Chutou pra fora, sai!

Outro dia, o Joseph Blatter defendeu o fim da decisão por pênaltis no futebol. Diz ele que o futebol é um esporte coletivo – deduzo então que nos pênaltis a decisão é individual. E uma decisão assim tira a essência do futebol. Melhor acabar com isso, portanto. Seguindo por esse raciocínio, seria de bom alvitre acabarmos também com o gol contra, ou com o frango do goleiro – erros bastante individuais. Na verdade, seria conveniente inclusive acabar com o gol de placa, nascido da habilidade individual de um único jogador.

Seria o caso de estabelecer um número mínimo de jogadores para participar de cada jogada. Pelo menos cinco jogadores do mesmo time deveriam tocar na bola depois do meio campo para só então alguém chutar a gol – e chutes normais, nada de trivelas ou outras artimanhas de gente exibicionista. Esporte coletivo. Uma arrancada como a do Diego Souza contra o Corinthians seria proibida. Individual demais. Se erra – e ele errou – vira culpado individualmente. Não foi o Vasco quem errou. Foi ele. E se acerta, o culpado isolado é quem perdeu a bola. Para evitar esse tipo de coisa, a regra seria clara: tentou jogada individual, é falta e cartão amarelo.

Em todo caso, já que se começou a questionar a decisão por pênaltis, seria interessante pensarmos desde já em novas formas para desempatar uma partida. Por exemplo, fazer igual ao basquete: dá-lhe prorrogação atrás de prorrogação. Se preciso for que os jogadores fiquem madrugada adentro tentando terminar na frente uma prorrogação, que assim seja. Morrerão todos de cansaço, mas morrerão coletivamente. O simples sorteio tira a essência do futebol, já que premia o sortudo, e não o competente.

Mas tenho para mim que o melhor critério de desempate seria realmente aquele praticado nas quadras de futsal da minha escola durante a infância. Como havia sempre mais de dois times nas aulas de Educação Física, e como, depois de passado certo tempo, o jogo continuava sem vencedor, alguém berrava lá do banco de reservas aquelas terríveis palavras, para nós extremamente justas:  CHUTOU PRA FORA, SAI!

Palavras não descrevem a mudança que se passava então no comportamento dos jogadores. De repente, ninguém mais queria chutar ao gol. Ninguém mais saia correndo com a  bola, e ninguém tentava driblar o adversário. Ninguém tentava sequer tirar a bola dele. Todo cuidado era pouco para que a bola não batesse na nossa perna e saísse da quadra. Jogadores chegavam a caminhar com a bola, acompanhados do seu marcador. Os passes só aconteciam se a pessoa estivesse muito próxima e não houvesse nenhuma possibilidade de errar. Eis aí o futebol dependendo mais do que nunca das estratégias.

Quem está com a bola poderia muito bem enfiar uma bicuda no primeiro adversário que encontrar pela frente, na esperança de que a bola bata nele e em seguida saia pela lateral. Isso será a vitória total, o direito de permanecer em quadra. Mas as coisas não são tão simples assim. Quem garante que o adversário não vai se desviar do chute, fazendo a bola correr direto pro fundo da quadra? Não, muita calma nessa hora. É preciso pensar e aguardar o momento certo, o gesto certo. São momentos de tensão. E nesse lenga lenga os dois times podem gastar minutos, para desespero do time que aguarda ansioso pela sua entrada.

Agora imagine esse emocionante método aplicado em jogos oficiais. Na Copa do Mundo de 2014, por exemplo. Brasil e Argentina na final. Zero a zero no tempo normal e o jogo vai então pro Chutou pra Fora Sai. É em um momento como esse que poderemos realmente comparar Messi e Neymar. Pra driblar e fazer gols bonitos, sempre vai existir alguém. Eu quero ver quem é bom mesmo mantendo a bola dentro de campo e levando o adversário a tocar nela antes de sair. Ninguém mais treinará pênaltis. Treinarão equilíbrio e domínio de bola. O que fará bem inclusive ao tempo normal da partida.

E aproveitando, quero sugerir ainda ao presidente da Fifa a exclusão dos gandulas, que volta e meia se envolvem em confusão, seja atrasando ou acelerando o andamento das partidas. Que se estabeleça a mesma regra já praticada com muita eficiência em todos os campinhos de futebol pelo Brasil afora: QUEM CHUTA BUSCA. Sem sombra de dúvida isso contribuirá para que nossos jogadores pensem duas vezes antes de chutar a gol, e consequentemente se esforcem para melhorar a pontaria.


