mas ainda tenho a soneca, só mais cinco minutinhos de paz e volto para o sonho de ser hippie, morar no oco da árvore, fazer artesanato de durepox, usar dread colorido e acreditar que minha juventude vai durar para sempre como nos filmes de Woodstock. E quem disse que não vai… Eu vou! Ah, Jeri…

Marina Costa

5 comentários em “Eu vou

  1. “O dia amanhece limpo e lindo, o céu estalando de tão azul e assim que ele olhou para mim, eu disse “eu vou”!” Ah, Marina! você pintou tão bem cada descrição, cada impulso latente na alma da gente, que a minha vontade era a de pegar o primeiro caminhão que passasse na BR e botar meu pé na estrada e beber horizontes!

    Já fiz um mochilão esse ano. E textos como o seu – dotados de beleza e simplicidade – só acabam por me deixar ainda mais inspirado para mais uma aventura! Aliás, estarei viajando amanhã para Ouro Preto – Festival de Inverno. Ocê é mineira, num é?

    1. A Marina não é apenas mineira, é do mundo. Agora mesmo tá lá pelas bandas da Bolívia e Peru. O texto tem tudo a ver com esse espírito mesmo.

  2. Ohhh Alex, sopu mineira, pena nao estar ai para poder te acompanhar nos deleites de nossas montanhas! Mas aproveite e digo a todos, mochila e pe na estrada que o mundo é grande demais para a gente ficar quietinho!!

  3. É engraçado ver um sonho hippie em 2011… Eu o vivi em 1968, 69, por aí e era diferente desse sonho mas era realidade, por isso era diferente.

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