Arquivo do mês: julho 2011

Entardecida

A luz laranja do entardecer entra sutil pela janela semi aberta da sala. Ilumina o livro melancólico esquecido sobre o aparador e lança raios dourados sobre uma cabeça baixa que, silenciosa, pensa sobre a morte. Sobre como o corpo outrora belo e jovem, fenece e como o sorriso claro de ontem, a gargalhada estridente sempre ouvida se anulam e se transformam em boca silenciosa e pálida, seiva ausente e seca. Sem encontrar justificativas ou mesmo razões divinas, cai em devaneios mais e mais negros, à medida que avança o dia. Extinguem-se as horas. Com pouco o sol finda e a brisa da noite iminente esfria os ombros magros e nus, cansados de tanta memória. Cai a lágrima que lamenta a perda. Desaba o pranto que tanto teme o fim.

Marina Costa

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Milagres possíveis

Vai fazer cinquenta anos que Arthur Penn, no filme “O milagre de Anne Sullivan”, recriou em dimensão estética um drama real: aquele vivido por Helen Keller e Anne Sullivan.

Imagine uma menina muda. Não só muda, mas também surda. E que, como se não bastasse, era cega. Essa era Helen Keller. Anne Sullivan foi a persistente professora que assumiu o desafio de ajudar aquela menina a interagir com o mundo, adquirindo meios de interpretá-lo e modos de expressar-se.

De um ente selvagem e inválido, Helen Keller se transformou, pela mão afetuosa mas firme de sua mestra, num ser humano em plenitude, vindo a ser mais tarde uma escritora, filósofa e conferencista de renome internacional, que sempre militou em favor das pessoas portadoras de deficiências.

A lembrança do milagre de Anne Sullivan me faz pensar nos mestres e mestras que, hoje, em Minas Gerais, enfrentam um outro desafio: o de se fazer ouvir por um governo surdo, cujos ouvidos moucos não percebem suas justas reivindicações, mesmo quando feitas através de manifestações públicas, numa greve que já dura meses; o de fazer com que um governo cego consiga ler e entender a lei federal do piso salarial; o de fazer com que um governo insensível, anestesiado pela frieza burocrática, abrace a causa da educação, condição de todo progresso.

Será que, para vencer esse desafio, os profissionais da educação de Minas precisarão fazer um milagre?

Esse milagre poderia acontecer se o governo de Minas aprendesse com os nossos mestres uma lição: a de que é preciso ter a coragem, a ousadia de seguir um sonho e lutar por ele, superando o imobilismo conservador.

Cumprir a Lei Nacional do Piso é um perigo para as contas do governo?

Vamos abrir nossos ouvidos para a voz de Helen Keller:

“Evitar o perigo não é, a longo prazo, tão seguro quanto se expor ao perigo. A vida é uma aventura ousada ou, então, não é nada”.

 Afonso Guerra-Baião


A mão errada

Antes de mais nada, preciso confessar uma coisa: eu escrevo com a mão errada. E sempre foi assim. Ainda no jardim de infância, eu usava a mão esquerda para segurar o giz de cera. Meus pais são destros, e a chance de terem um filho canhoto beirava os 2%. Tive, é verdade, a felicidade de nascer numa época em que pessoas como eu não precisam mais morrer na fogueira. Mas isso não significa que a minha vida tenha ficado mais fácil. Os problemas começam já pela manhã: se estou mal-humorado, alguém me pergunta: “Levantou com o pé esquerdo, foi?”. E, ao longo do dia, sempre existe alguém pronto a me questionar se eu não fizer algo direito. Eu poderia suportar muito bem tudo isso se, na vida prática, o mundo estivesse preparado para pessoas como eu.

Não está. E isso vai muito além das tesouras e dos abridores de lata. Um dos meus maiores medos na infância era escrever no quadro-negro. Havia um risco enorme de eu apagar com o canto da mão tudo aquilo que ia escrevendo. Faça o movimento e perceba, você que é destro. Isso sem falar naquelas cadeiras que são mesa ao mesmo tempo: são feitas para escrever no lado direito. Até existem algumas, raríssimas, em que a mesa fica no lado esquerdo. O grande problema é que, quando um canhoto encontra uma dessas, geralmente já existe um destro sentado nela.

Existem ainda, em repartições públicas e bibliotecas, aquelas canetas amarradas a um barbante. Adivinhem de qual lado elas costumam estar amarradas? É preciso fazer verdadeiros movimentos de contorcionismo para conseguir escrever – talvez seja por coisas assim que os canhotos costumam ter grande habilidade.

Pra piorar, existem estatísticas mostrando que canhotos morrem em média nove anos antes que os destros. Isso é uma grande balela. Existem menos canhotos que destros, e se acontecer de um deles morrer ainda na infância, por exemplo, já puxa a média de todo mundo lá para baixo. Por isso é tão importante que os canhotos tentem sobreviver.