O valor pedagógico da (des)ilusão

Que atire a primeira pedra quem nunca se iludiu. Atire duas pedras quem não está, no momento, iludido com algo ou alguém. Fantasiar é do ser humano e, talvez por isso, não haja experiência mais enriquecedora em fórum íntimo do que uma boa e dolorosa ilusão. Ou desilusão, que é quando a ilusão é arrebatada pelo discernimento.
Se me permitem os fiéis leitores, faço uma adaptação do devaneio de Descartes: se me iludo, existo.
Perpassemos o campo amoroso, fértil no centeio de ilusões, por um breve instante. O amor nos conecta e, paradoxalmente, nos isola. Ninguém parece capaz de compreender a intensidade do que sentimos. Por vezes, nem mesmo o objeto de nosso amor. A razão e a força do amor são outras que transcendem em mistérios. Os cientistas mapeiam o cérebro para dizer o por quê amamos e como amamos. A psicologia oferece suas interpretações remotas e peculiares e os que amam simplesmente amam porque amar prescinde de qualquer justificativa racional. Como ouso racionalizar a ilusão, algo essencialmente irracional, intangível, desarmônico?
Se a retórica se faz necessária é porque não me faço entender. São pelas ilusões que desejamos, que aspiramos, que transcendemos. Que seja! Até contemplamos o ideal de felicidade! Não se nega a felicidade ou quaisquer outras sensações que a norteie, mas se expressa o contento proporcionado por uma doce ilusão enquanto seu sugo não se revela amargo.
Mas as ilusões, essas artimanhas perenes que unem destino e livre-arbítrio, não estão circunscritas às coisas do amor. Pode-se se iludir em qualquer área e momento da vida. O doente terminal pode optar pela ilusão (seja a de que vai se curar ou encontrar os parentes no além-vida) do que a crua e fria verdade que se aproxima dele. Alguns podem argumentar que se trata de fé e outros argumentarão de que se trata de uma fantasia. Uma “guerra civil semântica” será, então, instalada.
Como toda guerra civil real a história será contada pelo lado vencedor. A questão que se coloca é que a existência da fé não desaglutina o “espectro” de ilusão e a existência desta não desabona a força da fé.
Mas a ilusão alarga nosso autoconhecimento. Iludir-se é algo positivo sob a perspectiva de que nos favorece, no longo prazo, crescimento emocional, equilíbrio e autocrítica. Isso, claro, desde que nos disponhamos à análise.


Minhas férias

Desde que voltei às salas de aula, criei o hábito de escolher livros para as férias. Coisas divertidas, leves e interessantes que eu não tenho tempo de conferir normalmente. Ano passado, fiquei entre um romance super fofo (Um dia, de David Nicholls, que virou filme com a Anne Hathaway) e a biografia da Cleópatra (Cleópatra: Uma Biografia, de Stacy Schiff). Pois esse ano, escolhi de novo, mas deu tudo errado.

Coloquei na ideia que iria ler o terceiro e o quarto exemplares de “Guerra dos Tronos”, série de ficção histórica com pegada de literatura fantástica do americano George Martin. O único problema é que cada livrão pesa meia tonelada e eu corria sério risco de ser multada por excesso de bagagem no aeroporto.

Restou colocar na bolsa um pocket, da L&PM, “A dama do lago”, do Raymond Chandler, junto com R$ 10 em chiclete pra prevenir uma possível dor de cabeça no voo. Na trama de um dos mestres do policial, na década de 40 uma mulher desaparece e o marido contrata o detetive Marlowe para encontrá-la. Como deve ter sido Chandler quem criou boa parte das cenas que se tornariam dos clichês dos romances noir, o texto continua divertido. O tal do detetive metido a engraçadinho convence e há reviravoltas suficientes para que só o tal sabidão desvende o crime.

Mas o melhor achado foi fruto do acaso. Estava fazendo um artigo sobre a revolução iraniana para a pós e resolvi checar num sebo do Recife se havia o “Persépolis”, da Marjane Satapri – a indicação tinha sido feita pelo professor na aula como uma forma proveitosa de tomar contato com o Irã, tão na pauta dos noticiários. Como eu havia acabado de ver “A separação”, dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi, estava bem no clima de querer conhecer mais do país.

O livro conta do ponto de vista pessoal e bem humorado da autora, hoje morando na França, como foi a revolução popular que levou à tomada do poder pelos aiatolás por meio dos quadrinhos. Ela se revela uma criança que sonhava em ser a última profeta, descendente da monarquia derrubada por Rezah Khan, filha de comunistas, que sai do país para fugir da ditadura, volta para reencontrar a si mesma e passa o resto da vida tentando combinar a Satrapi iraniana com a estrangeira. A gente aprende história ao mesmo tempo em que ri e se emociona. O livro é dividido em quatro volumes, mas dá pra comprar a versão completa por R$ 35, como fiz em Recife.

Nas férias, leia, leia muito, leia só o que você quiser. Coisas que o dia a dia te impede de ir atrás. Mesmo que o prazo do seu trabalho já tenha acabado e você não possa incluir seus novos conhecimentos nele. Ah, sim, recomeço hoje a “Guerra dos Tronos” – mas não pensem que contarei os detalhes, considero que fazer spoilers (contar detalhes inéditos) é das coisas mais desagradáveis da internet.


