O Homem da Bicicleta de Uma Roda Só

Sentei na última fileira do ônibus, exatamente no banco do meio. Não havia muitos lugares vagos. Eu mal havia sentado e na parada seguinte a porta de trás se abriu. Por ela entrou um homem negro, entre 25 e 30 anos, e quase careca – a exceção eram alguns fios, parecidos com os da Medusa, espalhados aqui e ali. Mas o homem não estava sozinho: trazia consigo um monociclo. Ou, em português, uma bicicleta de uma roda só, daquelas de circo. Era altíssima. Quase batia no teto.  Com cuidado, conseguiu se acomodar dois bancos à frente de mim, ao lado do corredor. A bicicleta ficou em pé. Com uma mão, ele segurava um dos ferros do ônibus e ao mesmo tempo prendia a bicicleta. Fiquei reparando melhor naquele veículo e me admirei que uma pessoa conseguisse se equilibrar nele.

Enquanto isso, o ônibus enchia. Eu já estava para descer quando parou na frente da porta um homem daqueles que acham possível ficar em pé dentro de um ônibus  com uma mochila nas costas. Eu já estava achando ruim ter que me desvincilhar desse homem, e então o homem da bicicleta deu uma cutucada nele e perguntou se iria descer na próxima. O mochileiro disse que não. Pois bem. E então cedeu espaço para que o homem e sua bicicleta passassem, e tratou de sentar no lugar em que ele estava. Pude então me levantar com certa tranquilidade e também me preparar para descer. Achei que o homem da bicicleta desceria no ponto seguinte, mas não. Deixou passar. Puxou a cordinha para descer no próximo, que era também o meu ponto. Descemos então, nós e a sua bicicleta.
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O ônibus ainda ficou parado por um tempo, carregando pessoas. Ao passar pela frente dele, o homem da bicicleta fez um sinal de positivo para o motorista e disse ainda “Deus te abençoe”. Só então me dei conta de que ele não havia pagado a passagem. Ultrapassei o homem e me dirigi para a faixa de pedestres, onde uma bonita moça já aguardava que o sinal fechasse. O homem chegou até lá e também deu mostras de que iria atravessar. E não ficou muito tempo esperando, foi logo atravessando. Achei que era um maluco inconsequente, e então percebi que o sinal já estava fechado, e tratei de atravessar também, com a mocinha bonita. Chegamos até a metade da rua, que tem duas pistas. O homem conseguiu atravessar a outra metade. Eu demorei um pouco, e a mocinha ficou.
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Continuamos então andando na mesma calçada, eu e o homem com sua bicicleta. Novamente comecei a reparar em seu veículo, e tive o desejo de pedir que subisse em cima daquele negócio e fizesse com ele tudo que costuma fazer. Estava curioso para ver em detalhes como ele faria. Naturalmente, não pedi coisa alguma, e observei então que ele estava se encaminhando para o mesmo mercado que eu iria. Dito e feito. Entramos no mercado. Por um instante me passou pela cabeça se ele levaria a bicicleta para o guarda volume. Nada. Entrou com ela, pegou uma cesta e logo em seguida, sem perceber, acertou uma verdadeira cestada na cabeça de uma pobre senhora que saía do mercado. Ela reclamou alguma coisa em voz baixa. Mas o homem nada viu, nada sentiu.
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Subitamente, senti meu corpo estremecer e veio então a revelação: estaria eu diante de um personagem? Aquilo pelo qual jornalistas e cronistas dão a vida: alguém que ilustre as suas matérias ou as suas histórias. Já certo de que sim, era um personagem que o destino tinha me colocado nas mãos, comecei o meu trabalho de investigação. Passei a observá-lo. Foi para a seção de frutas. Ficou olhando os kiwis e colocou um só dentro da cesta. Foi ver as bananas e pegou algumas – e inclusive comeu outra, sem a menor cerimônia. Em seguida ficou analisando as linguiças calabresas. Analisou, analisou e não comprou nada. Foi pro açougue do mercado. Fez uma pergunta que não ouvi. Tudo o que sei é que não comprou carne nenhuma – pude ver depois o conteúdo da sua cesta.
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A essa altura eu temi que já estava dando muito na vista a observação que eu fazia do meu personagem. Eu já havia passado por boa parte das prateleiras daquela seção, e olhado com muito interesse coisas que não me interessavam. Decidi então ir fazer as minhas compras e então voltar para a seção, pois o homem dava mostras que ainda iria passar um bom tempo lá – ele havia inclusive largado a bicicleta no chão, perto das calabresas. Fui então atrás das poucas compras que tinha em mente e logo voltei. O homem agora estava nos pães. E pelo que percebi não havia pão fresco ainda. Ouvi então ele comentar com um senhor, também interessado nos pães, que toda noite ele pegava pão fresquinho lá, e que inclusive não conseguia resistir e ia comendo no caminho para casa.
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Fiquei mais um tempo próximo a ele, a fim de ver se fazia ou falava alguma coisa extraordinária, dessas que um personagem geralmente faz. Mas tudo que vi o homem fazer depois disso foi ir com a sua bicicleta até a prateleira de bebidas, e algum tempo depois voltar para ver se por acaso já havia saído pão fresco. Logo em seguida eu perdi o homem de vista. Dei uma passada por todas as prateleiras e não o encontrei. Decidi então ir para o caixa e  pagar as minhas compras, na esperança de que ele em breve aparecesse por lá também. Pois não apareceu. Apenas quando saía do mercado é que vi de relance o homem e a sua bicicleta. Estava olhando um produto que não consegui identificar perto da prateleira de leite. Pensei em ficar na entrada e esperar ele sair, mas isso já era demais.
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Mas o que há afinal de extraordinário na história do homem da bicicleta de uma roda só? Nada. Não há rigorosamente nada. Diante disso, eu sugiro que não bisbilhotem a vida alheia.
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