Nos esportes, há algumas vantagens. Dizem que tênis favorece os canhotos. Uma vez participei de um torneio de tênis de mesa e ouvi de um adversário: “Uau, ele é canhoto”. Era como se eu projetasse raios laser. Impunha respeito. No futebol, poucas coisas são mais valorizadas do que um meia-esquerda. Ao mesmo tempo, os comentaristas costumam alertar sobre o risco de colocar dois canhotos para jogar um ao lado do outro – é possível ter 11 jogadores destros, mas dois canhotos certamente se atrapalharão, trombarão, escorregarão, estragarão tudo. Da minha parte, tenho a vantagem de chutar com os dois pés – um de cada vez.

Um verdadeiro canhoto costuma citar uma lista de celebridades que também são – é uma tentativa de provar que também servimos pra alguma coisa. Paul McCartney é o mais citado. E também Einstein, Charles Chaplin, Da Vinci, Machado de Assis, Jimi Hendrix, Beethoven, Michelângelo, Gandhi, Picasso. É uma lista de dar inveja. Fidel Castro também – esse, se não fosse canhoto, provavelmente deceparia a mão direita apenas para poder sê-lo. É claro que ninguém se lembrará de Adolf Hitler e Georg W. Bush.

Aliás, não existe nenhuma evidência de que o próprio Jesus Cristo não fosse canhoto. E conversando com outro canhoto – é bom que os canhotos se unam para conversar sobre o problema, como os alcoólicos, por exemplo – cheguei a uma descoberta que, afinal, me tranquilizou: se Deus escreve certo por linhas tortas, só pode mesmo ser canhoto.

Henrique Fendrich


Urso de pelúcia

Sempre tive certo apego às coisas ligadas à minha infância. Talvez por serem atalhos ou detalhes que minha mente não mais traria à tona, ou por derivarem de alguma ocasião especial. Ainda guardo comigo alguns peduricalhos de festinhas de quinze anos e trabalhinhos da minha época de escola, mas minha maior “relíquia” veio de longe, lá do outro lado do Altântico.

Portugal, final da década de oitenta. Eu, do alto dos meus três anos de idade, dando um rolê pela terrinha. Minha memória de nada me ofertou para relatar aqui, mas nada muito diferente de um passeio pela Torre de Belém ou pelos castelos de Sintra. Mas foi por lá que encontrei a maior de todas as minhas recordações, que minha mãe diz ter sido amor à primeira vista. Abracei um urso de pelúcia, praticamente do meu tamanho, e só fui soltar ao chegar no Brasil.

Eu era daquelas crianças que não tinha qualquer cuidado com brinquedos, praticamente um serial killer dos bonequinhos. Mas com o urso era diferente. Guardo até hoje uma foto da copa do mundo de 1990, ele e eu vestidos com a camisa da seleção. Tecnologias, video-games, bonecos, carrinhos, tudo possuía prazo de validade, menos meu urso. E nem precisava.

Mas a vida me deu rumo. Doei boa parte dos meus brinquedos, mas o urso continuava comigo, não mais tão bonito e vistoso como em tempos atrás. Um trapo pra quem olhasse de fora, mas pra mim era a chama da minha infância cultivada da maneira mais preciosa. Um apego um tanto desproposital, mas repleto de afeto. Tinha a impressão que aqueles seus olhos de botão já gastos pelo tempo conseguiam ler minha mente. Gostava de deixá-lo em cima da minha cama, me vigiando. Havia propósito.

Meu urso comprava a minha saudade.

“Matar saudade” é a frase mais descabida que conheço. Saudade é imortal. Quando pensa ter batido as botas, volta com mais intensidade. Nem tento mais matar as minhas saudades. Eu as reciclo, as transformo de passado pra presente. São portarretratos que saltam à minha mente.

Talvez por nostalgia, talvez por carência, precisamos manter eterno contato com nossas saudades. Precisamos de um elo com nossa infância, para pegarmos carona no barquinho de papel de Toquinho na propaganda da Faber-Castell, no choro de quem faz pirraça pra não ir à escola, num abraço apertado naquele seu melhor amigo de pelúcia. A infância nos torna mais humanos. Nos faz enxergar a vida através do paradoxo que é a ingenuidade de uma criança com coração purificado, preparando-se para ser triturado pelo nosso mundo subdesenvolvido. A ingenuidade nos deixa mais próximos de Deus, por isso é coisa de criança. Desaprendi a ser eternamente ingênuo.

Faz um tempo que não vejo meu urso. Deve estar empoeirado, dentro de um caixote qualquer em algum canto da casa, esquecido, aguardando o momento de voltar a enfeitar meu quarto e me fazer criança de novo.