O dia que faremos contato – 1

Pensei em escrever algo que penso há muito tempo, escrever sobre ETs. Não pretendo fazer a defesa da existência deles, tenho um colega de faculdade que consegue fazer, há anos, isso por nós dois. Pretendo refletir, debater, confabular, analisar e expressar a minha opinião de como será o dia em que a raça humana fará contato com uma raça que julga não habitar nossa nave mãe.

Milhares de pessoas ao redor do mundo já tiveram contato com seres que julgam de outro planeta. Sob o olhar de dúvida de outras milhares, esses seres que viram seres serviram de cobaias para testes. Essa é a teoria e a suposição de alguns estudiosos do assunto. Mas, no dia em que faremos contato, mesmo que conheçam nosso planeta melhor que nós, teremos uma longa conversa com os ETs.

Primeiro, como bons amigos, vamos mostrar nossa casa para eles. Falaremos, e iremos ao local para apresentar em suas naves supervelozes, das muitas maravilhas criadas pela natureza. Depois apresentaremos a maravilhas construídas pelos homens. Modestamente, mostraremos os avanços tecnológicos que desenvolvemos desde a descoberta da roda. Passaremos pela teoria evolucionista de Darwin. Ficaremos de nariz empinado ao falar da genialidade e a descoberta de Einstein sobre a teoria da relatividade. Nesse momento, tenho certeza, estaremos em pé de igualdade com eles. Mostraremos avanços na medicina, na biologia, na matemática, na física, na química e na educação física. Sim, a educação física será um grande trunfo, pois o que se sabe dos ETs é de que são magrelos e sem “popozudas”. Eles ficarão estupefatos com nossos avanços nessa área.

Depois, como bons amigos, vamos querer saber da sociedade em outro planeta. Ficaremos pouco impressionados com os avanços tecnológicos, pois eles já voam pelas galáxias há milhares de anos. Na medicina eles revelarão a descoberta de milhares de doenças após suas pesquisas no Planeta Terra. Na biologia estarão atrasados. Ponto para nós! Eles dirão que não tem interesse em clonar ninguém. A matemática, a física e a química avançaram junto com a viagem interplanetária. Voltaremos a nos sentir apenas seres humanos.

Depois de horas de conversa, haverá uma pergunta que vai mudar o rumo da humanidade. Eles nos perguntarão: por que vocês vivem em divisão de classes? De países? De povos? De raças? Não saberemos explicar. Eles mostrarão que no seu Planeta não há divisão. Não há líder planetário. Não há pobres. Sim, todos os ETs são ricos! Ou pobres! Sim, todos são do mesmo país! E o melhor, eles dirão, são apenas ETs.

Sinto informar, mas nem todos os terráqueos participarão desse encontro. Então, nossos líderes, representantes, cientistas não conhecerão o planeta dos ETs. Chegaremos a conclusão que os visitantes galácticos querem mesmo é destruir a sociedade organizada e comportada que construímos a milhares de anos.

Pensar em ter uma sociedade assim vai gerar muitas dúvidas. Oras, por que vamos deixar de ter medo de morrer? De ficar pobre? De não ter um líder que nos represente? De ter um ídolo do esporte, da moda, da música? Por que vamos deixar de ter empregados? Por que vamos deixar de ter diferença? Sim, eles querem nos destruir!

No dia em que faremos o primeiro contato será uma quinta-feira. O encontro será no Brasil. Numa cidade beira mar. Não será feriado. Nem véspera de Carnaval. O encontro vai ser sério mesmo! Depois de uma carta de intenções assinada pelos participantes, deixarão um segundo encontro marcado. A pauta, conto a vocês outro dia!


Desaguando

As nuvens em cima da cabeça dela ficaram muito negras, conforme a tarde ia caindo. De repente, eram raios e trovões para todos os lados, saindo de sua boca. Estava tal qual uma grande cumulonimbus, pronta a desabar. E pela madrugada a dentro, choveu e choveu pelos olhos. Encharcou o rosto, deixando-se com cara de campo revolvido. E, até que o sol atreveu-se a brilhar no alto, ela não parou de chover. Era muita tormenta para uma mulher tão pequena. Mas, quando a manhã bateu na janela, de leve, ela revirou-se na cama, já mais sensata. A nuvem agora, não passava de uma tímida cirrus. Sorriso, ainda não existia. Era pedir demais, afinal a colheita, a boa colheita, é demorada. Mas o plantio, apesar de turbulento, foi vasto. A mulher, que emergiu da menina, começou o dia arejando a casa. Enquanto isso, do seu coração, brotava muito verde uma folhinha de vida nova. Acho que era um pé de rosas.

Marina Costa


Fala que eu te escuto…

Tá bom, acho que já está na hora de um post com conteúdo de auto ajuda, daqueles que serve pra todo mundo, mas que sempre serve mais pra um aqui, pra outro ali, que encaixa com aquele dali, e assim vai.