Brunno Leal


O Murmúrio dos Sinos

Foi em sonhos que Karina ouviu o murmúrio dos Sinos. A princípio, demorou em atinar no que os sinos queriam lhe dizer. Porém, badalavam os Sinos incessantemente, bem longe da janela do seu quarto. Para além daqueles edifícios, onde telhados e antenas de tevê recortavam cruelmente sua paisagem.

Os Sinos lhe ofereciam sonhos de simplicidade. Ela imaginou que – por um capricho seu bem peculiar – esses sinos deveriam estar a soar em algum campanário de alguma cidade mineira, Ouro Preto ou São João Del-Rei. Ou mesmo, refugiados entre montanhas de um país secreto que ninguém pisara. Desde então, Karina passou a persegui-los furiosamente, tal qual um cavalo selvagem que ignora regalias e porteiras. Tomada de súbita esperança, confiou seu destino a Eles, e galopou no mais imponderável dos caminhos. Caminhava descalça sobre estradas de ferro e pulando os trilhos como quem pula amarelinha.  Às vezes tinha medo, a tremenda solidão no ermo das estradas, e só pedia que nenhum trem lhe surpreendesse o caminho, com sua fúria de comércio e gravidade.

Às vezes acontecia de Karina ouvir dentro de si o desespero ganhando corpo. No entanto, mantinha-se atenta à promessa dos Sinos. Eles lhe ofereciam tanto e tão pouco: chuva, luz e vento, um girassol pousado entre os cabelos, uma cidade após outra, um amigo em cada vilarejo, descobertas a não poder mais e amplidões de estrada virgem.

Trazia sua flauta doce à boca, sabia necessário povoar a solidão das estradas com as mais ousadas melodias. Caminhar a deixar a camisa aberta, sentir nos seios a carícia dos ventos, deter-se durante muito tempo à sombra de alguma árvore prazenteira, beber água de algum arroio, acender um cigarro e não pensar em mais nada: olhando não olhando aquelas nuvens que passam, como uma vaga procissão de carneirinhos vagando livres no espaço, despojados de qualquer mistério, sem nenhuma metafísica.

Com o passar do tempo Karina já não se sentia mais tão sozinha, na estrada seus passos foram se tornando cada vez mais firmes e puros, o seu ar povoado cada vez mais pela música e pelo silêncio mais acolhedor: qualquer coisa inominável. De resto, bastava-lhe ouvir silenciosamente o murmúrio dos Sinos, ajeitar o ipê amarelo nos cabelos e seguir alegre no mais impoderável dos caminhos!

Alex Canuto de Melo


O meu nome é próprio

A minha sala de aula tinha pares de “Danielas”, “Julianas”, e “Priscilas”, uma “Aparecida” e outra “Daniela Aparecida”. Em todas as turmas do antigo quinto ano só tinha uma “Aline”. “Aline Viana”, então, era único na escola. Exclusivo. Só sentia falta de um apelido, coisa que as outras tinham. Anos depois, com a internet, meu nome tornou-se cobiçado no mercado.

Daí fiz colégio, faculdade, abri contas de e-mail. Alguma “Aline Viana” do mundo conseguiu o privilégio de registrar-se antes de mim no Hotmail e no Gmail. Bati pé e inscrevi-me sem adotar como codinome algum numeral ou apelido. Ficou algo simples e elegante o bastante para divulgar nos milhões de currículos que enviei ao longo da vida.

Mas agora as sombras têm reivindicado o que é meu. Nome, e-mail, memórias e sanidade mental. E é um nome perfeitamente quitado, segundo minha mãe.

Elas criam um e-mail bem parecido com o meu. Daí distribuem por aí para quem não interessa, talvez. Como quem troca um número na seqüência do telefone para despistar alguém. Ou tentam me ganhar pelo cansaço.

Nessas já tive família em Recife. Meu pai virtual me recomendava cursos de língua, meus tios enviavam piadas. Apagava tudo sem ler. Imaginei que fossem notar que a outra nunca respondia e checassem. Até que minha mãe de Pernambuco me cobrou nos termos mais enfáticos por não visitar o tio Alfredo no hospital. Com foto do paciente e tudo. Mamãe, preciso fazer uma revelação: a cegonha trocou os e-mails.

Outro dia, foi um suposto irmão, com nome de desembargador, que me procurou, querendo saber da recuperação do braço quebrado. Respondi à genntileza: “irmãozinho querido, somos parentes não. Procure aí o e-mail da maninha e sucesso”. O brother, em sublime juridiquês, me chamou de ursupadora, queria saber quando abri minha conta. Ora, faça-me o favor, além de desinformado ainda vem me perguntar a minha idade! Eu vi primeiro e não tenho que contar nada. Abri, é minha e não dou, não empresto e nem vendo, tá me entendendo?