E digo que está na hora, não porque esse seja o momento de revelar minha tendência, porque, de fato, não é minha tendência. E também não se trata de lição de moral encomendada, não. Muito menos desabafo.

É que já tem um tempo estou sentido que o povo está mesmo precisando disso. Quem é que não gosta de ter alguém que o acalante, que o abrace e conforte em um momento ruim? Muitas vezes, as pessoas nem percebem, mas procuram por algo que as façam se sentir melhor. Uns comem, outros dorme, outros gastam, outros choram…

Então aqui estou, de braços abertos, papel e caneta na mão, pronta para fazer o papel do tiozinho da tevê que diz “meu irmão, fala!, que eu te escuto…”. E não pensem vocês que me sinto mal nessa posição, pelo contrário: é quase como que ser um funcionário público, de verdade, do tipo que presta serviços à população de acordo com a real necessidade dela, sem ficar enfiando goela abaixo algo do qual nem se precisa.

Quando chove e tem enchente, por exemplo, o povo precisa ter para quem reclamar, não é? Aí o que fazem? Chamam os jornais sensacionalistas – que já fazem seu próprio drama à parte – e desabafam, pois é isso que querem naquele momento, dizer o quão a sua vida está ruim, pior agora que perdeu casa, cama, fogão geladeira e cinco quilos de arroz novinho.

Em dia de acidente, o congestionamento nas marginais e nas vias principais é de dar dó. Mais uma vez, lá estão as mídias para fazerem a sua parte em espalhar a situação de caos de miilhões de pessoas, que sofrem com o trânsito, com a poluição e até com assaltos enquanto estão imóveis no mar estático de carros. A gente escuta reclamação aos quatro cantos, quem xingue Deus e o mundo, a mãe de um vira alvo, o inferno vira próxima parada e ninguém se entende. Tipo Torre de Babel, sabe?

Se tiver greve, aí é a coisa fica feia mesmo, porque a voz do povo vira a ação do povo e infelizmente tem gente que acaba perdendo as estribeiras e desce o cacete. Estação de metrô destruída, ônibus incendiados, pessoas machucadas, embates com a polícia que só resultam em mais problemas: gente presa, machucada e às vezes até sem emprego.

Acho que a Secretaria de Saúde pública deveria é distribuir em pontos estratégicos da cidade algum tipo de posto de atendimento psicológico, em que aquele que estivesse estressado por alguma coisa pudesse desabafar ali e ter uma orientação básica e eficaz. É mais ou menos como implantar uma ligação direta nos orelhões para aquele tiozinho da tevê – o que também não seria má ideia.

Já cansamos de circo, até porque a Virada Cultural acontece só uma vez por ano e não dá conta de extravasar o que passamos todos os dias. Precisamos de algo ali, na lata, a qualquer hora, pra não deixar o copo transbordar e afogar a razão. Quem sabe desses momentos de desabafo ainda não se colha uma ideia boa para melhorar a cidade?

Aqui fica, então, meu apelo: Sr Prefeito! Sr Governador! Mandem os alunos de psicologia fazer estágio com o tio Edir! Mas, por favor, lembrem-se de não inserir na grade curricular os quesitos “Honestidade” e “Respeito”, porque para esses precisaremos de um profissional capacitado para ministrar as aulas.


Tive aulas de religião com um professor ateu

Marina Costa, a minha Clarice particular, sugere que falemos sobre religião. Hoje em dia, nada mais fácil. Começa que religião, Igreja e Deus vão logo arrolados no mesmo balaio. E há algumas instituições, como a Igreja, que não possuem direito de resposta. Vê lá se alguém, hoje em dia, é capaz de escrever um artigo defendendo a Globo, ou os Estados Unidos. Quem fizer isso ganha automaticamente um atestado de burrice. Imaginem um artigo defendendo o Sarney. Não sai. Ninguém escreve. É paulada certa. E o mesmo acontece com a Igreja. Se o Capital Inicial puxar um “Que país é este?” contra a Igreja, todo mundo vai cantar.  Por isso, nada mais fácil hoje do que escrever sobre religião.

Tive formação católica, e só me faltou ser coroinha. Fiz comunhão e crisma. E, depois, também fui um católico não-praticante – embora praticasse mais que muita gente. Um dia, fui arrastado por um rabo de saia para uma igreja evangélica. Fui lá por causa dela. Pois o rabo de saia não quis saber mais de mim. Eu podia sair da igreja, mas fiquei. Hoje eu sou evangélico – e se eu dissesse que tenho lepra, espantaria menos as pessoas.

Na faculdade de jornalismo, tive aulas de religião com um professor ateu. Na verdade, eram aulas de pesquisa científica. Mas não havia um dia que não discutíssemos religião – na visão do professor, inconcebível com a ciência. Ele nos doutrinava nas sagradas escrituras de Carl Sagan e Richard Dawkins. Lembro ainda do seu pasmo quando perguntou quantos acreditavam em Darwin. Muitas mãos ficaram abaixadas. Esse foi o mesmo professor que falou que eu não era jornalista pra trabalhar nos jornais provincianos do Paraná – sugeriu-me o Washington Post. Ele se decepcionaria ao me ver evangélico.

Mas esse professor foi particularmente importante porque destruiu a minha crença no relativismo cultural. Posso vê-lo esbravejando contra essa história de que não há verdade absoluta. Tínhamos dois braços, uma cabeça, e estávamos sentados numa mesa de madeira – isso era uma verdade absoluta. Ele alfinetava especialmente os antropólogos, para quem não era importante saber amarrar um cadarço, desde que a pessoa se sentisse bem.

Ora, esse discurso contra o relativismo também é o das igrejas. O próprio Papa vive pregando isso. O relativista é uma pessoa que consegue se abstrair do mundo e permitir que todos os outros exerçam livremente o direito de não serem relativistas. Tanto a fé como a ciência sofrem com o relativismo, e por isso a proximidade com os ateus. Eu e meu professor estamos em lado opostos quanto às nossas crenças: eu acredito e ele não. Nenhum de nós, no entanto, acha que Jesus Cristo foi um cara bacana com algumas ideias interessantes. Ora, Jesus dizia ser o filho de Deus. Ou é um maluco ou fala a verdade.

Eu poderia falar mais coisas, mas só conseguiria através de parábolas. Elas obrigam o ouvinte a pensar sobre o que está sendo dito, ou simplesmente ignorar. Os que buscam um sentido, chegam por si só às conclusões que sequer seriam consideradas se fossem ditas abertamente. Estamos com o coração duro e ainda precisamos das parábolas.

Henrique Fendrich


Full House

Acabou nesta semana, gerando grande comoção midiática, uma das melhores e mais emblemáticas séries de tv dos últimos anos. A despedida de “House” no Brasil, no entanto, só acontecerá em 21 de junho – quando o último episódio da oitava e derradeira temporada será exibido na tv paga brasileira.
Falar das qualidades de “House” não é bem o intuito desse texto. Série médica que prima pelo ar detetivesco intrínseco à personalidade de seu protagonista, o rabugento doutor Gregory House, o show rendeu merecidas comparações com Sherlock Holmes. Também é desnecessário afirmar que muito do sucesso da série se deve a seu protagonista, e nosso foco, Hugh Laurie.
Esse inglês de 53 anos não é especialmente bonito. Com formação no humor britânico e tipo franzino, trabalhou seu charme – hoje uma apoteose – no curso de sua exposição na tv americana – aonde chegou a receber um dos mais vistosos salários (cerca de U$ 400 mil por episódio).
Hugh Laurie é um poliglota artístico. Além de ator refinado, capaz de demonstrar tato e segurança tanto no drama como na comédia, é um músico em formação e um escritor bem calibrado.
Seu disco de estreia (“Let them talk”), lançado em 2011, é composto por regravações de clássicos do Blues e revela um Laurie vigoroso. Além de suavidade e firmeza nos vocais, Laurie toca piano e guitarra. O disco se revela um exercício de paixão e liberdade através da música. Já a versão literária de Laurie, ainda que não provoque o mesmo entusiasmo, cresce de tamanho no contexto geral.
Seu primeiro livro, um policial genérico, mas bem conduzido, foi lançado em 2010 no mercado brasileiro na esteira do sucesso da série. “O vendedor de armas”, no entanto, não será um fato isolado na veia literária de Laurie. Um segundo livro está a caminho.
Hugh Laurie quer voltar para Londres. Andou dizendo que flertou com a depressão e que esses impulsos artísticos ajudaram em sua reabilitação. A arte como viés terapêutico não é uma novidade. Novo, talvez seja, obter sucesso e reconhecimento por ela. Hugh Laurie não é Galileu, nem Leonardo Da Vinci. Nem ambiciona a imortalidade científica conquistada por esses cânones pouco valorizados em suas épocas. Hugh Laurie só quer voltar para Londres e deixar a vanguarda que materializa para a posteridade.


Durma-se com um barulho desses

Imagem: http://www.flickr.com/photos/reysharks/

Há momentos em que você deve avaliar se o que te ensinam na escola, o que é publicado nos jornais e aquilo que é tradição é verdade ou não. Autonomia é como um diz a propaganda do governo sobre o voto (algo mais a se pensar) um direito de todos e um dever. É por isso que eu digo que Darwin está errado. A evolução não é uma lei inexorável para os seres vivos. E a prova do furo da teoria é o pernilongo.

Pois veja meu amigo, nas noites de verão, como as que eu tenho a chance de apreciar em caráter meramente provisório, é inevitável que os malditos mosquitos nos assolem o prazer de curtir a noite. Suas picadas podem estragar o melhor dos jantares. Seus zumbidos são ainda piores, algo como um pedágio à terra de Morfeu.