O último foi um hermano que diz ter me conhecido por essas veias abertas do continente. Pedia o contato de um professor uruguaio porque queria precisava encontrar algumas maria-joanas e contava que tinha me trazido alguns alfajors lá da capital. Apesar da dor no coração, pelos doces que amo, fui honesta. Não te conheço, amigo. Não tive professor uruguaio. Podia ao menos mandar o alfajor, o ingrato.

Pra não dizer dos vírus. Que enviados em meu nome, por alguma retardatária com menos espírito esportivo, o sujou em algumas praças. Pois é, em algum lugar, tem uma Aline Viana terrorista. Que queima o próprio nome. Essa deveria arder no mármore do inferno.

Nem assim coloco o nome à disposição. Não que ache que irá se valorizar mais, mas é que tem um valor afetivo, sabe? Ganhei de mamãe.


Aline Viana


Noivas do Cordeiro

Lya Luft escreveu em um dos seus artigos para a Revista Veja sobre Três destinos femininos. Um destes destinos se refere a Noivas do Cordeiro. Eu li, recortei e guardei e agora escrevo sobre ele.

Ela relata que participou como narradora de um documentário feito sobre essa comunidade rural mineira. Mesmo sendo aqui das alterosas eu só tomei conhecimento dessa história recentemente através de uma reportagem feita pelo Estado de Minas. Quando li a reportagem meu espanto foi imenso. Lya comunga do meu espanto. Ao ler o texto que escreveu resolvi pesquisar na Net e também escrever sobre o assunto que só agora está se tornando conhecido.

No século XIX uma jovem moradora do povoado de Roças Novas casou-se com um descendente de franceses, Arthur Pierre. Seu nome era Maria Senhorinha de Lima. Nem bem casou-se e já havia se arrependido. Após três meses de vida em comum ela abandonou o marido e foi viver com Chico Fernandes. Considerando-se o tempo e o espaço onde tudo aconteceu a Tradicional Família Mineira entrou em ação. Como uma mulher ousava fazer isso? A Igreja a excomungou e ela tornou-se uma pária. Prostituta. Como se atingido por um raio o preconceito se alastrou e envolveu toda a sua descendência. Filha de prostituta, prostituta é. E a coisa ficou feia por várias gerações obrigando-os a viverem de forma isolada, sem contato com outros povoados e cidades da região. Nem se tivessem doença contagiosa seriam tão segregadas.

Já no século XX, na década de 40, um pastor evangélico, Anísio Pereira, se apaixonou por uma dessas mulheres mal faladas. Mudou-se para lá e casou-se com ela. Ou casou-se com ela e mudou-se para lá. A ordem eu desconheço mas não tem nenhuma importância para o desenrolar da história. O importante é que fundou uma Igreja – a Igreja Evangélica Noivas do Cordeiro, nome que também passou a ser o da comunidade. A adesão a nova Igreja foi total: abandonados pela Igreja Católica, buscavam um resgate espiritual. Mas, em vez de melhorar, tudo piorou. Além da rigidez da nova religião o preconceito aumentou já que o catolicismo predominava nas regiões vizinhas. Compreendendo que não haviam tido nenhum benefício as mulheres foram se afastando e acabaram dando um fim na Igreja. Sem dogmas, mas não sem fé, continuaram a viver.

Noivas do Cordeiro está situada na região central de Minas, na área rural de Belo Vale, a cem quilômetros de Belo Horizonte. Ali vivem cerca de aproximadamente 250 mulheres e suas famílias. Os homens, quando chegam a idade adulta saem para trabalhar e só voltam nos finais de semana. A comunidade é mantida pelas mulheres que se organizaram em associação, onde tudo é de todos. Direitos e deveres iguais. Uma sociedade igualitária.

Foram anos e anos de luta para tornar as suas vidas mais fáceis. Párias não têm direitos. Tudo era muito difícil: escola, saúde, emprego, integração social. Auto-isoladas,criaram um mundo próprio estabelecendo as próprias regras. Depois da reportagem do Estado de Minas as mudanças começaram. Hoje, estão se globalizando: TV, internet, são conquistas recentes. Agricultoras e artesãs, fabricam tapetes, colchas, bolsas e outros artigos de fuxico além de roupas íntimas: calcinhas e sutiãs vendidos de porta em porta e comprados com desprezo ou até asco (nem de graça compro delas) graças a exposição na mídia estão se tornando objetos de desejo.

Se quiserem saber mais é só procurarem no Google. São vários os links que tratam do assunto e foi neles que pesquisei. O documentário foi passado pela GNT e provavelmente será reprisado. No entanto fico aqui pensando: com o tempo a individualidade da comunidade se esfacelará. Noivas do Cordeiro será apenas mais um lugar onde todos querem ter direitos mas nenhum dever. Terá valido a pena?

Maria Olímpia Alves de Melo