Não ligaria que me picassem, se não me sugassem a tranquilidade para dormir. Levem todo o meu sangue, mas em silêncio, por favor. Aquele zzzzzzzzzzzzzzzzzzz só cessa com um travesseiro bem grande, daqueles que conseguem abafar ambos os ouvidos de uma vez. Daí o sono chega, e o corpo relaxado se vira para achar nova posição.  O travesseiro é sutilmente deslocado de cima do ouvido direito. A sensação é de ter uma sessão privê estrelada por uma britadeira.

Sair da cama é muito sacrifício. O jeito é pegar o lençol e cobrir até a cabeça. Logo percebe-se que o tecido fluido não abafa o som. A nova estratégia será combinar o lençol com o travesseiro. Talvez funcione, se a pessoa dormir quietinha agora. Como um defunto.

Vivo estarás, então prepare-se para novo deslizar de lençol. A artilharia dos mosquitos não perdoa. Juntos numa formação especial atacarão primordialmente as orelhas, o pescoço, o braço… É bem possível que picar pernas seja pouco valorizado na escala de metas da espécie.

Alguém mais afeito à preservação do meio ambiente ainda tenta o repelente.  Pode até ser que ele impeça a picada, mas o barulho, não. O som que irrita o dorminhoco não é causado durante o ato de nos sugar o sangue, isso os danados fazem em silêncio. Ainda não descobri o que é, mas desconfio que seja algo como o ronco do motor dos aviões, algo incontornável até para os excelentes engenheiros de nossa espécie.

A outra opção ao humano intranquilo é trocar o dia pela noite. Pouco depois do raiar do sol, os bichinhos buscam qualquer ponto escuro da casa e dormem como morcegos.  Claro, que involuntariamente, a pessoa já pode estar experimentando isso. Dormindo no metrô a caminho do trabalho, nos cinco minutos que restam do horário de almoço, as possibilidades tendem ao infinito.

Eis que a única alternativa é mesmo o veneno. Ou seja, levantar da cama aos tropeções, por o pé descalço no chão gelado, acender a luz e procurar onde está o DDT, o baygon, ou a arma química qualquer que esteja  armazenada em sua casa. Onde estará ele? Parece que o danado do veneno tem mais medo dos mosquitos do que eles dele. Um tempo e tanto depois o veneno é encontrado. E o pernilongo sucumbirá, ainda que fuja , despiste e dê alguma canseira. Se entregar sem luta seria algo indigno demais. Até mesmo para um chupador de sangue.

E pondo a cabeça no travesseiro, depois dessa desgastante epopeia, vem-me a iluminação: Darwin estava completamente errado. Ou ao menos, não foi picado por pernilongos o suficiente durante sua estadia nos trópicos. Pois se em todos esses anos de convivência conosco  o bicho ainda não evoluiu a ponto de suprimir o barulho, como espera continuar nessa terra? O homem vem cada dia com armas mais potentes para erradicá-lo. Se antes as bombas manuais expeliam um veneno malcheiroso, hoje ele é até bem suportável.  Não nos é tóxico também, assim é só debelar o inimigo e deitar na sequência. Se a evolução natural estivesse 100% mesmo, o pernilongo já teria se tocado. Surgiria um salvador dos mosquitos, silencioso, que impressionaria as pernilongas por sempre voltar na hora e inteiro pra casa. Acabaria com sede e filial pelo mundo todo. A nova espécie dominaria o planeta. E nós? Seríamos sugados sem ser incomodados, coisa que sempre funcionou às mil maravilhas para o homo sapiens.


Outono

Os dias de outono são os mais lindos. Cores puras. Céu de lindo azul. Fim de tarde com o astro rei mostrando sua grandeza e sua beleza. Foi com esse pensamento que caminhou pela tarde na relva que cortava os campos. Aqueles campos dos filmes americanos. Aqueles campos em que as pessoas passam a mão no mato e parecem fazer a coisa mais gostosa de se fazer.

Esse fim de tarde era inspirador. A paz do ambiente era inspiradora. O andar era inspirador. O balançar da relva era inspirador. Para que momento melhor, pensou, se tudo era inspirador?

Os dias de outono são os mais lindos. Frio na sombra. Sol aquecendo de forma a não cansar. Brisa a refrescar a pele. Vento ao fim da tarde, pensou, que faz abraçarmos a nós mesmos. Um balé de pessoas bem vestidas, rosadas, unidas pela temperatura ambiente.

Fim de tarde inspirador. Motivos para organizar o jantar da noite. Motivos para preparar o cobertor da noite. Razões para estar entre amigos para conversas e, em geral, falar sobre o frio que está fazendo. Quer assunto melhor para iniciar uma conversa do que falar sobre a temperatura?

Os dias de outono realmente são os mais lindos. Poderia ser outono eternamente, ele pediu. As pessoas veriam melhor o céu. Veriam melhor o Sol. Veriam melhor as cores da natureza. Veriam melhor a natureza. Saberiam, todo o tempo, que acabam de sair do verão. Não chegariam nunca ao inverno. Estariam sempre a aquecer a si mesmos, com abraços às bolsas e mangas das blusas, e aquecer as relações pessoais. Poderiam andar de braços cruzados sem serem acusados de inoperância. Mesmo que a pessoa diga que detesta o frio de outono, ainda seria outono e na manhã seguinte, mesmo que sem neblina, o Sol surgiria entre as árvores para aquecer a humanidade.

Como são lindos os dias de outono. Bradou, que defenda o verão quem quiser! Que fale do inverno quem puder! Que pinte a primavera quem tem inspiração! Mas o outono continuará a ter as cores e a brisa que alimenta a alma do poeta. Aproveite para ver o outono. Faça como ele, vá lá fora se inspirar!


Mimo

Quando o sol se põe no peitoril da janela alta o sorriso clareia a face dela, que mal pode esperar para ver o último raio sumir no céu. Corre ao espelho e coloca no lugar a mecha que insiste em disfarçar o olhar brilhante. Passa nos lábios um brilho com cheiro de pêssego e deixa no armário o cachecol, herança da avó. Parte em busca de calor de gente, que já passa da hora de ter. Corre contra o tempo, contra os carros, contra a saudade que invade o peito durante cada hora do dia cheio. Chega ao prédio onde ele vive, escondido em seu canto colorido, tal qual mimo gracioso em prateleira de mágicos amores… Nas escadas, já sente as pernas bambas de alegria, o coração chacoalhando de ansiedade e a boca rindo meio besta de tanta satisfação. Toca a campainha e espera, em desespero feliz! Silêncio. Pisca e entorta um pouco a cabeça, na esperança de que o movimento anuncie sua presença ansiosa. Silêncio. Ao levar a mão trêmula para tentar mais uma vez, ouve o trinco rangir e vê pela fresta fina a silhueta que tanto anseia. Não há como descrever aqui o deleite sentido e encerra-se nesse ponto a descrição desse encontro diário. Mas posso ainda ressaltar que o abraço que partilham ali é sentido por muitos amantes e perdura por muitas vidas.

Marina Costa


Quem vai pra panela??

 

Escolher feijão é uma das atitudes mais preconceituosas que eu já pude presenciar.

Quem já o fez sabe do que estou falando e entenderá meu levante. Donas de casa, manifestem-se!, e todos saberão que o que digo é a mais pura demonstração de ataque ao bem estar social de um dos grandes protagonistas da cozinha.

Quando o saco de feijão é aberto e os grãos espalhados pela mesa, entramos numa espécie de túnel do tempo, passando por praticamente todos os momentos históricos de discriminação, sejam eles declarados ou não, tanto do Brasil como do mundo.

A primeira coisa que se vê é o reich alemão na ativa, dividindo a população dicotiledônica em dois tipos: aqueles que são considerados, por uma instância superior, como bons ou ruins. Os que são julgados como bons são levados à panela, local honroso, de elite, de merecido respeito; já os que são considerados ruins, vão para os campos de concentração, isto é, para o lixo mesmo, sem dó nem piedade, como quando levavam os judeus para a camara de gás.

Depois vemos claramente a ação de apartheid: só fica quem é carioquinha. Se for fradinho, de corda, preto, bolinha, branco, jalo, tá fora! E tem quem justifique o separatismo dizendo que altera o sabor. Já vi até quem usasse a desculpa de que dá azar, que estraga rápido, que não cozinha, que engasga… Um blablablá atrás do outro.

E a coisa vai tão longe, que mesmo com aqueles que poderiam bem “dar um caldo”, com o perdão do trocadilho, são excluídos, rechaçados, estigmatizados pelo pré-conceito de invalidez: os quebrados, os tortinhos, amassados, os pequenos demais, os grandes demais, os finos, os furados… Isso sem falar nos estragadinhos, esses é que não tem vez mesmo!

Claro que, se voltarmos a pensar que são apenas feijões e que a nossa saúde depende da qualidade deles, os estragados são os únicos que realmente deveriam ficar de fora, mas apenas por uma questão sanitária. Os demais, não. Jogar fora alimento que está em condições de ser ingerido não é a melhor política. Nem dentro nem fora da cozinha.

Metáforas à parte, ao menos uma vantagem e uma reflexão importante nós podemos tirar dessa pequena crônica sócio-gastronômica: é nas pequenas atitudes do dia-a-dia, muitas vezes despercebidas por nós, que se escondem ações de grandes impacto. Às vezes positivo, às vezes negativo. Mas aí já é um outro assunto.


Chega de silêncio!

Acho melhor falar sem rodeios: há uma campanha surda contra o silêncio. Esse silêncio de quem caminha pensando na vida, de quem reflete demoradamente em busca de uma resposta, ou simplesmente de quem pára embaixo de uma árvore e observa uma flor, um inseto qualquer, ou apenas o movimento na rua. O silêncio de uma catedral, o pesado silêncio de uma catedral. Também ele está ameaçado. Consequentemente, estão ameaçadas as silenciosas atividades de poeta e cronista. E não é outra a razão do meu pessimismo senão a recente instalação nos pontos de ônibus de Brasília de um terminal com acesso gratuito à Internet. Ouvi muita gente questionando a segurança do equipamento, e outros tantos avaliando que há coisas mais urgentes a se pensar nesse momento. Ninguém, no entanto, sentiu-se ameaçado ou deixou de ver os benefícios da medida.

E o argumento principal é de que se passa muito tempo esperando o ônibus. Se o passageiro tiver um terminal em que possa acessar a Internet, acabará se distraindo, e então a espera irá demorar menos, e ele não precisará mais passar tanto tempo à toa. Não precisará passar tanto tempo consigo mesmo. Não precisará refletir sobre coisa alguma, e ainda por cima não precisará se preocupar com as pessoas ao redor, que o tempo todo chegam ao ponto cheios de dúvidas e necessidades. Pelo contrário, agora o passageiro poderá usar o seu tempo para ficar bem informado sobre coisas que absolutamente não podem esperar.
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Isso é apenas consequência de algo que já existe dentro dos ônibus, que contam com televisões, nas quais podemos acompanhar telejornais, entrevistas sobre saúde, meio ambiente, os gols dos campeonatos europeus e enquetes sobre língua portuguesa. Uma programação voltada especialmente para que você, sentado dentro do ônibus, não se sinta mal por não estar produzindo nada de útil, não se desespere por estar desperdiçando um tempo precioso da sua vida, e de quebra saiba tudo aquilo de essencial que você jamais saberia de outra maneira. O importante é que você esteja bem informado e que permaneça ativo.
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Com esse mesmo nobre objetivo, nossos celulares já contam com acesso às redes sociais. Essa evolução permite que aqueles 15 minutos – às vezes 10 – que passamos almoçando também possam ser devidamente aproveitados. Entre uma garfada e outra, podemos descobrir o que nossos amigos estão pensando e – necessidade primordial – podemos interagir com eles. A grande sacada está em ser uma pessoa conectada. Muitas coisas acontecem mundo afora enquanto você gasta o seu tempo comendo.
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Isso tudo vem se somar a outras medidas muito acertadas com as quais já nos acostumamos, como a televisão de elevador (que informa e evita o constrangimento de um silêncio coletivo) e a revista de cabeleireiro (fundamental para que você resista à tentação de pensar na sua vida). Não podemos esquecer da nossa própria televisão, ligada apenas porque nos acostumamos com o barulho, e nem mesmo do rádio que ligamos para pegar no sono. A Internet só veio colocar uma pá de cal no silêncio.
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Não tendo mais ocasião para refletir nem observar, aguardamos ansiosos a solução que nossos cientistas trarão para resolver o problema do chuveiro.
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Henrique Fendrich

Surtos inomináveis

Barreto estava ao telefone. Talvez com a gerente do banco (estava de olho em um novo fundo de um prestigiado banco americano), talvez com a dentista (um canal estava lhe incomodando naquela manhã), talvez com a personal trainer (estava pensando em adiar o treino daquele dia). Eram todas mulheres. Barreto preferia assim.
O trânsito estava infernal. Como de hábito. No carro da frente, um desses esportivos japoneses que mais parecem americanos, uma família parecia não sentir os efeitos do trânsito, da fumaça, do caos paulistano…
A mãe, supôs Barreto que fosse a mãe, dirigia e cantava. O pai, supôs Barreto que fosse o pai, batia palmas e impressionava com um sorriso largo e sincero. A menina no banco de trás, que constantemente se projetava para frente, gargalhava; e Barreto podia ouvir o doce som daquela gargalhada.
Naquele momento, repentinamente, foi invadido por um desejo irrefreável de ser pai. Estava ali, flagrado em uma contradição existencial, admirando um sonho que jamais foi seu.
Aquele momento lhe revelara sem subterfúgios a angústia da qual ele sempre se desviou. A família sempre foi um refúgio, não um destino. A paternidade sempre uma ideia, nunca um objetivo. As realizações se perderam dos propósitos e Barreto se viu, mais uma vez, desorientado. Ele não gostava de se sentir assim.
Livrou-se do cinto de segurança, abriu a porta do carro, deu oito passos e bateu suavemente na porta do motorista do esportivo japonês que mais parecia americano. No que a mulher se virou para ele com um sorriso, sacou a arma e… acordou. Estava suado e indeciso. Não sabia exatamente o que fazer com aquele sonho.


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